Bienal reúne veteranos da África e da Ásia e expõe lacuna da arte no Brasil

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Bienal reúne veteranos da África e da Ásia e expõe lacuna da arte no Brasil


Ao caminhar pelo pavilhão da 36ª Bienal de São Paulo, a sensação inicial é de novidade, como se muitos dos trabalhos estivessem sendo vistos pela primeira vez. A surpresa, no entanto, é constatar que boa parte desses artistas já acumula décadas de carreira fora do Brasil —e só agora chega ao público local.

É o caso de Frank Bowling, 91, e Théodore Diouf, 76. A lista inclui ainda Leiko Ikemura, Gōzō Yoshimasu, Madame Zo, Huguette Caland e Ernest Mancoba, todos ausentes até agora do circuito brasileiro, evidenciando tanto a proposta de revisão histórica da exposição, a principal mostra de artes do Brasil, quanto o atraso das instituições locais em incorporar esses trajetos.

A curadoria, comandada pelo camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, ao lado de Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza, organiza-se em torno da ideia de repensar a humanidade como prática e de reposicionar vozes à margem das narrativas hegemônicas. Mais do que lançar jovens promessas, o evento questiona o próprio funcionamento das grandes mostras entre vitrines de tendências e espaços de revisão crítica da história da arte.

Esse tensionamento aparece na diversidade reunida. Do lirismo corporal de Huguette Caland aos trabalhos têxteis de Madame Zo, das abstrações de Bowling à poesia performática de Yoshimasu, a bienal propõe um panorama em que a experiência acumulada desafia a associação entre contemporaneidade e juventude.

Bowling e Diouf talvez sejam os exemplos mais claros desse gesto. O primeiro construiu uma pintura abstrata celebrada internacionalmente desde os anos 1970. O segundo, um trabalho de cores intensas e simbologia entre sonho e cotidiano africano. Ambos, porém, permaneciam invisíveis no circuito latino-americano.

A mesma lógica se aplica à libanesa Huguette Caland, morta há seis anos, conhecida no Ocidente por pinturas e roupas-escultura que exploram corpo e sensualidade, e ao sul-africano Ernest Mancoba, morto há três anos, pioneiro negro do modernismo europeu, cuja produção passou décadas à margem da narrativa oficial.

Já Madame Zo, de Madagascar, que morreu em 2020, apresenta painéis têxteis feitos de tecido, cobre e papel, embaralhando fronteiras entre arte e artesanato. A nipo-suíça Leiko Ikemura, 74, cria seres híbridos entre mitos orientais e imaginários ocidentais. Gōzō Yoshimasu, 86, amplia o escopo ao fundir oralidade, gesto e escrita em sua poesia experimental.

O gesto de resgate também inclui artistas brasileiros com produção longeva e que aparecem pela primeira vez em uma Bienal. A paraibana Marlene Almeida, 83, apresenta esculturas que dialogam com décadas de pesquisa em solos e pigmentos. O baiano Alberto Pitta, 64, insere no contexto internacional a força simbólica de suas bandeiras ligadas aos blocos afros de Salvador.

Outros nomes históricos reforçam essa revisão, como Maria Auxiliadora, morta em 1974, que retratou a religiosidade popular com cores vibrantes, e Heitor dos Prazeres, morto em 1966, sambista e pintor que registrou a vida afro-brasileira no Rio de Janeiro.

A presença desses artistas expõe uma lacuna histórica: a dificuldade do Brasil em dialogar de maneira consistente com produções da África e da Ásia. “Não me surpreende que essa dificuldade de troca aconteça. Enquanto instituições europeias e americanas há anos exibem nomes como Bowling ou Mancoba, aqui eles chegam como estreantes tardios”, afirma o crítico de arte Gabriel San Martin.

Outros museus brasileiros têm tentado enfrentar essa defasagem —como o Masp, o Museu de Arte de São Paulo, com seus ciclos sobre histórias feministas e afro-atlânticas; o IMS, Instituto Moreira Salles, ao revisitar legados fotográficos invisibilizados; ou o Sesc, com mostras de arte africana contemporânea. Mas a Bienal de São Paulo, pela escala e centralidade, dá outra dimensão a esse movimento.

Nesse contexto, a apresentação de artistas de 90 anos como novos evidencia as lacunas históricas do sistema de legitimação, que por muito tempo privilegiou trajetórias ligadas a eixos hegemônicos. Ao reposicionar esses nomes, a bienal contribui para ampliar os parâmetros do que se entende por arte contemporânea no Brasil.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *