Crítica: De sertanejo a metal, livro mostra como 1985 foi emblemático para a música brasileira

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Crítica: De sertanejo a metal, livro mostra como 1985 foi emblemático para a música brasileira


O autor e produtor musical Célio Albuquerque continua sua missão de radiografar a história da música popular brasileira. Depois de organizar as coletâneas de ensaios “1973 – O Ano Que Reinventou a MPB” (2014) e “1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB” (2022), ele agora lança, pela Garota FM Books, o volume “1985 – O Ano Que Repaginou a Música Brasileira”.

O livro tem 85 textos sobre discos lançados durante o ano de 1985, além de quatro ensaios introdutórios que buscam situar o leitor naquele ano tão emblemático, incluindo um texto do jornalista e pesquisador musical Luiz Felipe Carneiro sobre o maior evento musical do ano, o primeiro Rock in Rio, e outro, de autoria do jornalista Washington Santos, que explica o contexto social e político da época, com o fim da ditadura militar e o início da redemocratização.

A escolha dos discos não poderia ser mais eclética: tem rock, pop, MPB, música instrumental, punk, sertanejo, forró, samba, axé, experimentalismos e heavy metal. De Sepultura a Anastácia, de Egberto Gismonti aos Garotos Podres, está todo mundo lá. Ou quase todo mundo: uma ausência sentida na lista de discos analisados é a da música infantil de A Turma do Balão Mágico, Xuxa e Trem da Alegria. Aquele período consolidou a força da música para crianças e teria sido interessante uma análise sobre o fenômeno.

Uma curiosidade do livro é que alguns músicos foram convidados a escrever sobre os próprios discos. Assim, Amelinha fala sobre o LP “Caminho do Sol” e explica como a maternidade a ajudou a “ressignificar o porquê de cantar”, e a forrozeira Anastácia comenta “30 Anos de Forró”: “Aos 70 anos de carreira, voltar ao meu álbum de 1985 é especial. Foi um disco muito importante, um balanço da carreira até ali e um sucesso de vendas”.

Outros nomes importantes que discorrem sobre os próprios trabalhos são Fátima Guedes (“Sétima Arte”), Marcos Sabino (“Simples Situation”), Charles Gavin (“Televisão”, do Titãs), Leo Jaime (“Sessão da Tarde”) e Guilherme Arantes (“Despertar”).

É interessante ler o depoimento de Guilherme Arantes e perceber como ele se sentia deslocado no período: “O ano de 1984 foi muito competitivo no mercado, especialmente do pop rock que dominava o rádio, a TV e o showbiz. Eu andava desnorteado com a velocidade do ‘hype’ e com a chegada de novos artistas na minha área, muitos ‘new romantics’ como Dalto e Ritchie, vendendo barbaridades, e eu havia ficado para trás”.

Alguns textos são reveladores para contextualizar o período por que passavam determinados artistas. No ensaio sobre o disco “Sem Pecado e Sem Juízo”, de Baby Consuelo, o autor Júlio Diniz lembra que a cantora não emplacava um grande sucesso desde 1979, com a gravação da faixa “Menino do Rio”, de Caetano Veloso, e que o consagrador show dela com o então marido, Pepeu Gomes, na primeira edição do Rock in Rio, realizada em janeiro de 1985, atraiu muita atenção para a cantora. O resultado, segundo Diniz: o álbum vendeu mais de um milhão de cópias e a canção que dava nome ao disco entrou para a trilha da novela “Roque Santeiro”.

Sobre o disco “Malandro Rife”, de Bezerra da Silva, o autor Luiz Antonio Simas escreve: “Entre a divisão rítmica do canto do coco de embolada e o canto malandro do sincopado carioca, Bezerra produziu um contundente retrato da violência urbana e cotidiana da grande cidade e produziu, mais do que um álbum, um testemunho de uma época efervescente na política, na cultura e na sociedade brasileira”.

É muito interessante ler o texto de Leoni sobre o LP “Cazuza” e descobrir as mudanças que Leoni promoveu na letra da principal canção do disco, “Exagerado”: “Joguei fora imagens inusitadas e primorosas, tornando a letra mais palatável ao grande público, mas um pouco menos original”.

Outro ensaio revelador é o de André Piunti sobre o disco “Fotografia”, de Chitãozinho e Xororó, na qual o autor, além de se debruçar sobre o LP, revela a realidade um mercado musical sertanejo que ainda não havia atingido seu auge comercial: “a dupla seguia incomodada com o atraso do mercado sertanejo em relação ao resto da indústria musical: shows com menos estrutura, som de qualidade inferior e discos com produções que não faziam frente ao trabalho de grandes artistas de outros gêneros”. Isso, claro, mudaria poucos anos depois, quando a música sertaneja explodiria em todo o país.

A exemplo de quase todas as coletâneas de textos, “1985 – O Ano Que Repaginou a Música Brasileira” é um tanto irregular, alternando ensaios muito bem escritos e pesquisados com outros menos inspirados. Mas o livro vale pela visão panorâmica da música brasileira do período e também por não esquecer lançamentos independentes, como discos de Fellini (Lorena Calabria), Garotos Podres (Luiz Thunderbird) e Rumo (Carlos Cê Evandro).



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