Como Frederick Forsyth usou sua experiência como espião para criar seus best-sellers

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Como Frederick Forsyth usou sua experiência como espião para criar seus best-sellers


Qual é a melhor escolha de carreira para alguém que precisa ganhar dinheiro rapidamente? Ingressar em uma empresa de investimentos? Direito? (Advogados, no entanto, geralmente precisam de qualificações extensas e caras.) Criar uma empresa é uma opção —mas como a maioria das startups fracassa, o sucesso requer sorte além de engenhosidade. Pessoas razoáveis podem discordar sobre exatamente qual área seguir, mas todas concordam sobre o que não fazer: escrever um romance. A maioria nunca é publicada; muitos romances publicados nunca são lidos; pouquíssimos chegam à lista dos mais vendidos.

Mas quando Frederick Forsyth retornou da África —ele havia coberto a guerra de Biafra, na Nigéria, como jornalista —não tinha dinheiro nem perspectivas. Contrariando os conselhos dos amigos, decidiu escrever um romance. Pior ainda, seria sobre Charles de Gaulle: o general e presidente francês dificilmente faria o coração dos editores bater mais forte.

Mas ele se sentou em sua velha máquina de escrever em seu quarto alugado e (aspirantes a romancistas talvez queiram pular esta parte) em apenas 35 dias produziu “O Dia do Chacal”, em 1971. Ele nunca havia escrito uma palavra de ficção antes. No entanto, a versão final do livro era, segundo ele, exatamente como havia escrito. Nem ele nem seus editores mudaram uma palavra, exceto o título original, “O Chacal”, que ele estendeu para evitar que fosse confundido com “um documentário sobre a vida selvagem africana”.

O livro acompanhava um persistente detetive francês enquanto tentava impedir que De Gaulle fosse assassinado por um mercenário britânico contratado por veteranos franceses ressentidos da guerra da Argélia. Ainda em circulação —e ainda uma ótima leitura— 54 anos depois, vendeu mais de 10 milhões de exemplares. O romance foi transformado em um excelente e fiel filme estrelado por Edward Fox e em outro terrível estrelado inexplicavelmente por Bruce Willis. Também inspirou uma série recente com Eddie Redmayne.

O livro foi um sucesso improvável porque a questão central de qualquer thriller —o vilão terá sucesso?— já havia sido respondida. De Gaulle havia morrido de causas naturais no ano anterior à publicação do livro; os leitores sabiam que o assassino havia falhado antes mesmo de lerem a primeira palavra. A emoção do livro não estava no “se”, mas no “como”. Como jornalista, Forsyth havia coberto várias tentativas de assassinato contra De Gaulle durante os anos 1960, e o livro refletia seu tempo em campo.

Para maior realismo, ele aprendeu com um falsificador como obter um passaporte falso e com um armeiro como fazer um rifle fino o suficiente para esconder numa muleta. Ele compreendia a hierarquia dos serviços de segurança franceses —como competiam entre si e desconfiavam uns dos outros— e como um assassino poderia explorar o orgulho de De Gaulle. Ele também entendia o apelo narrativo do herói solitário: Claude Lebel, seu protagonista, tinha que lutar contra a burocracia francesa tão vigorosamente quanto caçava o Chacal.

Forsyth —que morreu em na última segunda-feira, aos 86— escreveria mais 22 livros que venderam mais de 65 milhões de cópias. Seus romances não eram nem tão assombrados e sombrios quanto os de John Le Carré, nem tão bidimensionais quanto os de Ian Fleming, mas, como eles, era um romancista da Guerra Fria. E, como Le Carré, também foi um participante. Forsyth passou três anos como piloto na Royal Air Force e, no final da vida, revelou que havia trabalhado para o MI6, o serviço de inteligência estrangeira britânico, embora tenha chamado seu trabalho de “recados” de forma depreciativa.

Além de “O Chacal”, seus melhores livros incluíam “O Dossiê Odessa”, de 1972, sobre uma sociedade secreta que protege ex-nazistas; “O Quarto Protocolo”, de 1984, sobre espionagem e política pacifista britânica (Forsyth era um conservador ferrenho); e “Cães de Guerra”, de 1974, sobre um grupo de mercenários contratados para fomentar um golpe em um país fictício da África Ocidental.

Alguns se perguntaram se verdade e ficção se sobrepunham em “Cães de Guerra”. Segundo o Sunday Times em 1972, Forsyth gastou US$ 200 mil, por meio de um intermediário, para alugar um barco e contratar mercenários para depor o presidente da Guiné Equatorial. (Supostamente, o objetivo era criar uma nova pátria para aqueles que haviam sido derrotados na guerra de Biafra.) A polícia espanhola interceptou e prendeu os mercenários, supostamente a caminho de realizar um levantamento costeiro de petróleo, nas Ilhas Canárias —a mais de 4.000 km de seu alvo— após ver um deles camuflado no convés do barco. Forsyth descreveu a reportagem como “fantasias imaginárias”.

Forsyth tentou se aposentar da ficção em 2016, alegando que não podia mais viajar ou pensar em coisas interessantes para dizer. Mas foi por pouco tempo: apesar de não possuir um computador, publicou um romance sobre um hacker em 2018. Uma sequência de “O Dossiê Odessa” será lançada no outono. Nada mal para um romancista que, no auge de sua fama, disse: “Eu nem gosto de escrever”.

Texto de The Economist, traduzido por Luísa Monte, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com.



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