Baco Exu do Blues confronta seu processo terapêutico com novo álbum ‘Hasos’

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Baco Exu do Blues confronta seu processo terapêutico com novo álbum ‘Hasos’


Já na primeira faixa de seu novo disco, “HASOS”, o rapper Baco Exu do Blues faz referência a Jorge Amado, a dendê e à Baía de Todos os Santos. Quase uma década após ganhar projeção com “Sulicídio”, faixa que criticava o domínio sudestino na cena de rap nacional, o baiano segue colocando sua terra natal no foco de sua música em seu sexto álbum de estúdio, lançado em novembro.

Desde “Sulicídio” e do lançamento de seu álbum de estreia, “Esú”, em 2017, a carreira do rapper mudou de rumo. O primeiro trabalho era dominado por faixas enérgicas e dramáticas, como “En Tu Mira”, em que Baco fala da pressão da fama e de ideações suicidas. Mas a canção que mais cativou o público foi a romântica e erótica “Te Amo Disgraça”.

O sucesso da faixa, que acumulou milhões de visualizações e indicações a prêmios, impulsionou Baco a focar em faixas sentimentais e inclinadas à MPB em seus próximos lançamentos. Algumas dessas acabaram virando seus maiores hits, como “Me Desculpa Jay-Z”, de 2018, e “20 Ligações”, de 2022.

“O fato de eu ter canalizado essa raiva não significa que eu deixei de senti-la”, diz o rapper à Folha em entrevista realizada por vídeo. “Sempre me incomodou o fato de eu sentir muita raiva, mas não poder soltar ela pro mundo de um jeito puro, porque é exatamente isso o que esperam de um jovem negro. Então eu aprendi a usar a minha raiva num lugar que não fosse caricato.”

“Hasos” é um reflexo desse processo. Entre as 18 faixas do disco, quatro são interlúdios nas quais o rapper e atores encenam sessões de terapia. Segundo o artista, os skits são inspirados em suas próprias conversas com seu terapeuta. Durante as sessões, surgem frases de efeito que dão o clima da próxima canção. “Às vezes, a gente precisa ser pior que o mal. Você está romantizando a sua forma de barganhar afeto”.

“Tem uma dessas que foi literalmente um ‘quebra-pau’ com o meu terapeuta, mas não vou falar qual”, diz Baco. “Eu sou uma pessoa diagnosticada com depressão há muito tempo. Então, o processo terapêutico sempre foi uma parada muito importante pra mim.”

Criar “Hasos” também foi um processo terapêutico para Baco. A ideia era falar de “coisas que doam muito, que sejam difíceis de escrever”, conta. A composição do álbum começou em 2022, mas foi interrompida – o EP “Fetiche”, lançado pelo rapper no ano passado e focado em temas eróticos, surgiu da necessidade de tirar uma pausa no processo doloroso do disco atual.

Ao contrário de seu tema central, a estética sonora de ” Hasos” é dispersa. Nas 14 faixas que não são interlúdios, Baco pula de ritmo em ritmo. Em “Gladiadores de Areia”, rima sobre uma base de improvisação de jazz; em “Romance Latino”, se inspira na house music americana. Sobrou espaço até para um forró, em “Sertão Sem Flor”, que interpola uma famosa letra do grupo Falamansa.

“Durante o processo do disco, eu não estava tanto na onda musical, estava pensando em narrativa. Estava travado em Jorge Amado, Rubem Alves, Ariano Suassuna“, fala o artista. “Quando um autor está escrevendo, ele precisa criar o ambiente antes de colocar a cena. Com esses diferentes gêneros musicais, eu quis criar diferentes ambientes, também.”

As participações seguem a mesma lógica de cobrir diversas bases estilísticas. Vão de nomes já estabelecidos da MPB, como Zeca Veloso e Vanessa da Mata, a vozes menos conhecidas como Sued Nunes e Mirella Costa. Há também aproximações pop, como Carol Biazin, Ivyson, e o trapper Teto.

Teto é conterrâneo de Baco e teve seu próprio hit explosivo na cena do rap – “M4”, de 2021, uma parceria com Matuê. Este, por sua vez, é cearense e possivelmente o maior nome do hip-hop brasileiro nesta década. Outros nomes populares –WIU, Don L– também demonstram como o rap se descentralizou do sudeste desde a época de “Sulicídio”. Para Baco, é tudo parte de um movimento que ele ajudou a construir.

“Hoje, se você pegar um top 10 de rappers mais ouvidos do Brasil, é muito diferente do que era antes”, fala. “É um processo muito bonito de se ver. Realizei muitos sonhos que eu julgava impossíveis nessa época. Pensava: ‘é isso que vou fazer da minha vida, eu quero chegar lá’. E cheguei.”



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