A primeira coisa que a jovem Yoshiko Ushiyama percebe ao entrar na Fábrica para uma entrevista de emprego é o “odor de pássaros”. Formada em letras, ela é admitida como funcionária temporária, desempenhando uma função mecânica de triturar documentos.
Já a Yoshio Furufue, que estuda musgos e pertence a uma família influente, a Fábrica oferece um cargo fixo com boa remuneração e uma série de regalias. As ordens que recebe são vagas, e ele não parece ter um papel relevante no esquema corporativo.
O terceiro personagem é irmão de Yoshiko, um funcionário terceirizado que nem sequer recebe um nome próprio. Sua tarefa na Fábrica consiste em revisar materiais impressos, a maioria dos quais não guarda, aparentemente, a mínima relação com a empresa.
“A Fábrica” alterna entre esses três narradores, que têm no alheamento seu denominador comum. Nem Furufue nem os irmãos Ushiyama veem sentido nas próprias funções —que parecem supérfluas tanto para a Fábrica quanto para a sociedade.
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Grafada com a inicial maiúscula, como se fosse a fábrica das fábricas, a Fábrica é uma espécie de entidade, um organismo mastodôntico composto de milhares de organismos menores. Não se tem ciência do que ela produz; tudo o que se sabe é que suas instalações são tão gigantescas que constituem uma espécie de cidade.
Há de tudo na Fábrica, de casas a templos, passando por lojas de conveniência, hotéis e agências de viagens. São os restaurantes, porém, que ganham um papel de destaque: é só quando se sentam para comer que os personagens socializam com alguma liberdade, falando e ouvindo, ou tentando ouvir, uns aos outros.
Mais ainda, a estrutura e o funcionamento da Fábrica propiciam um ecossistema particular, com dinâmicas próprias, e que engloba várias formas de vida. Os pássaros que atraem de imediato a atenção de Yoshiko —e que, no decorrer da narrativa, tanto intrigam Yoshio— são, tudo indica, uma espécie de cormorão típica da Fábrica, como se houvesse se diferenciado naquele habitat. Esses e outros organismos também fazem parte daquele organismo maior.
Não há diferença de tom entre os personagens, que descrevem com a mesma voz monocórdia, até mesmo um tanto corporativa, suas rotinas maçantes. Há, porém, um contraste entre essa invariabilidade e a estranheza crescente que se deixa entrever naquilo que é narrado. Os procedimentos da Fábrica não parecem muito normais. Nada parece muito normal. Há uma profunda —e inquietante— instabilidade na monotonia.
O próprio modo como a trama é tecida contribui para essa sensação. Além de alternar os narradores, a autora Hiroko Oyamada também muda a linha narrativa de um parágrafo para o outro. À medida em que a história avança, é cada vez mais difícil discernir quanto tempo se passou, ou mesmo a ordem cronológica dos acontecimentos.
Enquanto o esforço hercúleo da escritora ruim salta aos olhos (como um muro malfeito e cheio grumos de argamassa), o boa escritora é uma ilusionista. Você não sabe como ela fez aquilo. É o caso de Oyamada, que conduz a tensão crescente de “A Fábrica”, seu livro de estreia, com a naturalidade de quem fez isso a vida inteira.
Oyamada não amarra todas as pontas soltas, o que iria de encontro ao propósito de uma narrativa calcada no estranhamento, ou mesmo na ideia de alheamento. Na última página, porém, é inevitável sentir que você deixou passar algo importante —algo que, embora não responda a nenhuma pergunta, pode enriquecer a leitura. Você termina e quer reler. E reler.
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