Crítica: ‘Árido’ renova críticas sociais de ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos

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Crítica: ‘Árido’ renova críticas sociais de ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos


Lançado em outubro, “Árido” é uma coletânea de cinco contos homenageando um clássico de 1938, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. No jogo de palavras dos títulos, a associação mais óbvia é com um imaginário do Nordeste seco, de sofrimentos e dificuldades que endurecem a tudo e a todos.

Nisso, arriscamos passar batidos pela sede de um Menino Mais Novo querendo se parecer com o pai, de um Menino Mais Velho tentado se apropriar do sentido das palavras, ou de Sinhá Vitória desejando dormir em uma cama de tiras de couro, vivendo uma vida diferente.

Graciliano dá vida ao que a literatura parece ter de mais essencial: a capacidade de nos fazer alcançar alguma coisa muito profunda na existência humana. Ao nos fazer experimentar sentimentos e situações, compartilhar o medo, a angústia ou a tristeza profunda de personagens não raro fundamentalmente diversas de nós —marcadas que são pelas circunstâncias de um lugar ou momento histórico específico—, essa arte nos desvenda.

Assim como “Vidas Secas”, “Árido” é um título duro e talvez menos esperançoso. Ainda que em ambos os livros a crítica social esteja no cerne, agora sua abordagem é atualizada. Não apenas porque em uma de suas histórias é um dilúvio lento —não mais a seca— o que move tudo, mas porque os temas sociais do nosso tempo é que estão no centro.

As cinco pessoas que assinam o livro vêm das cinco regiões diferentes do Brasil, o que se reflete em como constroem suas histórias, habitadas por personagens de pele escura e uma mulher trans, por exemplo, com seus estilos de escrita próprios e sem estereótipos.

É uma combinação excepcional, que espanta rótulos apressados como a —obsoleta— classificação de “regionalista”, utilizada em outros tempos para marcar obras de escritoras e escritores de fora do Sudeste.

Em “Os Pioneiros”, de Fabiane Guimarães, conhecemos a dona Fatinha. Seu filho, que não vem em casa há 18 meses, avisa que um povo que lê cavernas vem para decifrar pinturas rupestres em seu sítio. Do alto de seus 89 anos, ela se emociona pelo interesse na gruta que conhece em detalhes e pela qual nutre tanto amor. O encontro, no entanto, é marcado por um profundo desencanto, em face a uma espécie de extrativismo cultural.

Em “A Chuva Lenta”, de Tanto Tupiassu, Mariinha, Marapá e a menina, viviam tranquilamente, meio isolados em sua ilha, até que os encantados vêm de outro mundo buscar o que lhes era devido. Não deixando nada para trás.

Outra dívida é cobrada em “O Sítio Ruim”, de Cristhiano Aguiar, em que a Emanuel, ainda se descobrindo dentro de seu novo pronome, tem de encarar o fascínio suas tias, por conta de um contrato familiar assinado muitas gerações antes.

Por fim, em “A Campanha”, de José Falero, e “O Menino Mais Novo”, de Ana Paula Lisboa, perdemos o chão, o tempo parece congelado. Só nos resta o desamparo. Viramos as páginas com ansiedade, já sabendo o final das histórias dos dois meninos que são, ao mesmo tempo, excessivamente dolorosas e cotidianas.

“Árido” também chama a atenção pelo belíssimo projeto gráfico. As xilogravuras de Gessica Ferreira, que ilustram a capa e permeiam todo o livro, introduzem os contos com delicadeza e sensibilidade, como num instantâneo.

E quase instantânea seria a leitura: é um livrinho curto. Seria possível ler numa sentada se cada conto não nos deixasse com o ar em suspenso e o coração na mão, com o peso e a profundidade de cada uma de suas histórias. Em algumas viramos as páginas com ansiedade, mesmo já sabendo o final, tão dolorosamente cotidiano.

As últimas mudanças na lista de livros da Fuvest , que passará a ter apenas autoras mulheres, reavivaram esse antigo debate e a discussão sobre o que faz de uma obra um clássico talvez nunca tenha fim (oxalá assim seja!).

Talvez seja verdade, como se diz por aí, que um livro se torna um clássico quando influencia outras autoras e autores a alcançarem alguma coisa muito profunda em nós. Se assim for, “Árido” está (re)fazendo de” Vidas Secas”, um clássico.



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