BNegão garimpa ritmos e parcerias ecléticas em seu primeiro disco solo

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BNegão garimpa ritmos e parcerias ecléticas em seu primeiro disco solo


BNegão recorre a uma imagem inusitada para explicar a origem do álbum “Metamorfoses, Riddims e Afins”. “Lembra da transformação do Coisa naquele desenho dos anos 1980?”, diz o rapper. “Ele juntava os anéis de cada mão e aí vinha um monte de pedra, cada uma de um lado, para formar o corpo dele. Foi assim com o disco, cada faixa meio que veio de uma história.”

Assim como o Coisa, portanto, “Metamorfoses, Riddims e Afins” reúne num corpo coeso peças independentes, vindas cada uma de uma origem. As pedras de BNegão incluem inéditas em meio a novas versões de canções já gravadas por ele, como “Essa é Pra Tocar no Baile”, que virou “Essa é Pra Tocar no (Heavy) Baile”, com participação do Heavy Baile. Outro exemplo é “A Verdadeira Dança do Patinho”.

Com o BaianaSystem como convidado, a faixa chega ao disco no formato que o carioca e os baianos tocam juntos nos palcos há anos, e que ainda não tinha sido registrada.

“Metamorfoses, Riddims e Afins” é o disco que marca a estreia solo de BNegão. “Enxugando Gelo” (2003), “Sintoniza Lá” (2012) e “Transmutação” (2015), seus três álbuns anteriores, foram assinados por BNegão & Seletores de Frequência. Mas o rapper conta que originalmente, sua estreia solo seria já em “Enxugando Gelo”.

“Chamei a galera para gravar no meu disco solo. Quando acabou, parei para ouvir e me dei conta: ‘Isso aqui é um disco de banda’”, lembra BNegão. “Basicamente todo mundo participou de todas as faixas. Aí eu peguei a espada e batizei: ‘A partir de agora vocês são Seletores de Frequência’”, brinca.

Desde então BNegão vinha acumulando a vontade de fazer um som que não cabia no Seletores de Frequência. “O primeiro disco teve um lance de orgânico com eletrônico, mas o segundo já era bem orgânico. No terceiro tentei um pouquinho trazer esse lance do eletrônico também. Mas queria mais. Tive o impacto do Kraftwerk em 1986, e do próprio rap, que é uma parada classicamente eletrônica. Então sempre quis muito fazer essas coisas com som eletrônico, ter o grave gigantescamente.”

Há cerca de dez anos, as ideias vinham fervilhando na cabeça de Bnegão —voando como as pedras do Coisa. Em “Metamorfoses, Riddims e Afins”, a já citada “Essa é Pra Tocar no (Heavy) Baile” entra na conta das “metamorfoses”, ganhando uma pegada de arrocha carioca— encontro do ritmo baiano com o funk do Rio.

A garimpagem de repertório de BNegão foi de Jovelina Pérola Negra a Ratos de Porão. “Há maior tempão eu tinha essa versão do Ratos na minha cabeça, bem punk”, diz o artista, referindo-se a “Cérebros Atômicos”, que gravou com a participação de Paulão King. “E ‘Sorriso Aberto’ [samba de Guará que fez sucesso na voz de Jovelina] eu já tinha gravado há uns anos no disco do Digitaldubs“.

O rocksteady “Injustiça”, lançado em 2006 numa colaboração com a banda paulistana de ska Firebug, volta em duas versões, cada uma com um convidado —Maxado e Bruno Pederneiras fazem as participações especiais.

Outro resgate da curadoria de BNegão é “O Sósia”, lançada em 1992 no disco de estreia do grupo paulistano Moleque de Rua. Crônica que amarra de forma esperta e gingada a relação umbilical entre polícia e crime, a canção estava na mira de BNegão desde que ouviu pela primeira vez.

“Antes de lançar ‘Enxugando Gelo’ a gente já fazia uma versão de Moleque de Rua”, lembra BNegão. “Eles foram um acontecimento. Essa música deles planta a raiz de muita coisa dos anos 1990. Lembro que na primeira vez em que vi Nação Zumbi, achei que aquele som tinha a ver com Moleque de Rua. Eles pegaram Jorge Ben, essa linguagem de samba-rock, e misturaram com samba-reggae. E eu sou um soldado do samba-reggae, todo sábado ouvia um programa na Rádio Imprensa que tocava só o ritmo. Aquilo me emocionava. O Moleque de Rua ligava isso ao que veio depois. Os caras conseguiram fazer um lance ao mesmo tempo afrofuturista e ancestral total.”

Além do olhar para o passado, as produções mais recentes foram fundamentais para dar forma ao disco, BNegão aponta: “‘Canto da Sereia’, de Osvaldo Nunes, faz parte da minha vida desde que a ouvi pela primeira vez com a Orquestra Contemporânea de Olinda. Tem também a cumbia ‘Tudo no Esquema (Pensamento Libertário)’ e a ‘Intro Amazônica’, do Sandro Lustosa, um cara do Acre que tocou com Manu Chao, com João Donato“, lista BNegão. São as três primeiras músicas do álbum: ‘Elas dão o norte do disco e fizeram o disco acontecer”, resume o rapper.

BNegão identifica na política e na ancestralidade a liga que junta as pedras soltas no corpo de Coisa do “Metamorfoses, Riddims e Afins”. “Eu estou falando sobre polícia com o Moleque de Rua, sobre geopolítica com o Ratos de Porão, sobre sistema financeiro com ‘Injustiça’. E os ritmos todos se conectam na África como mãe de geral.

Tem a Amazônia, vai para a Colômbia com a cumbia, desce para Salvador com o samba-reggae, vem para o Rio com o arrocha carioca, volta para Salvador com o pagodão. O Ratos entra naquele esquema punk reggae party, esquema Brixton, com os punks misturados com a galera do reggae. E por fim vem ‘Sorriso Aberto’, um sambão afrofuturista. Dentro do meu coração tem essa conexão toda.”



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