Aos 57 anos, Eduardo Moscovis parece ter encontrado o cerne de sua plenitude artística. Um ponto de tensão absoluta onde risco e contenção se fundem em potência dramática. Longe do galã televisivo de outrora, o ator vive uma fase que a crítica identifica como de “maturidade plena de seus recursos”, marcada por escolhas estéticas que privilegiam a profundidade em detrimento do conforto.
Seu projeto mais desafiador e aclamado no momento é o monólogo “O Motociclista no Globo da Morte”, texto visceral do dramaturgo Leonardo Netto que chega a São Paulo, no Teatro Vivo, após uma temporada no Rio de Janeiro, onde atraiu mais de 6.000 espectadores, carregando três indicações ao Prêmio Shell —melhor ator, dramaturgia e iluminação.
Na peça, Moscovis dá vida a Antônio, um matemático cuja existência ordenada e previsível é brutalmente desmontada após testemunhar um ato de extrema crueldade em um bar. A violência, investigada em sua gênese banal e cotidiana, é a premissa central de um texto que nasceu de um choque real.
Leonardo Netto se viu inadvertidamente diante de um vídeo de extrema violência em uma rede social, e o episódio desencadeou uma série de questionamentos —o que leva alguém a cometer, filmar, postar e “curtir” tal conteúdo?
“A espetacularização, a romantização e a banalização da violência, exacerbadas com a multiplicação de câmeras e da internet, talvez nos tornem mais insensíveis a ela”, diz o autor. “Foi muito perturbador assistir, mas escrever também foi difícil, incômodo. Muitas vezes eu tive que parar.”
Para Moscovis, a força da narrativa reside justamente nessa proximidade aterradora. “O que mais me cativou no texto foi perceber que o protagonista é um homem que tem uma vida correta, pacífica, com quem eu facilmente me identificaria, mas que, assim como seu antagonista na história —um homem vil em todos os aspectos—, pode se igualar a este ao cometer um ato de extrema violência”, afirma. É a diluição das fronteiras entre vítima e algoz, civilizado e selvagem, que constitui a provocação central do espetáculo.
Esta é a segunda incursão do ator no território solitário do monólogo —a primeira foi “O Livro”, de Newton Moreno, em 2011. “Mesmo sem troca com os outros atores, um dos grandes desafios em um monólogo, fui arrebatado por esse texto”, diz.
A opção por um protagonista dedicado à matemática é central para a tese da obra —a razão não é um escudo contra a barbárie. Moscovis, porém, evitou uma construção cerebral, preferindo uma naturalidade discursiva que nasce do próprio texto.
“São características importantes dele. É matemático, gosta de números, de raciocínio, e também é um leitor assíduo. A junção desse lado cartesiano com o exercício da boa leitura faz com que o discurso dele já nasça nesse lugar, muito natural”, afirma. A sintonia com Netto, colega de ofício com quem dividiu o palco em “Corte Seco”, de 2010, foi fundamental. O próprio autor já imaginava Moscovis como protagonista durante a escrita.
O desafio mais radical, no entanto, foi físico e espacial. Sob a direção de Rodrigo Portella —”um diretor-criador, que pensa o teatro de uma forma muito genuína e potente”, nas palavras de Moscovis—, o ator aceitou a condição da quase imobilidade, e permanece sentado em uma poltrona durante uma hora do espetáculo.
Seu cotidiano profissional é um mosaico de contrastes. Enquanto mergulha na densidade psicológica de Antônio no teatro, também vive o empresário Rogério na novela “Três Graças“, da Globo, e se prepara para retomar a comédia “Duetos”, com Patrycia Travassos, espetáculo que ficou dois anos em cartaz e já foi visto por mais de 200 mil pessoas.
“Essa convivência com personagens tão diferentes é algo a que a gente se acostuma”, afirma sobre a rotina que inclui sair do Projac e ir direto para o teatro. “Para mim, ajuda muito essa alternância. Isso oxigena. Como ator, vou feliz, leve, respirando. Sofrimento? Zero. Essa fase já passou. Hoje só agradeço.”
Entusiasta de novas dramaturgias sem abdicar dos clássicos —em sua trajetória no palco constam desde “Eles Não Usam Black-Tie” até “Um Bonde Chamado Desejo”—, Moscovis vê no teatro contemporâneo um espaço vital de reflexão. Para ele, peças como “O Motociclista” cumprem um papel social urgente. “Ir ao teatro e se ver naquela situação, que poderia ser com você ou com alguém próximo, rompe com a indiferença”, afirma.
Em cena, contido na poltrona, sua voz e seu olhar conduzem o público por um labirinto de violência latente. A metáfora do título, cunhada por Netto, se cumpre. “Assim como no globo da morte, nós vivemos tentando nos desviar da catástrofe o tempo inteiro.” É na coragem de ficar parado, deixando apenas a palavra e a verdade crua do texto ecoarem, que Moscovis encontra seu movimento mais expansivo.



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