“Como assim, ele é gay? Assim todo ‘posturado’?”, pergunta um rapaz enquanto aponta para o influencer Gustavo Custódio. Com óculos Juliet, risquinho na sobrancelha, gloss na boca, camisa e bermuda da Cyclone, o paranaense é um dos representantes do estilo que tem ganhado espaço nos bailes funk das periferias do Brasil, o “mandrakitty”.
Combinando elementos visuais do mandrake, estilo visto como heteronormativo, com simbolismo feminino da personagem do desenho japonês “Hello Kitty”, a tendência reflete a presença crescente de pessoas LGBTQIA+ nos bailes e festas de funk do país.
A ideia, ainda sem ser nomeada, começou a ser compartilhada nas redes sociais depois que Ruger MC viralizou fazendo uma brincadeira com o estilo. Na publicação, ele usa boné da Lacoste, corrente no pescoço e mantém a postura que pode ser considerada de um heterossexual enquanto encara a câmera.
“Pensou que fosse um marginal? Uma Hello Kitty dessa? Coragem”, diz, quebrando a postura, o influencer de Fortaleza em vídeo de julho de 2023. Desde então, apareceram uma enxurrada de posts ligados a pessoas da comunidade que já se identificavam com o estilo.
Entre as publicações, a de maior destaque foi a de Custódio, em dezembro de 2023, no aniversário do baile da DZ7, em Paraisópolis, zona sul de São Paulo. No vídeo, ele está “posturado”, de óculos Juliet, risquinho na sobrancelha e durag —lenço amarrado no topo da cabeça. Na descrição, ele escreve “achei que era um marginal até o olhar doce entregar a Hello Kitty”.
Com a legenda “Uma ‘mandrakitty’ dessa”, o influencer marcava naquele post o uso do termo que se tornaria viral. “O vídeo bombou, chegou a ultrapassar 30 milhões de visualizações só no Instagram“.
Chamando a si mesmo de Mandrakitty, Gustavo Custódio, 23, se mantém como um dos principais expoentes da estética associada aos bailes desde antes do primeiro vídeo de Ruger. Na época, compartilhava trechos de sua vida fazendo brincadeiras com a ambiguidade de sua sexualidade por meio de trejeitos e roupas associadas ao estilo, ainda que o nome tenha vindo depois.
Mais do que posts aleatórios ou experiências individuais, os relatos marcavam algo que já ocorria pelo país todo, a incorporação do estilo mandrake pela comunidade não heterossexual, criando ambiguidades sobre identidade de gênero e sexualidade.
“Ser mandrake não é só pela veste, não é só estar rotulado por meio de uma marca, como Cyclone, Lacoste, Oakley, Nike. É também como você se porta nos ambientes que frequenta, tipo bailes, e coisas que te influenciam, como o funk, as gírias, as tatuagens, a skin [o traje]. Tudo isso identifica uma pessoa mandrake, uma pessoa chavosa. Já o ‘mandrakitty’ mistura isso tudo com ser da comunidade LGBT e o universo associado ao feminino, como uso de gloss”, diz o influencer.
Indo na mesma direção, o funkeiro Daniel Bispo de Oliveira, o Zumbicore, 28, lançou a música “Mandrakitty” no fim de novembro de 2024. A melodia incorpora batidas do funk bruxaria, mais sombrio, com graves mais presentes e sons eletrônicos não encontrados em instrumentos musicais tradicionais, enquanto a letra explicita a tensão sexual entre homens nos bailes.
“Eu sei que ele é passivo, esse moleque não me engana. É mandrake aqui no baile, Hello Kitty na minha cama”, afirma a letra do funk composto em parceria com Gorfo de Panda. Gustavo Custódio reforça, porém, que o “mandrakitty” está para além de preferências sexuais, como ser ativo, passivo ou versátil. “É um estilo, um jeito de estar no mundo que vai além do sexo”.
Zumbicore conta que a música surgiu da necessidade de retratar experiências não heteronormativas no funk, algo menos comum, mas presente em sua realidade. “Eu reparei que, dentro da comunidade, existia o apelido ‘mandrakitty’ para se referir à galera mais marginalizada e que tem um estilo mais condizente com a periferia. No caso, os mandrakes, porém dentro da comunidade LGBT. E aí falei, cara, eu preciso fazer uma música sobre isso”.
Já Kalef Castro, 27, funkeiro baiano que se identifica como “mandrakitty” e se destaca por suas letras com temática sexual, traz no corpo, por meio de roupas e trejeitos, a essência desse movimento.
“Artistas que trabalham com funk e que usam dessa estética impulsionam a comunidade LGBT. O que faz com que pessoas de fora da bolha cheguem até a nos enxergar como ‘cosplay de hétero’, mas, obviamente, eles não têm o molho que os ‘mandrakittys’ têm”, afirma o artista, que mora em São Paulo desde 2016, quando se mudou para cursar educomunicação na USP, a Universidade de São Paulo.
O próprio termo “mandrakitty” é uma reação a um sentimento de exclusão, segundo Zumbicore. “É um protesto que vem de uma necessidade política de não nos sentirmos excluídos, de não nos sentirmos impossibilitados de consumir uma sonoridade específica, um estilo, uma cultura, uma vestimenta, uma forma de viver e se comportar em sociedade”, diz ele.
“A sociedade hétero-cisnormativa não quer que a gente faça parte disso. É uma forma de dizer que nós estamos aqui, que nós também compartilhamos vivências muito parecidas com a de vocês.’’
O estilo também confunde os policiais. “Eu e o Gustavo já fizemos um vídeo, ‘Vida de Mandrakitty’, da gente sendo enquadrado por um policial e, quando virávamos, ele desistia de fazer a abordagem porque era só um ‘mandrakitty’, nos liberando em seguida. E isso é algo que acontece muito com a gente”, conta Kalef.
Em relação à abertura dos espaços do funk aos adeptos desse estilo, não há consenso entre eles. Enquanto Zumbicore não vê abertura em espaços mais heteronormativos, Gustavo afirma que há mais respeito nos bailes do que em festas da comunidade LGBTQIA+.
“No baile funk, ninguém fica passando a mão, ninguém invade meu espaço. Eu consigo curtir tranquilo, sem medo. Lá ninguém tá nem aí pra isso. Cada um na sua vibe. E eu me identifico demais com isso. O que me conecta de verdade com o meu nicho, com o meu estilo, é o baile e o funk. É o ‘mandrakitty’.”


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