Catarse gerada pela série ‘O Eternauta’ muda até forma de os argentinos protestarem

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Catarse gerada pela série ‘O Eternauta’ muda até forma de os argentinos protestarem


Cientistas, políticos, médicos e militantes argentinos saíram de casa nos últimos meses com duas coisas em comum —máscaras que faziam referência ao personagem principal da história em quadrinhos levada para as telas “O Eternauta” e a rejeição às medidas de austeridade do governo de Javier Milei.

Durante décadas, tentou-se adaptar a história de Héctor Oesterheld, desenhada por Solano López —sem resultado. Por isso a série dirigida por Bruno Stagnaro, que estreou em 30 de abril, era tão aguardada no país. Em uma semana, alcançou o primeiro lugar entre as produções de língua não inglesa da Netflix e reacendeu o orgulho argentino.

O sucesso impulsionou a venda de quadrinhos no país —com exemplares de “O Eternauta” esgotados na Feira do Livro de Buenos Aires deste ano— e também aqueceu o interesse pela vida do autor e levou a uma nova busca pelos netos de Oesterheld, que foram sequestrados durante a última ditadura argentina, que ocorreu entre 1976 e 1983.

Ele e suas quatro filhas —Beatriz, Diana, Estela e Marina— foram capturados e mortos pelo regime. Duas das filhas estavam grávidas na época do desaparecimento. A mulher de Héctor, Elsa Sánchez, criou dois dos netos, mas morreu em 2015, aos 90, ainda procurando por dois outros, que continuam desaparecidos.

Com o tempo, e muito por conta da trágica história de vida de Oesterheld, “O Eternauta” se tornou não apenas uma obra fundamental das HQs argentinas, como um símbolo de resistência e memória.

A entidade de defesa dos direitos humanos Hijos lançou uma campanha nas redes sociais, aproveitando a popularidade da série. Eles pedem para que, se alguém assistindo ao programa, nascido em novembro de 1976 ou entre novembro de 1977 e janeiro de 1978, tivesse dúvidas sobre sua identidade, que procurasse a organização. As Avós da Praça de Maio continuam buscando cerca de 300 netos desaparecidos na ditadura, incluindo os de Oesterheld.

O desempenho positivo da produção teve um efeito catártico para muitos argentinos. Os símbolos da série, figurinos e frases ditas pelos personagens ultrapassaram o resgate da memória da família e passaram a ser apropriados por diferentes grupos que protestam pelo país.

Em 28 de maio, mascarados marcharam pelas ruas de Buenos Aires e outras cidades argentinas inspirados pela série. Eram cientistas do Conicet, o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, usando máscaras de gás para protestar contra as políticas de austeridade do governo Milei. Neste ano, o orçamento para ciência e tecnologia será de apenas 0,152% do PIB, o menor da história.

“O Eternauta”, que retrata a resistência contra uma tempestade tóxica, foi usada como metáfora por uma pesquisadora para relatar a situação atual dos programas de fomento à ciência no país. “É como uma nuvem tóxica, estão destruindo equipes com décadas de trabalho”, disse no dia da manifestação a virologista Andrea Gamarnik, que também afirmou que o que acontece na ciência está ocorrendo com os profissionais de saúde.

No fim de maio, o protagonista da série, o ator Ricardo Darín, entrou para a lista de desafetos de Javier Milei ao ver-se envolvido em uma insólita discussão sobre os altos preços na Argentina. Em um dos programas de maior audiência da TV local, comandado pela apresentadora Mirtha Legrand, o artista comentou sobre o custo elevado das empanadas e questionou as medidas econômicas do governo.

Ele deu como exemplo a dúzia de empanadas custando 48 mil pesos, ou R$ 226, enquanto muitos estão passando por dificuldades. O ministro da Economia, Luis Caputo, rebateu as críticas nas redes sociais, afirmando que o preço é, na verdade, 16 mil pesos, ou R$ 75. Os apoiadores do governo, então, começaram a chamar Darín de “O Empanauta”.

No começo de junho, a disputa entre o governo Milei e residentes do Hospital Garrahan, o mais importante centro de atendimento pediátrico do país, escalou. Ganhando o equivalente a R$ 3.800 por mês e sem conseguirem se manter com o aumento do custo de vida na Argentina, os jovens médicos entraram em greve e fizeram uma série de protestos em Buenos Aires, trazendo parte da opinião pública a seu favor e contra o plano de austeridade de Milei.

A referência a “O Eternauta” apareceu mais uma vez para defender os profissionais de saúde, mas agora no Congresso Nacional. O deputado socialista Esteban Paulón discursou com uma máscara de gás, emulando o personagem vivido por Darín, e segurando um cartaz em apoio aos médicos do Hospital Garrahan, à ciência, à educação e ao movimento feminista Ni Una Menos.

A mais recente alusão ao mascarado foi em uma vigília de apoiadores na frente da casa da ex-presidente Cristina Kirchner, em Buenos Aires. Desde a semana passada, a peronista cumpre prisão domiciliar no local, de onde sai para acenar para os militantes.

“Acredito que é a união de duas coisas que fazem parte da alma argentina: a iniciativa para protestar quando sente que algo está errado com a apropriação dos itens culturais que fazem parte da nossa infância e adolescência”, afirma a enfermeira Claudia Cruz, 43, usando uma máscara feita de uma garrafa de plástico durante uma das manifestações. “Não é por acaso que o governo implicou com o comentário de Darín, todo mundo sabe a força que tem um símbolo.”



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