Estilo de vida, estresse crônico e sintomas atípicos em mulheres dificultam o diagnóstico precoce e contribuem para o crescimento da mortalidade
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O cenário das doenças cardiovasculares no Brasil atravessa uma mudança preocupante de perfil. Tradicionalmente associado a homens de idade avançada, o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC) têm registrado um crescimento expressivo entre pessoas abaixo dos 40 anos e, especificamente, na população feminina.
Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e do Ministério da Saúde indicam que as internações por infarto entre jovens mais que dobraram nas últimas duas décadas, com um salto superior a 150%.
No recorte feminino, entre 18 e 55 anos, a mortalidade cresceu cerca de 62% nos últimos 30 anos, um fenômeno impulsionado por uma combinação de fatores hormonais, mudanças no estilo de vida e a negligência de sinais clínicos.
Vulnerabilidade cardiovascular
Especialistas do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) apontam que a precocidade desses eventos está diretamente ligada à rotina da vida moderna. Fatores emocionais como ansiedade e estresse crônico, somados ao sedentarismo e à má alimentação, atuam como gatilhos.
O cardiologista Cristiano Berardo, do Imip, ressalta que a prevenção não deve ser negligenciada por conta da idade.
“É fundamental compreender que o coração não distingue idade ou gênero quando os fatores de risco estão presentes. O excesso de estresse, noites mal dormidas, uso de cigarro e até mesmo o consumo abusivo de bebidas alcoólicas e energéticas podem contribuir para esse cenário. A prevenção passa por escolhas conscientes e acompanhamento médico regular”, orienta o médico.
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Coração feminino: por que o risco é maior e silencioso?
A biologia feminina apresenta particularidades que interferem tanto na manifestação quanto no diagnóstico do infarto. Até a menopausa, a mulher conta com a proteção natural do estrogênio, que auxilia na flexibilidade das artérias.
Contudo, o uso de anticoncepcionais, somado ao tabagismo e à jornada dupla ou tripla de trabalho, tem anulado essa vantagem biológica.
Outro obstáculo crítico é a forma como os sintomas se manifestam. Enquanto o homem frequentemente apresenta a clássica dor intensa no peito que irradia para o braço esquerdo, as mulheres costumam apresentar sintomas “atípicos”, que podem ser confundidos com problemas gástricos ou mal-estar passageiro.
Sintomas comuns em mulheres que exigem atenção:
- Dores nas costas, mandíbula ou pescoço;
- Náuseas, vômitos e desconforto abdominal (semelhante a uma indigestão);
- Fadiga extrema e inexplicável;
- Falta de ar e suor frio sem esforço físico prévio.
Mitos e verdades sobre o ataque cardíaco
A desinformação ainda é um dos maiores entraves para o socorro ágil. Muitos pacientes retardam a busca por uma emergência por acreditarem em mitos consolidados:
- “Sou jovem demais para infartar”: falso. O acúmulo de placas de gordura (aterosclerose) pode começar na infância, e o estilo de vida atual acelera o processo de obstrução arterial.
- “Infarto sempre causa dor lancinante no peito”: falso. Em diabéticos e mulheres, o infarto pode ser “silencioso” ou apresentar apenas um desconforto vago e sudorese.
- “Doença cardíaca é problema de homem”: falso. As doenças cardiovasculares matam mais mulheres do que o câncer de mama e de útero somados, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Prevenção e diagnóstico precoce
A redução da mortalidade depende da educação em saúde e do controle rigoroso de indicadores como pressão arterial, glicemia e níveis de colesterol.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que, mesmo na ausência de sintomas, a avaliação cardiológica comece mais cedo para aqueles com histórico familiar de doenças cardíacas.
Além do acompanhamento médico, a mudança de hábitos permanece como a intervenção mais eficaz. O controle do peso, a prática de atividades físicas regulares e a gestão do estresse não são apenas recomendações estéticas, mas medidas vitais para conter o avanço das doenças do coração em uma geração cada vez mais exposta a riscos precoces.


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