Cadeia de sebos em Porto Alegre garimpa autores gaúchos pelo país

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Cadeia de sebos em Porto Alegre garimpa autores gaúchos pelo país


Aos 74 anos, o livreiro Peter Dullius sabe que está sempre se despedindo de seus livros. Enquanto anota cuidadosamente com um lápis os preços das publicações nas suas folhas de rosto, ritual que mantém há mais de 30 anos, ele defende que todo leitor deve trabalhar, antes de mais nada, o desapego.

Ao passar os dedos pelas capas, é como se ele desejasse que o conhecimento guardado ali circulasse logo. “O livro tem de ser lido e passado adiante, para que mais pessoas tenham acesso a ele”, diz. “Deixa ele circular, as pessoas vão querer ler e só vão encontrar depois no sebo. Tem de desapegar do livro e deixá-lo caminhar, para que ele encontre a felicidade em outras mãos.”

Economista de formação, Dullius chegou a fazer carreira em bancos de desenvolvimento. Trabalhou em empresas de pequeno e grande porte e trocou o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro. Até que deixou os números descansarem e, de volta à capital gaúcha, decidiu abrir uma livraria com a mulher, Neiva Maria, em 1992.

A paixão pela literatura foi despertada ainda na infância, aos oito anos, ao ganhar um exemplar do clássico “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, em um concurso. Na juventude, o interesse foi expandido em um internato de Estrela, no interior do Rio Grande do Sul, que contava com uma ampla biblioteca.

Guilherme, um de seus filhos, trabalha com ele desde o primeiro dia. Hoje divide a administração das livrarias com o pai e faz as viagens que ele antes fazia em busca de edições guardadas em sebos de outros estados —livros de autores gaúchos viraram uma espécie de tesouro que eles vão buscar em outras regiões do país. Em Porto Alegre, esses livros têm maior procura e podem ser vendidos por um valor que compensa os custos das viagens.

“A literatura gaúcha tem uma participação grande no nosso comércio. Os colégios indicam, as pessoas querem conhecer os livros, além de ser uma literatura muito vasta e rica. Dá para pensar nas obras de Mario Quintana, Érico Veríssimo, Sergio Faraco, Assis Brasil e de tantos outros.”

Em uma cidade conhecida pela longevidade de seus sebos, a família chegou a ter sete lojas, todas na região central da capital gaúcha. Atualmente, mantém três delas em funcionamento.

A unidade da rua dos Andradas, a famosa rua da Praia, é onde Dullius recebe a reportagem, em uma tarde quente de fevereiro.

No fim de semana, a via do centro de Porto Alegre fica mais parecida com o seu apelido: os trabalhadores apressados dos prédios comerciais dão lugar a consumidores de antiquários, artistas de rua, manteiros, frequentadores de botecos e visitantes que entram e saem da Casa de Cultura Mario Quintana, a poucos metros da loja.

Turistas também param para tirar fotos em frente à fachada em tons de azul da livraria, restaurada. O estabelecimento fica em um edifício de dois andares, e no alto da escada branca de ferro, após passar por uma sessão de literatura regional, o cliente encontra livros técnicos e preparatórios para concursos e uma vista da rua da Praia.

“Esta loja funciona todos os dias do ano: Natal, Páscoa, sábado, domingo, feriado. Sempre. E por que eu gosto tanto de vir? É pelas famílias que vêm e trazem as crianças no fim de semana, quando os pais não estão trabalhando e elas não estão na escola. A partir dos três, quatro anos, ela já consegue se divertir ao descobrir os livros. Poder ver isso é uma coisa que não tem preço”, diz o livreiro.

O Beco oferece uma ampla variedade de livros, incluindo didáticos, espíritas, gibis e revistas, sem especialização em um único gênero. Dullius calcula que seu acervo conte com 130 mil itens cadastrados. O total, porém, pode passar de 300 mil.

“De vez em quando aparece um livro raro, quando alguém se desfaz da sua coleção. Mas o nosso objetivo nem é ser uma livraria de raridades ou de nicho, prefiro a diversidade e ver novos leitores se formando”, afirma.

Ele também relata que o negócio de livrarias na região passou por uma transformação, com algumas unidades desaparecendo. “Muitas cidades da região metropolitana não têm mais livrarias. Às vezes passa uma criança aqui em frente e diz: ‘Olha, mãe, é uma biblioteca’. Ela descobre o que é uma livraria andando pelo centro.”

Durante a pandemia e a enchente que inundou o Rio Grande do Sul, em maio de 2024, o Beco enfrentou desafios, mas conseguiu se manter graças às vendas online, pelo site Estante Virtual, e à fidelidade dos clientes.

“A única loja da rua da Praia sem água dentro era a nossa. Como estamos em uma estrutura mais alta que a rua, não chegamos a perder livros, mas vinha aqui todos os dias para olhar, vi muitos comerciantes perderem tudo.”

Estoques inteiros de livros foram perdidos com a inundação de alguns galpões no norte da cidade, lembra. “De todo modo, foi um baque para nós. As dívidas não esperam a água baixar, né?”

Os duros meses em que as lojas precisaram ficar fechadas reforçaram no livreiro o valor do contato humano e da experiência sensorial de uma livraria.

O vendedor diz estar convencido de que os livros físicos revelam a alma de uma pessoa, ao contrário de exemplares digitais.

“Experimenta chamar um amigo para ir até a tua casa, e na sala há 500 livros. O cara olha os teus livros e consegue enxergar a tua alma. Dá para saber o que o dono daqueles livros é, do que ele gosta. Uma biblioteca não é um espelho 100% garantido da personalidade do leitor, mas chega bem perto.”



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