Crítica: Barbara Gancia discute alcoolismo com leveza alentadora em livro

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Crítica: Barbara Gancia discute alcoolismo com leveza alentadora em livro


A jornalista Barbara Gancia está de volta. Seu livro “A Saideira” acaba de ganhar uma edição revista e ampliada, pela editora Matrix.

É um deleite para uma alcoólatra encontrar uma obra como esta. A autora acrescentou à nova versão um relato sobre como foi ter seu livro traduzido para os palcos na pele da atriz Marisa Orth, de quem sempre foi fã.

O espanto que Barbara relata ter sentido quando Bruno Guida, diretor da peça, a procurou foi semelhante ao meu diante da ótima recepção da coluna Vida de Alcoólatra, que sai às segundas-feiras na Folha. Quem, afinal, estaria tão interessado no assunto? Pois é, muita gente.

No fundo, tenho certeza de que sabemos bem (Barbara e eu) quanta gente sofre de alcoolismo e a importância que é ter um espaço para falar abertamente sobre o assunto. Ambas somos frequentadoras de grupos de Anônimos —eu, Alcoólicos, e ela, Narcóticos— irmandades parceiras e fundamentadas pelo mesmo programa de doze passos. Como tudo é muito silencioso com essas doenças, é importante ter uma voz corajosa e pública como a dela para debater questões urgentes.

A leitura é deliciosa para qualquer pessoa, tenho certeza, pois mesmo aqueles que não têm problema com a bebida conhecem alguém que tem. Quando saiu a primeira versão, em 2018, eu atravessava os primeiros anos de abstinência, e o livro foi uma doce companhia para os meus dias de solidão. Consegui rir em muitas passagens, como quando ela conta que, embora santista, bebia em todos os jogos do Corinthians, quer o time ganhasse ou não.

Diferentemente do assunto, o livro não é pesado. Na verdade, é de uma leveza e descontração alentadoras. Eu me reconhecia em cada página, apesar de à época nunca ter conversado com a autora. É assim que funciona. As histórias dos alcoólatras têm a mesma base, só mudam os personagens.

Vi a peça duas vezes, e nas duas encontrei muitos companheiros de sala de Alcoólicos Anônimos na plateia. Claro! É uma festa constatar a maior visibilidade da doença. A vitória é coletiva.

Afinal, é assustador saber que o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil responde por 12 mortes por hora e custa, por ano, R$ 18,8 bilhões ao país, dado de uma pesquisa da Fiocruz que consta do livro. É necessário divulgar esses números, falar dos possíveis tratamentos para a doença e, sobretudo, frisar que existe uma vida maravilhosa sem álcool para aqueles que perderam o controle em sua relação com a bebida.

Ruy Castro, personagem do livro e também alcoólatra, escreveu no prefácio que a leitura “encerra lições para todos nós que tantas vezes achamos que os prazeres que a vida nos oferecia estavam sendo dados de graça”.

Pois é. O preço foi alto para Barbara, que, entre outras coisas, perdeu a visão de um dos olhos, e para mim que, também entre muitas coisas, perdi a mobilidade da mandíbula.

Lembro que, quando ficava muito bêbada, me sentia rica e saía pagando a conta de muita gente, além de fazer outras estripulias com dinheiro que me custavam muito caro depois. Barbara, filha de uma família da alta sociedade paulistana, pelo menos podia se permitir aventuras mirabolantes.

“A Saideira” é um livro recheado de histórias e, sobretudo, de um universo de sensações muito particular, que fala diretamente com quem bebeu muito, mas que também é didático (e divertido) para quem só é curioso mesmo.



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