Evento sem ganho eleitoral expôs Lula a riscos previsíveis e gerou desgaste político relevante em alianças e segmentos estratégicos
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A decisão de Lula de se associar a uma homenagem no carnaval do Rio de Janeiro, em pleno ano eleitoral, revela a vaidade excessiva e recorrente do líder petista como um dos maiores causadores de prejuízo para a própria biografia e para o resultado das urnas.
O episódio do desfile, que terminou com o rebaixamento da escola de samba e a consequente repercussão negativa, não foi um acidente imprevisível, mas um risco evidente desde o início, alertado aqui na coluna Cena Política do último domingo, inclusive, antes do desfile acontecer.
Em ambientes altamente voláteis, como o carnaval, onde a narrativa escapa do controle dos atores políticos e se mistura com humor, crítica e improviso, a margem para erro é ampla e o retorno eleitoral é praticamente inexistente. Carnaval não elege, não dá voto, mas pode atrapalhar muito. Foi o caso.
Lula não apenas permitiu a associação com a escola como decidiu acompanhar o desfile de perto, ampliando sua vinculação direta com o evento e com seus efeitos negativos. E foram muitos esses efeitos.
Risco
Em política, exposição sem controle precisa ser justificada por ganhos claros. Até quando você entra numa disputa para perder, é preciso ganhar alguma coisa. Lula não tinha nada a ganhar no carnaval. A homenagem não ampliava a base eleitoral, não mobilizava novos segmentos e não gerava capital político mensurável.
Em contrapartida, concentrava riscos evidentes. Bastava um erro de execução, uma alegoria mal interpretada ou qualquer elemento de deboche para transformar o episódio em munição para adversários. O rebaixamento da escola funcionou como gatilho perfeito para isso. O episódio rapidamente saiu do campo simbólico e migrou para o terreno do ridículo, onde o impacto sobre a imagem é mais profundo e difícil de reverter. Isso ainda sem falar nos problemas com setores religiosos do eleitorado e dos ambientes partidários aliados.
Alianças
O dano não se restringe à imagem. Ele alcança a engenharia política da campanha que está na fase de articulação. O desfile incluiu críticas a Michel Temer, figura central do MDB, partido que Lula busca (ou buscava) atrair para compor sua chapa. Ao permitir associação com esse conteúdo, o presidente cria ruído direto em uma negociação estratégica.
Ao mesmo tempo, a leitura de ataques a valores conservadores, especialmente ligados ao público evangélico, atinge um eleitorado que vinha sendo alvo de aproximação gradual há anos, com muita dificuldade. Em vez de ampliar pontes, o episódio reforçou barreiras e dificultou movimentos futuros.
Legal
Há ainda a questão jurídica. A presença de Lula no contexto do desfile, com forte exposição midiática nacional, com elementos de campanha claros no enredo e nas alegorias, abre margem para questionamentos sobre propaganda antecipada. Em um ambiente já tensionado, qualquer elemento adicional de judicialização representa custo político e operacional. Mesmo que não haja punição efetiva, o simples debate jurídico já desloca a agenda e consome energia de campanha.
Vaidade
A recorrência desse tipo de decisão aponta para um fator menos técnico e mais comportamental do líder petista. Há um histórico de movimentos em que a busca dele por reconhecimento simbólico se sobrepõe ao cálculo estratégico.
O caso do filme financiado em 2010, em um contexto de altíssima aprovação, já indicava esse padrão. Foram gastos milhões de reais e a bilheteria foi um fracasso. Mas, na época, o presidente não segurava o orgulho de ter tido a vida contada no cinema.
O episódio atual reforça a percepção de que a leitura interna sobre o próprio capital político nem sempre corresponde à forma como ele é percebido externamente. Lula se acredita muito maior do que realmente é. E acredita que precisa receber homenagens. E a primeira-dama, Janja, reforça a ideia fugindo da realidade e arrastando o marido nessa viagem. Foi ela quem insistiu com as agendas de carnaval, foi ela quem incentivou a escola de samba de Niterói a fazer a homenagem, inclusive com viagens ao Rio de Janeiro para ensaios e reuniões com a direção da agremiação.
Efeito
A campanha que consegue reduzir riscos costuma sair na frente. A que insiste em exposições sem retorno abre espaço para o adversário explorar fragilidades. Nesse início de ano, Flávio Bolsonaro (PL), acredite-se ou não) é quem está sendo um bom exemplo. Até mesmo na hora de explorar o erro lulista o fez de forma discreta e racional em vídeos na internet para não ser visto como “radical”.
Quando a eleição é muito apertada, e esta tende a ser, não perder votos é mais importante do que conquistá-los. É a prioridade. Lula perdeu alguns no carnaval e vai ter trabalho para recuperar.
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