Abebe Bikila era um pré-adolescente na virada do século, quando morava na região da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Naquela época, um CD pirata não saía de rotação em sua casa —o disco “Ao Vivo”, que Djavan lançou em 1999.
“Antes eram os vinis, que minha mãe tem até hoje. Me lembro dela puxando e mostrando os discos”, diz o rapper, mais conhecido como BK. “Depois, tinha os CDs e DVDs de feira. Esse do Djavan marcou muito. A gente ouvia várias e várias vezes. Guardo até hoje as imagens desses momentos.”
“Esquinas”, uma das músicas que o alagoano gravou em “Ao Vivo”, aparece agora em “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, ou “DLRE”, novo álbum de BK, como sample. Na obra, que tem shows de lançamento neste sábado (12) e domingo (13) em São Paulo, o rapper usa a coleção de discos de sua mãe como matéria-prima para a paisagem sonora na qual aplica suas rimas.
“Muitas vezes a gente faz o meio de campo e entrega para o sample falar, dar o sentido da música“, diz o rapper carioca. “Tentamos fazer isso de um jeito que tivesse a nossa cara, considerando as limitações em relação à legalidade do sample. Já sampleamos muita coisa gringa, e nada contra fazer isso, mas quando é algo falado faz mais sentido colocar coisas daqui —daí todo mundo entende o que está sendo dito.”
Trabalhar com samples autorizados pelos compositores e detentores dos fonogramas originais, diz BK, tem vantagens e desvantagens. Ao mesmo tempo que o protege de ser alvo de processos e de ter as músicas derrubadas das plataformas, também restringe o trabalho dos produtores —no caso deste disco, parceiros como Jxnv$, Nansy Silvvz e a dupla Deekapz, entre outros.
“Quando o sample é legalizado, você não pode mexer como sempre fazemos, dar aqueles cortes mais malandros”, ele diz. “Tem que ter muitas autorizações. Tivemos recusa de primeira, tentamos de novo e deu certo. Houve músicas que voltaram cinco vezes, porque a gente alterava algo e não aceitavam. Teve uma faixa que não entrou. Teve negociação que o intérprete liberou, mas tinha outro compositor —aí foram três meses só para achar o cara.”
O vai-e-vem burocrático acabou fazendo o rapper aceitar as limitações e criar a partir dela. Os samples surgem mais inteiros, sem tantos cortes. É quase como se os discos antigos fossem a trilha sonora para as reflexões de caráter filosófico e existencial, sobre o tempo, o medo ou a solidão.
Há em “DLRE” tanto gravações obscuras dos anos 1970 —casos de “Você Pode ir Além”, da banda Karma, e “A Matança do Porco”, do Som Imaginário— quanto mais conhecidas —como “Não Adianta”, do Trio Mocotó, e “Certas Canções”, de Milton Nascimento. Também refrões cantados por gente como Luedji Luna, Fat Family e Melly.
Quem mais se destaca é Evinha —uma das artistas favoritas de Ana Cristina Costa Gomes, que é educadora além de mãe do rapper. A cantora, que surgiu na jovem guarda, integra o Trio Esperança e teve destaque solo nos anos 1960 e 1970, foi sampleada nas duas músicas mais tocadas de “DLRE” —”Só Quero Ver” e “Cacos de Vidro”, com dezenas de milhões de reproduções cada.
BK não foi o primeiro a samplear Evinha, que já vinha sendo redescoberta por novas gerações. Mas nada se compara ao impacto do rapper na vida da cantora, hoje com 73 anos. Depois de “DLRE”, sua agenda no Brasil cresceu e ela passou a figurar em festivais.
“Evinha é poderosa. Tivemos um jogo que funcionou, a gente casou bem”, diz BK. “Ela cantou no nosso show, na Praça da Apoteose, e tinha mais de 30 mil pessoas gritando o nome dela. Isso também é hip-hop. A partir de samples, conseguimos fazer uma parada maneira para mim, para ela e para um monte de gente.”
“DLRE” obteve em 45 dias os 100 milhões de plays que o álbum anterior de BK, “Icarus”, de 2022, demorou um ano para atingir. A obra teve a oitava maior estreia de um disco nacional na história do Spotify, além de emplacar todas as 16 faixas entre as 200 mais tocadas da plataforma. Só ficou atrás de The Weeknd nos lançamentos globais na semana de estreia.
Mas as músicas que sampleiam Evinha, Djavan e Trio Mocotó, diz BK, são apenas a ponta do iceberg. “Os shows agora estão melhores, porque cantam não só esses hits. A galera agora está descobrindo as outras camadas”, diz. “Isso é uma característica nossa desde o primeiro álbum. A exceção é ‘Icarus’, que é meu trabalho mais comercial.”
O penúltimo álbum mudou a carreira de BK de patamar, ainda que ele já fosse reconhecido como um dos melhores do rap nacional desde seu disco de estreia, “Castelos & Ruínas”, de 2016. Aquela obra apresentou uma combinação de rimas, batidas e melodias diferente de tudo que já tinha sido feito no ritmo no país.
Foi o culminar de um movimento que começou na mesma casa em Jacarepaguá e no mesmo aparelho que ecoava a voz de Djavan pelos cômodos. Quando a mãe ia trabalhar, BK deixava o compartimento do CD de lado para usar o de fitas cassete, dominado pelos funks do estilo proibidão, além do rap.
Quem o criou, diz o artista, que não teve pai presente, foram sua mãe e o rap. “Os amigos tinham fita dos Racionais, era o que ia chegando”, diz. “Aquilo começou a me puxar pela cultura, pela rima. Esses caras do rap chegam como um malandro mais velho, que é sagaz da rua, mas vai te dar um papo maneiro. Isso além do lance social, principalmente sobre o povo preto. Era o que fazia sentido para eu escutar e amadurecer.”
Já adulto, BK se mudou para o bairro da Glória e passou a frequentar as batalhas de rima e a vida noturna da Lapa. Fez parte de dois coletivos, o Néctar Gang e Pirâmide Perdida, numa época que o rap no Rio tinha outra cara, dominado por grupos como o ConeCrewDiretoria.
“A gente veio mais sujo. Era revoltado, bagulho de doidão, uma quebra”, diz. “A música ‘Marginal’ [do Nectar Gang] representa bem o que era o estilo. Os dreads não eram maneiros como agora. A gente era malucão mesmo.”
A persona de rapper, diz BK, surgiu primeiro como “armadura que me ajudou a me apresentar para o mundo”. “Antes de virar MC, o BK vem da vivência, da rua, com meus amigos. O Abebe era mais tímido, já o BK já conseguia ser mais solto, mais engraçado. Era a armadura para encarar o mundo, passar pelas coisas.”
“Castelos & Ruínas” já anunciava no nome uma abordagem que BK nunca perdeu em sua caneta —o duelo entre forças antagônicas. Desde o primeiro álbum, o rapper se destacou por conseguir lidar com os anjos e demônios internos sem recair em armadilhas do ego.
O BK das músicas é tanto herói quanto vilão, às vezes num mesmo verso. Em suas palavras, o personagem que representa na arte é um anti-herói. Em “Porcentos 2”, do disco “O Líder em Movimento”, de 2020, o rapper esclarece algumas de suas metáforas mais recorrentes: “Sempre comparamos com futebol ou droga/ Foi o que vimos, de onde viemos, essa foi a nossa escola”.
“Quem mora longe ou nunca teve nenhum contato com a favela não entende que é um lugar completamente abandonado e violentado pelo Estado”, afirma. “Nesse lugar, muitas vezes, a referência de estar um pouco melhor, infelizmente, é o crime. O Estado nunca chega e, quando chega, é para destruir, derramar sangue. Quem é o cara que ajuda uma família ou outra? Quem é o exemplo de poder? Nas novelas, quem ocupa a posição de poder nunca é igual a gente.”
Até “Icarus”, de 2022, BK tinha reconhecimento e um público fiel, mas fazia shows com estrutura simples e o alcance de sua obra era limitado. Durante a pandemia, ele saiu do escritório que tocava sua carreira e se tornou um empresário, à frente das decisões criativas e de negócios.
“Quando vi o boom do Djonga ali em 2018, eu não estava tão preparado para fazer algo comercial e explodir daquela forma”, ele diz. “Mas sempre sonhei em ter o meu festival, em cantar para um público de 30 mil pessoas.”
O cenário também havia mudado, com a ascensão meteórica do trap mais hedonista, que fala de festas, dinheiro e estilo sem tanta preocupação com a lírica ou em tratar de temas mais complexos. O desafio de BK era conseguir fazer sentido nesse novo momento, sem perder sua característica mais essencial —a habilidade como rimador.
“Me senti preparado para começar a jogar. Queria fazer o que o Kendrick Lamar fez no ‘Damn.’, e Jay-Z no ‘Blueprint’ —um rap comercial que tem barras de rap, flow de rap”, diz. “Tive que abrir mão de algumas coisas, deixar a caneta pesar um pouco menos. Mas isso faz parte do lugar que eu queria chegar, e também de me desafiar.”
“Icarus”, o resultado dessa empreitada, apresentou BK a novos públicos com participações de artistas de outros estilos, entre eles Marina Sena e Júlia Mestre. O disco veio com letras mais diretas, melodias mais cativantes e um punhado de músicas românticas.
Não só emplacou sucessos, mas levou o rapper a, enfim, cantar para plateias de dezenas de milhares de pessoas. O show também ganhou adereços —um cenário recriando os arcos da Lapa e o protagonista voando pelo palco com asas da figura mitológica grega que dá nome ao disco.
Agora, ele só quer voltar à magia de um CD antigo do Djavan —e do caderno de letras. “É uma outra mágica. É o momento que faz sentido tudo o que você quis fazer no rap, tudo o que você quis realmente escrever e falar. O mais importante é sempre estar em contato com esse lugar. Ali, já acho que não é mais nem é o BK —é o Abebe mesmo. Ele quer se expressar, ser feliz, sofrer, revolucionar o mundo, ajudar a família.”
“Essa conexão nunca pode se perder, para não ficar só em busca de um hit, disso ou daquilo”, diz. “Até porque o sucesso mexe pra caramba com a gente. Mas o ‘rap game’ nunca pode ser maior que o rap arte.”
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