Quatro homens estão no topo de uma montanha nevada. Sobre os peitos, escrevem cifras de suas contas bancárias. Bilhões são desenhados à caneta vermelha e gritos de celebração rompem o silêncio da colina. Nem parece que o mundo está sob caos completo.
Imagens geradas artificialmente rodam pelo continente. São espalhadas para provocar disputas étnicas, conflitos internacionais e massacres desenfreados. O chefe da big tech que disponibiliza esses recursos, papel de Cory Michael Smith, vive uma realidade paralela. Ele bebe com os amigos, joga pôquer e pensa em dominar o planeta.
“Nem sempre questionamos como pessoas horríveis se tornaram o que são. Eu sinto que, conforme entendemos de onde elas vieram, ficamos mais dispostos a encarar seus defeitos morais. Surge o suspense —o que está acontecendo com o mundo, e que poder elas têm sobre ele?”, diz Jesse Armstrong, roteirista e diretor de “Mountainhead“, que chega neste sábado ao HBO Max.
O filme reúne magnatas da indústria tecnológica num final de semana crítico. O plano é relaxar na casa de um deles, isolada de toda a sociedade. Mas as redes sociais estão lotadas de vídeos da destruição e a geopolítica global parece entrar em crise. Com recursos ilimitados, os amigos passam a considerar um golpe contra o governo americano e surgem intrigas internas.
A dinâmica lembra a podridão de outro projeto de Armstrong. Vencedora de três Emmys de melhor série dramática, “Succession” torna o espectador testemunha das batalhas dos irmãos Roy, herdeiros do líder de um império midiático que ameaça se aposentar. O resultado foi uma legião de fãs, que passou a vibrar por ricaços dos piores tipos.
“É lógico que ajuda quando os personagens são vividos por atores carismáticos”, brinca Armstrong, estreante na direção, por chamada de vídeo. No filme, ele traz nomes que se firmaram no humor, caso de Steve Carell —que viveu o emblemático Michael Scott em “The Office”—, e do comediante Ramy Yousseff, conhecido pelo seriado que leva seu primeiro nome e tira sarro das vivências de um jovem muçulmano nos Estados Unidos.
O primeiro interpreta o mais velho da turma. Diagnosticado com um câncer terminal, ele sonha com uma hegemonia online em que possa existir como avatar. O segundo, dono de uma inteligência artificial muito influente, acredita que as tecnologias devem ser regulamentadas e inicia a discórdia dentro do grupo.
Entre delírios de grandeza e piadas da quinta série, o filme cria uma prisão tragicômica. Ele acontece quase todo em um só espaço e toma os diálogos como fio condutor. Jargões econômicos ecoam pelas salas luxuosas mas predominam as ofensas e os falsos elogios.
“Ainda que você não entenda o lado técnico desse universo, acredito que o humor físico, as provocações, a energia desses homens que vivem em disputa seja suficiente para despertar interesse. Embora esteja sob extrema pressão, era importante que houvesse espaço para construir as tradições dessa amizade”, afirma Armstrong.
O diretor cita as competições que os personagens realizam uns com os outros. Seja o ranking entre as pilhas de dinheiro, seja o pódio que compara frequências cardíacas, o embate é constante mas tenta, com muita dificuldade, preservar o mínimo de paz.
Mais pobre entre os colegas, o anfitrião vivido por Jason Schwartzman corre de um lado para o outro enquanto prepara lanches, acende lareiras e defende a união entre os presentes. Ele tenta manter esse universo ilusório, completamente alheio ao furacão que se aproxima do lado de fora.
“A ideia era que essas hierarquias patéticas, esse senso masculino de tornar relações em números, trouxesse uma estranheza para a atmosfera trágica. Algo estúpido, barroco, próximo aos noticiários dos dias de hoje”, diz Armstrong.
Se “Succession” constrói o legado de Logan Roy a partir da poderosa família Murdoch, “Mountainhead” reflete a atual administração de Trump, mais próxima dos gurus do Vale do Silício. O roteiro ficou pronto antes da nomeação de Elon Musk para o governo —e do qual se desligou nesta quinta—, mas Armstrong não vê qualquer tipo de coincidência.
O diretor ri de uma pergunta sobre seu suposto ódio contra ricos. “Minha maior vontade é investigar as relações de poder, como elas interferem na vida de pessoas comuns e determinam que informações devem ou não chegar até elas. Mas talvez minha raiva seja maior do que consigo perceber.”
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