Crítica: Dahlia de la Cerda narra feminismo com sangue e cultura pop à Tarantino

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Crítica: Dahlia de la Cerda narra feminismo com sangue e cultura pop à Tarantino


“Talvez essa seja a sua missão. Reunir os ossos das mulheres mortas, juntá-los, contar suas histórias e depois deixá-las correr livremente para onde quer que tenham que ir.”

É assim, com uma paráfrase de Selva Almada, que a escritora e ativista mexicana Dahlia de la Cerda define a razão de ser de sua coletânea de contos “Cadelas de Aluguel”.

Publicada pela DBA em tradução cuidadosa de Marina Waquil, a obra flerta com o romance mosaico, com personagens recorrentes e episódios contados sob diferentes perspectivas.

Embora seja inevitável aproximar a escritora de outras latino-americanas que tematizam a violência extrema, De la Cerda tem estilo próprio. Como se fossem incompatíveis com a crueza de seus relatos, não se permite os giros poéticos de Almada, e, enquanto autoras como Mariana Enríquez e Mónica Ojeda constroem atmosferas densas e um terror psicológico sofisticado, a mexicana preza pelo choque imediato e pela oralidade.

Sua estética da urgência se nota desde o primeiro conto, que ecoa a cena inicial de “Cães de Aluguel”. Se no filme de Quentin Tarantino criminosos discutem o significado de uma canção de Madonna, em “Salsinha e Coca-Cola” uma jovem assiste a “Meninas Malvadas” enquanto engole não pipoca, mas comprimidos de misoprostol —medicamento utilizado para abortar. O espelhamento crítico da mistura de cultura pop e sanguinolência do filme será uma tônica do livro.

Seus 13 contos são narrados por mulheres e em primeira pessoa, criando um senso de proximidade, mas também de repetição. Por mais diversas que as protagonistas sejam —uma assassina de elite, uma herdeira do narcotráfico, uma beata, uma operária de uma maquiladora, entre outras— , há certa homogeneidade em suas vozes.

O tom blasé delata a naturalização da violência sofrida ou exercida por essas mulheres e elude sua vitimização, mas, por vezes, empobrece seu mundo interior, tornando-as reativas e unidimensionais.

De la Cerda desdenha, além disso, das convenções literárias. Contrariando o preceito “mostre, não diga”, nomeia os estados de espírito de suas personagens sem descrevê-los (“tive um ataque de pânico”, “estou descontrolada”).

Essa enunciação direta transmite crueza e imprime ritmo à narrativa, mas reduz a densidade emocional do texto e as possibilidades de empatia. Frases de efeito e desfechos bombásticos tentam, sem sucesso, recuperar o impacto sobre o leitor.

Suas mulheres matam, mas, honrando a irreverência mexicana diante da morte, nem sempre morrem ao serem mortas. Mesmo que apareça de forma episódica, em um aceno incompleto ao realismo mágico, o sobrenatural responde por alguns dos pontos altos da obra.

No conto “Cu de Palha”, a protagonista faz um pacto eleitoral com o Diabo pela vitória do candidato do PAN —o eterno partido de oposição do México. Em outra ocasião, o demônio exige que ela frequente cultos protestantes e lhe explique sua popularidade.

É claro que, em tempos de “Emilia Pérez”, não se pode negar a legitimidade do projeto literário de Dahlia de la Cerda, uma das autoras confirmadas na Flip 2025, que acontecerá de 30 de julho a 3 de agosto em Paraty.

A banalização da brutalidade e da linguagem que a descreve lembra de que a violência contra as mulheres nada tem de extraordinário. Ao recusar um tom alarmista, a autora pede, a olhos dessensibilizados pela cotidianidade desse tipo de violência, que regenerem sua capacidade de espanto. Contudo, sua escrita ágil não sustenta plenamente o peso da experiência narrada.

Como a lendária La Huesera, De la Cerda junta os ossos de mulheres mortas e lhes devolve a vida. Por meio desses corpos marcados por classe, raça e geografia, dá concretude ao feminismo teórico e abstrato.

Parece responder a Simone de Beauvoir: não se nasce narcogirl, torna-se. E uma de suas narradoras esclarece a Virginia Woolf que “não existe um teto todo seu quando acreditam que nosso corpo pertence a eles”.

“Cadelas de Aluguel” grita que se nada —a casa, a rua, o corpo— é refúgio para as mulheres, tampouco a literatura deve ser.



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