Crítica: Filme ‘Asa Branca’ é um produto óbvio e fraco da indústria cultural

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Crítica: Filme ‘Asa Branca’ é um produto óbvio e fraco da indústria cultural


Asa Branca” é um filme curioso. Tem a felicidade de contratar um ator como Carlos Francisco (Wandão), mas não o vemos de corpo inteiro, com seu andar tão próprio: é um desperdício, tratando-se de um filme de rodeio, quer dizer, em que as pessoas com frequência se machucam ou fraturam as pernas.

Mas também o herói do filme, Asa Branca, logo que entra em cena é derrubado por um touro e sofre ferimentos que o levam ao hospital —e o tiram da profissão de peão de rodeio. Impossibilitado de voltar à arena, ele se torna um famoso locutor de rodeios. Mas o essencial é que nem no rosto, nem nas pernas, nem em parte alguma ele traz alguma marca do acidente. Não há cicatrizes em “Asa Branca”, literais ou figuradas.

Esse parece ser o princípio do filme —obliterar todas as marcas possíveis de uma atividade perigosa. Permitir, primeiro, que a festa se manifeste à vontade, pois o objetivo do filme não é mostrar o homem do interior (agroboy, agrogirl, cowboy ou o que seja) como ele é, mas como ele gosta de se ver.

E “Asa Branca” cumpre esse objetivo. O sertanejo ainda é um forte, mas de outro modo: ele quer subir na vida —Asa Branca está nos rodeios para isso—, ganhar dinheiro, usar botas reluzentes, parecer texano.

De acordo com o filme, ele pode até estar contaminado pelos usos metropolitanos, mas seu coração permanece puro. É o caso do Asa Branca: ele não se conforma com a caipirice de nossos rodeios, por isso larga a noiva por quem é apaixonado e vai até os Estados Unidos —como imigrante ilegal, diga-se— para aprender novos truques e modernizar as coisas no interior paulista.

Ele chega à glória e à riqueza. Mas com ela vêm juntos todos os males importados da cidade: a soberba, as festas e bacanais, o pó… e a volta à pobreza. O roteiro é manjado demais —ele terá de dar a volta por cima, se mostrar mais confiável ao mundo dos negócios, tentar reconquistar a namoradinha que deixou na mão desde que foi para os EUA etc.

A omissão da fragilidade física em “Asa Branca” será, desde o início, o aviso de que outras fragilidades virão. O uso exaustivo do vai-e-vem entre sucesso e fracasso parece saído da compreensão mecânica de um manual de roteiro da moda —que são já de si meio mecânicos—, já anuncia um filme fundado sobre clichês muito gastos.

A recusa em mostrar a paisagem —por vezes aparece, sempre verdejante— e outro trabalho que não o de rodeio impede o espectador de entrar em contato com aquilo que faz a força do interior —o gado, as plantações, o agronegócio, em suma, sua riqueza e complexidade.

O triunfo da exibição asséptica dos corpos num filme sobre rodeio começa já nas primeiras imagens. Na abertura, o partido é o do filme publicitário —peões e seus cavalos, movimentos ora violentos, ora em câmera lenta, flashes rápidos do público reagindo. É praticamente impossível não lembrar daquela velha publicidade dos cigarros Marlboro.

O filme passa por fiscais corruptos e por empresários quase fracassados, mas nada muda —a visão continua a ser mazzaropiana, a de um interior que não chega a ser idílico e sem conflitos, mas que é limpinho até nas orgias.

“Asa Branca” poderia tratar de halterofilistas ou cantores: a fórmula se aplica, a rigor, a qualquer objeto. “Asa Branca” é apenas um produto da indústria cultural. Um produto sempre óbvio e fraquinho. Não será espantoso se fizer sucesso.



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