Hank Azaria e Michael Shannon são ambos atores, de estilos bem diferentes, e também vocalistas de bandas cover que homenageiam vocalistas bem diferentes.
Azaria, o artista multifacetado mais conhecido como a voz de personagens de “Os Simpsons”, como Moe, o barman, criou a EZ Street Band, uma banda cover de Bruce Springsteen.
No último ano, ele vem aprimorando sua voz rouca; ele canta como “o chefe”, o apelido de Springsteen, a quem idolatra desde criança, quando morava no Queens, em Nova York. “Muitas das minhas imitações na juventude vinham da admiração por um ídolo”, disse Azaria.
Shannon, o ator coadjuvante indicado ao Oscar, tem interpretado os vocais de Michael Stipe em um projeto de covers do R.E.M. de longa data com o guitarrista Jason Narducy e outros veteranos do indie rock. “A banda inteira fica impressionada com o quanto ele se dedica a isso”, disse Narducy, que também toca com o grupo Superchunk e o cantor Bob Mould.
Percorrendo a discografia do R.E.M., Narducy e Shannon tentam recriar o som de cada álbum. Eles começaram em 2023 com “Murmur”, de 1983 e, a partir de 11 de fevereiro, farão uma turnê com “Life’s Rich Pageant”, de 1986.
Os membros do R.E.M., incluindo Stipe, já se juntaram a eles no palco. Mas Shannon, natural de Lexington, no estado do Kentucky, que liderou e lançou um álbum com o trio indie do Brooklyn Corporal, tem seu próprio estilo. “É quase como se ele estivesse equilibrando algo cativante com algo que é provocante como artista”, disse Narducy, “e isso mantém os olhos [do público] nele”.
Azaria quer a experiência Springsteen ao vivo, completa com o público cantando junto e causos pessoais —ele conta suas próprias histórias, mas na voz de Springsteen. “Simplesmente soava melhor e mais poético”, afirmou. A renda de suas apresentações é destinada à sua fundação, 4 Through 9, com fundos direcionados à educação e outras iniciativas.
Shannon, de 51 anos, e Azaria, de 61, que já haviam feito uma leitura dramatizada juntos pelo Zoom, mas nunca haviam se encontrado pessoalmente, se reuniram recentemente para conversar sobre suas atividades musicais paralelas.
Tomando café no apartamento de Azaria no Upper West Side, em Nova York, se sentaram na sala de estar de meias, com Truman, o terrier de Azaria, entre eles no sofá. Azaria fez perguntas sobre o talento artístico de Shannon; quando ele imitou a voz de Springsteen, Shannon sorriu. Eles conversaram sobre nervosismo, o encontro com seus ídolos, a trajetória improvável e o apelo de seus novos trabalhos.
Estou interessada na sua decisão de transformar essas obsessões privadas em performances públicas. Como você chegou a isso?
HANK AZARIA: Eu imito o Bruce desde a adolescência. Eu também tinha um relacionamento difícil com meu pai, e ouvir as músicas do Bruce sobre isso e as histórias que ele contava me confortava muito.
Eu estava completando 60 anos e me sentindo meio para baixo por causa disso. Parecia triste ignorar, mas eu também não queria simplesmente dar uma festa. Pensei “já sei! Vou convidar todo mundo, uma reunião —do ensino médio, da faculdade, do acampamento, da Broadway— e dizer que eu tinha uma banda cover do Springsteen a caminho”. Mas não contei que eu seria o vocalista.
Eu fiz isso como algo muito pessoal, para me animar.
MICHAEL SHANNON: Deu certo?
AZARIA: Com certeza. Foi uma das noites mais felizes da minha vida. Por isso que eu não queria parar.
SHANNON: Nunca foi minha ambição ser músico de turnê. O Mike Mills [baixista do R.E.M.] tocou baixo em um álbum que o Jason produziu. Então, no primeiro show do “Murmur”, o Mike Mills veio assistir.
AZARIA: Nossa! Isso te assustou?
SHANNON: Ele foi muito simpático. O Jason perguntou: “Você quer participar?” E ele respondeu: “Não, tenho certeza de que vocês têm trabalhado muito, e eu só quero curtir; a gente se vê depois.” Aí, depois de umas seis músicas, ele subiu no palco. Ele continuou subindo a noite toda e cantando. E tenho certeza de que isso tem algo a ver com o fato de ainda estarmos fazendo isso. Quando a notícia se espalhou, as pessoas começaram a perguntar.
AZARIA: Que incrível! Eu conheci o Max Weinberg [baterista da E Street Band, o grupo que acompanha Bruce Springsteen] no programa do Conan O’Brien [onde ele era o líder da banda] anos antes. Então eu o convidei para aquela festa, e ele veio e tocou duas ou três músicas. Ele me disse que o segredo dos músicos é que todos eles estão loucos para serem chamados para tocar.
Eu estava tão nervoso no dia, ao meio-dia, que teria dado qualquer coisa para desistir. Cheguei a vomitar de nervosismo. Nunca antes, nem depois. Mas aí, quando começou, foi muito divertido. Talvez eu pressentisse que uma parte de mim estava levando aquilo muito a sério e que significava muito para mim, mas eu ainda não tinha me dado conta.
SHANNON: Muitas vezes, a primeira pergunta que as pessoas fazem é “não é divertido?”. E é algo muito sério.
Vocês têm uma conexão diferente com essas músicas, ou se identificam com os artistas de forma diferente agora que já estiveram no lugar deles?
SHANNON: Sempre achei que um dos motivos pelos quais o R.E.M. é uma banda tão amada é a profundidade humana que eles transmitem. Eles fazem música sobre ser uma pessoa e o quão difícil isso é.
AZARIA: Nós tocamos “Backstreets”, e Bruce escreveu essa música quando tinha uns 22 anos, sobre um coração partido na adolescência. Quando meu coração foi partido na adolescência, eu comia muito sorvete e aprendi a beber uísque; Bruce escreve “Backstreets”. Tentando aprender aquele rosnado dele, que você ouve sobretdo ao vivo —aquele grito de rock ‘n’ roll— comecei a chorar um dia depois de gravá-lo, porque pensei: “Ah, esse é o som da raiva e da tristeza da adolescência”. Eu senti: só pode ser expresso dessa forma. E entendi a música um pouco mais profundamente.
SHANNON: Quando comecei a ouvir R.E.M., eu era uma adolescente em completo desespero, totalmente perdido. Não era só tipo “não ganhei os sapatos que queria no Natal”. Era algo pesado. E eu andava pela minha cidade natal com meu Walkman, ouvindo R.E.M. Era assim que eu me acalmava.
AZARIA: Sim, eu me identifico.
Tenho a impressão de que somos artistas muito diferentes. Como imitador, comecei de fora para dentro. Quando estava aprendendo a atuar, eu pensava: “Como o De Niro faria isso?”. Grande parte disso se devia à minha baixa autoestima e à minha falta de confiança em mim mesmo.
Então, imitando o Bruce, eu inventava todas essas histórias para a minha festa, incluindo a noite em que conheci minha mulher; foi amor à primeira vista, com certeza.
Eu mostrei para minha mulher: Devo contar essas histórias como eu mesmo ou como Bruce? Ela disse: “Você deveria contá-las como você mesmo.” E então eu contei como Bruce. E ela disse: “Sabe, você deveria contar isso como Bruce.” É mais confortável para mim falar sobre mim mesmo como Bruce do que simplesmente subir no palco e contar uma história sobre mim.
SHANNON: Eu interpretei Elvis em um filme, “Elvis e Nixon”, quando Elvis vai à Casa Branca. Eles me procuraram para fazer o filme, e eu disse: “De jeito nenhum.” Eles insistiram, e eu fui até Memphis e me encontrei com Jerry Schilling, que provavelmente era um dos amigos mais próximos de Elvis. Jerry queria que eu fizesse o filme. Ele disse: “Há muitas pessoas no mundo que tentam se parecer com meu amigo e soar como meu amigo. Quase ninguém tenta entender meu amigo. E você pode fazer isso.”
É algo parecido com isso. Michael é um dos vocalistas mais cativantes. Para mim, o desafio não é necessariamente soar como ele, mas sim entender o que ele está fazendo. Por que ele fez isso, por que compôs todas essas músicas?
AZARIA: Então, meu instinto estava certo. Você é muito mais um ator e performer de dentro para fora. E eu tendo a vir do outro extremo.
SHANNON: O público provavelmente se interessa muito mais por você ser o mais fiel possível à essência da obra. Acho isso empolgante, se você conseguir.
AZARIA: Como sou conhecido por imitar e fazer comédia, eu tinha muito medo de que Bruce pensasse que isso era algum tipo de paródia. A intenção era ser uma homenagem carinhosa —mais do que uma simples homenagem, uma expressão de como isso me afetou, e uma celebração da música. Fiquei feliz em saber que eles entendem isso agora.
Esses são projetos que você obviamente ama fazer. Eles têm algum significado para a sua carreira?
SHANNON: Não. Se significa algo, é um pouco irresponsável em relação ao meu trabalho principal. Quando estou em turnê, não estou disponível. Não acho que isso vá me levar a oportunidades mais lucrativas. E a ideia de que às vezes as pessoas me ignoram e pensam que eu faria algum tipo de cinebiografia do R.E.M. é, na minha opinião, insana. Isso nunca vai acontecer.
AZARIA: Tenho muita sorte de não precisar fazer muitas coisas. Quando me oferecem algo, eu penso: “Prefiro fazer isso ou cantar com a banda?”. E ,a menos que seja um trabalho extraordinariamente bom, eu prefiro ficar com a banda.
SHANNON: Concordo. Adorei fazer isso. Fomos a Athens, no estado da Geórgia, e tocamos no 40 Watt Club, e é lá que o R.E.M. geralmente aparece. E antes do show, Michael entra no camarim e diz algo como: “Bem, vocês estão trazendo alegria ao mundo”. É uma forma gentil de dizer.
AZARIA: É uma experiência coletiva. As pessoas me perguntam: “Você se sente uma estrela do rock?”. Não. Eu me sinto o que sou, que é um superfã do Bruce. Em todos os shows do Bruce, todo mundo canta junto cada palavra. Eu me sinto apenas como uma dessas pessoas que pegou o microfone.

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2608739105.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2609777995.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2609798488.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2608739105.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)



