Crítica: Documentário ‘Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá’ é carregado de significação

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Crítica: Documentário ‘Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá’ é carregado de significação


A premiação de “Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá” como melhor direção no Festival de Brasília do ano passado mostra como pode ser delicado o trabalho de um júri. O filme de Sueli Maxakali certamente é um evento importante e, se concorria, não deveria sair sem um prêmio.

Mas melhor direção, admita-se, parece um tanto paternalista. Afinal, trata-se de indígenas filmando a si mesmos, mas ainda assim são pessoas que vêm de uma outra cultura. Como comparar seu trabalho aos demais?

O fato é raro porque os indígenas nunca deveriam ter sido contatados por brancos de outras culturas. Fazê-lo é condená-los —quando não à morte prematura— à perda de sua identidade, o que se pode ver nas imagens em que estão vestidos com roupas ocidentais.

No entanto, uma vez acontecido o que aconteceu, esse filme demonstra que o cinema pode ser uma arma de sobrevivência e encontro, especialmente porque os Maxakali são um povo disposto a não perder, na medida do possível, sua identidade.

Outra arma, por incrível que pareça, é o telefone celular. Isso porque esses sobreviventes relatam que, no tempo da ditadura, foram oprimidos, retirados de suas terras —que seriam no hoje Mato Grosso do Sul—, agredidos e, finalmente, separados em grupos que hoje ocupam diversas reservas em vários lugares.

No filme, Sueli procura seu pai, Luis, o andarilho, aquele que ninguém sabe onde está. Enquanto busca, nos mostra sua comunidade e alguns dos seus integrantes. A diáspora, a busca por terras que tivessem não apenas um solo bom para plantio, mas também a água: onde se banham os deuses.

O filme mostra também as dificuldades por que passam os indígenas. Não é preciso nem explicitá-las. Basta olhar seus rostos, a modéstia dos trajes, o pai que a hora tantas diz ao filho que vai lhe comprar biscoitos. O branco não precisa nem ser perverso: o contato já o é. O contato é a doença, o que traz a doença, como diz um deles.

Não se trata, no entanto, de um filme de denúncia. Não é nem preciso denunciar: são histórias de terras roubadas e exílio. Elas resumem o desnaturamento de que são vítimas os indígenas. Quando se trata de falar sobre o que sofreram durante a ditadura, e depois dela, não há grito nem choro; basta a narração seca do que sofreram. Basta, por exemplo, a simples menção a um certo capitão Pinheiro. Certos nomes não se esquecem porque carregam o terror consigo.

Não há lamentos: foi assim que aconteceu. Ponto. Em certos momentos a história está inscrita nos rostos, em outros, nos trajes. Mesmo porque a história da relação com os brancos é isso: ser ameaçado, transformado em mão de obra compulsória, comer restos de outros, etc. E, sobretudo, serem tirados da terra.

Não entendemos (eu, pelo menos) muito das relações familiares entre eles, que parecem envolver inclusive outros povos —deu a impressão de que os brancos juntam maxakalis com guaranis, por exemplo.

Esse caos por vezes é compensado pelo empenho dos maxakalis em manter seus costumes, cantos, danças, pinturas, deuses. Verdade que os cantos falam até de “mata grande” e a essa não somos apresentados.

Existe, por fim, Luis, o andarilho, o pai de Sueli. Graças aos celulares, acredito, ele é localizado. Não é fácil. Sua entrada em cena é antológica. Ele aparece vindo por uma portinhola, andando de quatro, chega aos poucos. Incrível como lembra a entrada em cena de Nanook, no filme de Flaherty, um século antes. Ele fala, não sem dificuldade, de sua busca, de suas andanças, da busca de terra boa. Depois aparece retirando mandioca da terra.

Impossível não lembrar também de nossas relações com os indígenas. Roquette Pinto, que estava com Rondon, os via como uma preciosidade brasileira, pois eram uma sobrevivência da pré-história. Lévi-Strauss os filmou e demonstrou que cada cultura tem seu próprio caminho e é ilusão pensar que a civilização ocidental seja melhor que a deles. Outros etnólogos registraram em filme seu sofrimento.

Temos também os filmes de Andrea Tonacci, apaixonados por suas culturas. Mais recentemente, João Salaviza e Renée Nader Messora são os cineastas que melhor conseguiram captar a relação dos indígenas brasileiros com o mundo que os cerca (e os acossa).

Mas, de fato, o filme de Sueli Maxakali (e outros) traz algo de diferente: aqui os indígenas produzem a imagem de si mesmos com desenvoltura; falam aos homens da civilização não como vítimas, mas como seres vivos, seres da terra e da Terra. Convém ouvi-los, pois têm algo dizer.

No fim, o prêmio de melhor direção foi, provavelmente, um gesto de sabedoria do júri diante de material tão original e carregado de significação.



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