Cadão Volpato narra sua reinvenção como pai após transição de gênero da filha

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Cadão Volpato narra sua reinvenção como pai após transição de gênero da filha


Cadão Volpato começou a escrever “Notícias do Trânsito” sob o efeito da transição de gênero de sua filha. Foi uma escrita feita “a quente”, como descreve o músico e escritor, tomada pelo impacto inicial da notícia e pela tentativa de compreender uma realidade até então desconhecida por ele.

O resultado foi uma obra que não trata apenas de uma filha trans, mas do trânsito de um homem cis e hétero beirando os 70 anos que, tentando acompanhar a travessia de alguém que ama, acaba se refazendo também como pai e pessoa. “Eu sabia muito pouco sobre pessoas trans. Foi ela que me fez pensar sobre isso”, conta ele.

Volpato morava em Nova York quando recebeu a notícia. Chimera, sua filha, estava em São Paulo. Essas duas cidades compõem uma geografia simbólica do livro.

Nova York com sua individualidade brutal, em que ninguém parece se importar com o outro, segundo ele, e São Paulo com ares mais provincianos, onde todo mundo observa e julga. Assim se ilustram os temores de um pai pelo trânsito de sua filha: é pior ser ignorada ou mirada?

“Notícias do Trânsito” sai pela nova editora Seja Breve, que Volpato fundou ao lado do também escritor Bernardo Ajzenberg. A ideia de criar a editora surgiu de um encontro casual entre os dois e de uma identificação instantânea, porque ambos têm filhos trans e estavam escrevendo sobre o tema.

A coincidência os aproximou e deu origem à editora, pensada para publicar obras curtas. Ajzenberg editou o livro de Volpato e agora finaliza o próprio, que também sairá pela Seja Breve.

Em seu livro, o jornalista e ex-vocalista da banda Fellini não busca explicar conceitos ou servir de guia para o chamado letramento de gênero. “O máximo que eu podia fazer era mostrar qual foi o impacto da transição dela sobre mim”, diz o autor.

Narrado em primeira pessoa, o livro se desenrola como um suspense, que prende o leitor à história não linear da vida de um pai e uma filha. O auge da trama vem ao final, no encontro entre os dois —que é tanto um reencontro quanto uma introdução. É quando ele mostra a ela o livro que escreveu e se coloca como pai de uma mulher.

Volpato começou escrevendo o livro em segredo e só depois contou à família no que estava trabalhando. Sua maior preocupação era saber o que Chimera pensaria. Ela acabou gostando e escreveu uma carta em resposta ao pai, que foi inclusa nas últimas páginas e na contracapa do livro, transformando a obra de um monólogo para um diálogo. “Saiba que sou eu, sempre fui. O corpo é só uma distração da vida”, ela escreve.

Ao longo dos capítulos, o narrador transita do luto por um filho que deixou de existir à descoberta da filha. “Eu não perdi um filho, ganhei uma filha —e isso foi uma grande descoberta”, afirma Volpato.



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