Em “Continente”, a jovem Amanda, papel de Olivia Torres, retorna ao Brasil após anos e anos vivendo na França, trazendo seu namorado Martin, interpretado por Corentin Fila. Volta para ver o pai, que se encontra à morte em sua fazenda, no Sul.
Já à chegada percebe que os peões da fazenda não estão satisfeitos —todos olham torto, desconfiados, para os recém-chegados. O espectador pode pensar em trabalho escravo, tal a maneira autoritária como os trata o capataz do lugar. Ouvimos algo como “acerto”, como se houvesse algo a ser pago pelo patrão doente, e o capataz estaria ali para segurar as pontas.
Mas essa impressão se desfaz à medida que o filme avança, assim como algumas outras hipóteses. Por exemplo, as marcas que as pessoas trazem no corpo, sobretudo nos braços, que obrigam a médica do lugar a dar pontos para fechá-las.
O que significam? Talvez o anúncio do terror que virá. Pois outros sinais se acumulam. A fazenda produz exatamente o quê, além de medo? Não se sabe. O pessoal, quando aparece, ora desconfia, ora assume a postura de zumbis, ora parecem vampiros.
O lugar parece tomado por alguma maldição. Para exorcizá-las, talvez, os peões se dedicam à noite a rituais de canto, dança e lutas que remetem a algo primitivo, mas indeterminado. O fazendeiro mandou Amanda para a França ainda criança para mantê-la longe dali. É tudo muito vago. A médica, Helô, distribui pílulas para os locais. São algo clandestinas, mas não é possível captar qual é seu efeito.
Pode-se dizer que entre ricos e pobres tudo vai igualmente mal. Parece que Davi Pretto, diretor do filme, investe numa espécie de dandismo niilista —o mal consome tudo, pelas feridas que aparecem e por tudo mais. Ninguém vai embora. Ninguém escapa à maldição. Nem o francês Martin, que chega tranquilo ao local e escapa à tensão crescente. Ele quase sempre observa tudo um tanto pasmo.
Mas o pasmo tem hora para acabar. Depois de muito se anunciar, o terror se manifesta. As feridas já não se curam, elas sangram. A casa grande, que nunca pareceu um refúgio, agora está longe disso —pode ser invadida. Mesmo o automóvel, que aparece já no começo do filme, não representa possibilidade de fuga.
Mas, como já disse o crítico colombiano Ignacio Fuentes a respeito de certos filmes de terror, “parece o final da Hammer: muito sangue e nenhuma força”. A Hammer, convém explicar, foi uma célebre companhia britânica especializada em filmes de horror. No fim dos anos 1950 se tornou célebre com os filmes dirigidos por Terence Fisher, com Christopher Lee e Peter Cusching à frente. À medida que a produção se aproxima dos anos 1970, os filmes decaem brutalmente.
Daí a observação, que se encaixa bem no terror de “Continente”. A sangueira é a saída para esse lugar sem saída. Cobre a terra toda, os mortos e os ainda vivos, como se o único fertilizante para essa terra fosse o sangue.
Pode ser que Pretto, ao mostrar essa terra desolada e infértil, fale do Brasil? Certamente. Mas esse simbolismo não basta. O terror é um gênero exigente, e “Continente” ainda parece incipiente.




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