Crítica: Autora de ‘Estação Onze’ faz ficção especulativa reflexiva, mas genérica

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Crítica: Autora de ‘Estação Onze’ faz ficção especulativa reflexiva, mas genérica


Duas das filósofas mais apaixonantes do século 21 relacionaram de modo íntimo as noções de atenção, arte e amor como formas de lidar moralmente com a realidade. Um poeta, disse a francesa Simone Weil, só produz o belo após fixar sua atenção em algo real.

O mesmo se dá com o amor: saber que uma pessoa existe tanto quanto eu existo é o bastante para que eu faça o bem; o resto se dá naturalmente. Mais tarde, a irlandesa Iris Murdoch (que também foi romancista) escreveu que arte e moral têm como essência o amor, que definiu como “a percepção extremamente difícil de que algo alheio a nós mesmos é real”.

O protagonista de “Mar da Tranquilidade” —que só se revela no meio do livro e, para evitar spoilers, fica aqui anônimo— personifica as benesses e complicações morais que esse imbricamento entre atenção, amor e realidade produz. Em 2401, ele vai passar por dois empregos precisamente devido à sua capacidade de contemplação.

Primeiramente, ao obter uma vaga como segurança, descobre que recebeu uma nota alta no quesito “prestar atenção” e se dá conta de que é a única coisa que sempre fez bem.

O segundo ofício é mais delicado. Como investigador do Instituto do Tempo, órgão estatal da primeira colônia lunar, o personagem viaja por diferentes eras e astros e tem que prestar muita atenção —mas só ao que pode ter afetado a linearidade do tempo.

Sua tarefa é entender por que “momentos de séculos diferentes estão vazando uns nos outros”, como explica sua irmã e instrutora. Para tanto, é preciso não olhar muito à volta, não perceber que outras pessoas são tão reais quanto ele próprio. Amar a humanidade, talvez, mas não os humanos em suas singularidades.

Um jovem aristocrata inglês na inóspita costa oeste canadense no início do século 20, um músico americano na véspera da pandemia de Covid-19, uma escritora da segunda colônia lunar que lança na Terra seu romance “Marienbad” (piscadela para quem viu o filme de Alain Resnais) nos primeiros dias do surto de uma gripe que mataria milhões em 2203.

Esses são alguns dos personagens e momentos estrategicamente bagunçados no romance de Emily St. John Mandel, primeiro a sair no Brasil após o belo “Estação Onze”, de 2015 (“The Glass Hotel”, de 2020, não foi publicado por aqui).

Como se nota, temas caros a Mandel voltam à cena: além das pandemias —agora mais à flor da pele, já que “Mar da Tranquilidade” foi escrito durante o confinamento de 2020—, a canadense volta a pensar sobre como um ser humano pode ser feliz longe da Terra, bem como sobre as relações humanas e a possibilidade de alegria e de beleza em meio a catástrofes.

Acrescentam-se aqui um mergulho na chamada hipótese da simulação e a consequente reflexão acerca da natureza da realidade. Ou, mais importante, uma ponderação sobre o que verdadeiramente importa: será o mundo efetivamente concreto ou aquilo que nos move, mesmo que não exista materialmente? Em certa medida, o romance nos faz pensar em como seria se Neo deixasse para lá a destruição da Matrix e fosse amar Trinity em paz.

Pensando bem, ele é também um elogio à ficção. Só que um pouco capenga, infelizmente. O novo romance de Mandel se dedica sobretudo ao potencial de pensamento reflexivo da ficção especulativa. Valendo-se de temas tradicionalmente caros ao gênero, ele nos faz pensar seriamente no que nos faz humanos e reais.

O paradoxo é que, enquanto seus personagens prestam atenção uns aos outros, observando-os em suas densidades específicas e sofrendo as consequências disso, Mandel não parece amá-los tanto assim — certamente não tanto quanto amava o universo humano de “Estação Onze”.

Talvez por serem muitos, eles e elas se apresentam a nós de modo esquemático, como dispositivos em função das questões que o romance apresenta e com as quais acabamos por nos envolver intelectualmente, em sua generalidade, mas não afetivamente, em suas singularidades.

“Não contemplamos nada sem amor”, escreveu Weil. “A beleza do mundo é a ordem do mundo amado”. Falta beleza aos mundos de “Mar da Tranquilidade”.



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