Crítica: Amin Maalouf narra lenda de homem que vira estrangeiro irreversível

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Crítica: Amin Maalouf narra lenda de homem que vira estrangeiro irreversível


Vencedor em 1993 do prestigioso Prêmio Goncourt, de língua francesa, o romance “O Rochedo de Tânios”, de Amin Maalouf, acaba de ter uma nova edição e (boa) tradução em português.

A ação do romance se situa nas décadas de 1830 e 1840, na região de Monte Líbano, uma cadeia montanhosa ao longo da costa do Mediterrâneo habitada por diversas comunidades religiosas, o que inclui os católicos maronitas, fiéis ao papa romano, aos quais se filia a família materna de Maalouf.

Considerada o berço do moderno Estado libanês, há ainda na região uma importante presença de drusos, ortodoxos, muçulmanos sunitas, por exemplo.

Nesse período, é sabido que o local foi palco de uma disputa que opunha o Império Otomano e o Egito, que tinha pretensões expansionistas em direção ao Levante, vale dizer, a região hoje ocupada por Síria e Líbano.

Desgraçadamente, como de costume, não eram apenas os países fronteiriços a fomentar o litígio, mas também as potências imperiais da época: a França, que tinha laços históricos com os egípcios maronitas e interesses econômicos em todo o Mediterrâneo Oriental, e a Inglaterra, que via com maus olhos a invasão egípcia e a desestabilização do Império Otomano na região, tanto por temor do prejuízo de suas rotas comerciais para a Índia, como pela aliança estratégica contra a expansão russa.

No romance, as disputas geopolíticas maiores são sobrepostas com habilidade às pequenas dissensões da região, às brigas de vizinhos e até às fofocas maledicentes espalhadas pelas aldeias.

Então, no ponto de inflexão dessas forças de grandezas assimétricas, vem para o primeiro plano uma existência tão miúda e insignificante como a de Tânios, o presuntivo filho bastardo de um xeique conhecido por ser sexualmente incontinente, a ponto de não ter freio ou pudor de possuir a bela mulher, de “temperamento primaveril”, do seu intendente.

Quando ocorre plenamente essa sobreposição fortuita entre a estratégia programada das potências e a lida cotidiana da gente miúda, o menino crescido com a consciência aguda da origem turva se vê alçado, a despeito de si mesmo, ao estatuto de uma figura lendária. O modo como isso ocorre é misterioso, assim como o seu desaparecimento súbito, como que desvanecido no ar.

Para decifrar então o segredo de Tânios, a composição do romance alterna fontes variadas, todas elas saborosas e pinceladas com suaves símiles poéticos. A primeira, de natureza oral, remete à memória do tempo de criança do narrador, quando ouvia maravilhado as histórias contadas por Gebrayel, um antigo morador da aldeia de Tânios, enquanto se serviam de copos de xarope de amora.

Além da memória de criança, a composição funde outros três “documentos autênticos”, de natureza impressa. O primeiro é a “Crônica Montanhesa”, obra do “monge Elias”, da aldeia de Kfaryabda, escrito ao final da Primeira Guerra Mundial. Os outros dois textos são mais antigos, produzidos ainda na época de Tânios.

Um era “A Sabedoria do Tropeiro”, que reunia máximas e sentenças do mercador ambulante Nader, “o ímpio”, que a murmuração da aldeia assegurava ser homossexual e que, além de leitor insaciável, era admirador ardoroso do Iluminismo, da Revolução Francesa, e principalmente do rolar de cabeças aristocratas.

O outro se intitulava “Efemérides”, de autoria do reverendo irlandês Jeremy Stolton, que chegou a ser professor de Tânios, para escândalo de boa parte da aldeia, fiel à Igreja Ortodoxa.

Dessa mescla de fontes e registros, resulta que o desaparecimento de Tânios testemunha a consciência de um homem que, de repente, se percebe incapaz de pertencer a sua própria gente, constituindo-se irreversivelmente como estrangeiro.

A lenda de Tânios se revela então menos relativa ao rochedo a que dá nome do que ao mar à sua frente, que se avista como um horizonte ou uma estrada. Certamente a lenda também recobre a experiência do próprio Maalouf, que não apenas deixou a região como escreve em francês desde 1976.



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