Como roubos, guerras e leilões definiram destino de pedras preciosas pelo mundo

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Como roubos, guerras e leilões definiram destino de pedras preciosas pelo mundo


O gigantesco cofre dentro do qual caminham os visitantes do Museu do Tesouro Real, em Lisboa, é, de certa forma, consequência de um roubo. Em dezembro de 2002, seis joias das mais valiosas do Palácio Nacional da Ajuda foram saqueadas de um museu holandês junto a mais 44 peças de outros países. A perda cultural incalculável rendeu, à época, um seguro de € 6,1 milhões para Portugal.

Vinte anos depois, o susto foi vertido numa nova e moderna casa para abrigar as joias da coroa portuguesa e, de quebra, completar a construção deste palácio na capital portuguesa, última residência da família real antes da implantação da República, em 1910.

Não é algo inédito. Ao longo da história, saques, leilões e itens perdidos entre guerras e revoluções movimentam o fascínio, a controvérsia e o destino das coleções nacionais de joias e do mercado de luxo.

É o caso dos tesouros dos nizãs de Haiderabade —os mais valiosos da Índia, disputados entre os herdeiros reais e o governo do país após a independência do Reino Unido— e dos itens preciosos da coroa da França, saqueadas durante a Revolução Francesa e postas à venda no fim do século 19.

Parte destas parariam, depois, entre as posses da socialite brasileira Aimée de Heeren —célebre por suas ligações com Getúlio Vargas—, ou seriam modificadas para impedir seu rastreamento, caso do diamante azul Hope, hoje em Washington, mas que séculos antes adornou o pescoço de Luís 14 —e que dom João 6º buscava imitar, em Portugal, com um exuberante tosão de ouro, um broche de quase 30 centímetros, com mais de 1.600 diamantes e duas centenas de rubis.

Histórias como essas tomaram o colóquio Treasures, no Museu do Tesouro Real, no final do ano passado, com traços de história viva, já que as dezenas de convidados de todo o mundo puderam contemplar lá as preciosidades da história portuguesa.

Inaugurado há pouco mais de dois anos em Lisboa, o espaço renovou a ala poente do Palácio Nacional da Ajuda, uma parte nunca concluída da construção neoclássica original, que estava abandonada há décadas, segundo José Alberto Ribeiro, diretor da instituição.

Nele, uma enorme caixa-forte dourada —com 40 metros de comprimento e 10 metros de altura, protegida por portas de 40 centímetros de espessura— atravessa três andares, dando a ver uma coleção de 22 mil pedras preciosas e ouriversaria diversa.

São itens que lançam o visitante no rastro da história de Portugal e da sua monarquia, evidenciando o ouro brasileiro desde a entrada. Dentre os vários exemplos, vê-se a última coroa encomendada no Brasil, em 1817, para a cerimônia de aclamação de dom João 6º —mas que, pela tradição portuguesa, desde 1640, não era usada na cabeça, como em outras monarquias.

Tanto brilho, porém, convive com alusões bastante breves, quase escondidas na expografia, ao trabalho de escravizados africanos e indígenas na extração desses materiais de lugares como Minas Gerais e Goiás.

Conforme se repete pelas visitas guiadas pelo museu, muito do valor da maior pepita da coleção não está no ouro —metal que representa cerca de nove quilos dos 22 daquele pedregulho—, mas no valor histórico dos restos de terra e quartzo escavados no século 18.

São resquícios de um Brasil ainda a serviço da antiga coroa, que se veem também em outros itens do Museu do Tesouro Real, como os pimenteiros e saleiros de um aparelho em jantar, no formato de crianças que carregam feixes de cana-de-açúcar nas costas, numa alegoria da ideia de uma América paradisíaca, segundo o texto expositivo.

É um brilho que também ofusca o atraso econômico de Portugal para fins do século 19, quando ficou atrás de outros pares europeus após o pico das suas glórias expansionistas. De acordo com historiadores como Nuno Palma, ao favorecer as importações, o país perdeu o bonde da Revolução Industrial.

No contexto de uma era de repatriação de relíquias —como a do manto tupinambá, que voltou ao Brasil após séculos em Copenhague, ou dos bronzes do Benin, devolvidos à Nigéria pela Alemanha—, o destino de itens como joias traz uma discussão diferente, já que foram confeccionados pelos europeus a partir da matéria-prima das colônias —um aspecto em nada exclusivo de Portugal, que definiu o que era ostentação entre os séculos 16 e 19 pelo mundo.

Essa incerteza sobre a posse, aliás, faz com que algumas joias tidas como tesouro nacional não estejam, hoje, com seus países. Dentre os vários exemplos recentes, em 2021, o estado português não conseguiu arrematar a cobiçada tiara de dona Maria 2ª, filha de dom Pedro 1º, então patrimônio da ala sueca dos descendentes da rainha morta em 1853.

Com seus 1.415 diamantes e cinco safiras, ela foi vendida, num leilão, por € 1,3 milhão a um comprador do Oriente Médio —à época, o Palácio Nacional da Ajuda, junto com o governo português, tinham angariado € 1 milhão para a disputa. Após insistência, o novo proprietário aceitou emprestar a raridade, por um ano, para a inauguração do Museu do Tesouro Real, em junho de 2022.

O repórter viajou a convite do Museu do Tesouro Real



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