Há poucos dias em Londres cujas temperaturas passam de 30 ºC —e 7 de agosto de 1965 foi um deles. Clarice e Vladimir Herzog haviam desembarcado na capital britânica poucas semanas antes. Com o exílio em Londres, o jornalista precisou abandonar a equipe de “Viramundo”, primeiro filme dirigido por um cineasta baiano recém-chegado de Cuba, Geraldo Sarno.
Preocupado com os rumos do Brasil depois do golpe de 1964, Vlado escreve uma carta a um casal de amigos de São Paulo, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet —morto no último sábado, aos 88— e a professora de literatura Lucila Bernardet: “Geraldo, a meu ver, é o protótipo do que o cinema brasileiro precisa”.
Ao mesmo tempo em que deposita em Sarno o futuro do cinema brasileiro, faz um alerta ao crítico: “O grande problema, a meu ver, é uma certa indolência intelectual que permeia tudo, todas as iniciativas, fazendo com que quase nada seja levado às últimas consequências e com rigor. Acho que dia mais, dia menos pagaremos o preço desse desleixo e nos tornaremos, queiramos ou não, cúmplices dos causadores e mantenedores do status quo”.
Um mês depois, em 10 de setembro de 1965, a primeira exibição pública de “Viramundo”, causa rebuliço. No Masp, o filme é apresentado por Lina Bo Bardi e depois trilha uma longa e premiada carreira em festivais de cinema mundo afora. Apesar disso, Bernardet estava ressabiado com a obra.
Dez anos depois, publica artigo no jornal Opinião no dia 26 de dezembro de 1975, cujo título é: “O nordeste congelado pelo cinema”. No texto, que ocupa toda a página 20, ataca filmes que, segundo ele, cometem atos de desapropriação cultural ao se servirem da cultura popular como matéria-prima na filmagem e depois são exibidos apenas a intelectuais e ao público culto. Bernardet nomeia Geraldo Sarno como figura representativa dessa tendência.
A tese de Bernardet baseia-se na alienação do trabalho proposta por Marx, o cinema documentário brasileiro escaparia aos grupos sociais retratados nos filmes, que raramente voltariam a eles como espectadores. Furioso, Sarno escreve a Bernardet uma carta de quatro páginas, o chamando de arbitrário.
O cineasta desconstrói cada ponto da tese apresentada pelo crítico e, ao final, ainda diz que aceita o preconceito discriminador de Bernardet: “ao que eu saiba, não me consta que os vendedores de folhetos cantem Invenção do Orfeu ou recitem ‘Grande Sertão: Veredas’, nem que já se deixou de projetar filmes de embaixadas nas praças públicas para, por exemplo, projetarem ‘Vidas Secas’, de Nelson/Graciliano”.
Bernardet e Sarno se encontravam ocasionalmente, seja na casa de amigos em comum ou em eventos de cinema. Não eram formalmente amigos e nem inimigos, mas possuíam admiração e respeito mútuos.
O derradeiro encontro dos dois foi na Mostra de Cinema de Tiradentes em fevereiro de 2020, quando Sarno apresentou pela primeira vez “Sertânia” (2020). Assim como “Viramundo” (1965), o filme causou rebuliço na crítica cinematográfica e foi eleito o melhor filme do ano pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).
Pouca gente sabe, mas Bernardet pediu a Sarno revisões do texto final do livro “Cineastas e Imagens do Povo”. Geraldo escreve a Bernardet na véspera do Natal de 1983: “seu escrito me fez pensar no processo de criação de Viramundo, agudizou pra mim a dialética de criação consciente/inconsciente, me provocou pra conhecer melhor o filme e a mim mesmo”.
As anotações, feitas a mão por Sarno, são tão ricas quanto o material original de Bernardet. Tanto que o cineasta confessa que, no fundo, se identificava com os personagens da obra: “na cidade grande, desconhecida para quem estava sem emprego, sem dinheiro, morando de favor num pequeno apartamento, filha recém-nascida, enfim um viramundo”.
Em outra carta, no início de 1984, Sarno chama a atenção para outro ponto do texto: o papel do locutor como justificativa dos intelectuais derrotados pelo golpe de 1964. “Essas análises ideológicas são complexas. Minha intenção consciente (de todos os meus filmes até hoje) é condenar os intelectuais por não compreenderem o Brasil, por não terem o conhecimento suficiente do país que lhes permitisse atuar politicamente com mais eficiência”, reflete. “Não compreendemos o povo, não sabemos escutá-lo e quando o escutamos não o entendemos”. O livro “Cineastas e imagens do povo” foi publicado em 1985 com apenas uma pequena parte das anotações feitas pelo cineasta absorvidas por Bernardet.
A frase de Bernardet, destacada por Claudio Leal no obituário feito aqui na Folha, nos ajuda a entender um pouco esse homem que não gostava de olhar para o passado: “Sou um cara que vive no presente, que tem poucas recordações e não faz muita questão delas!” Pelo menos, nas cartas, podemos dizer que Bernardet e Sarno faziam questão um do outro.
/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2600366081.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/air-fyer-910x809.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/portaledicase.com/wp-content/uploads/2026/03/aries-1-4.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/lava-loucas-910x611.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2600366081.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/air-fyer-910x809.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)


