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Quem defletir à direita do Panthéon francês, em demanda do “Emily Cooper’s Apartment”, nova atração turística decorrente da renomada série “Emily em Paris”, na sua quinta temporada, encontrará um espaço urbano, bucólico e cativante. É a charmosa Praça d´Estrapade, no 5º arrondissement de Paris, cenário da série, onde situados o prédio de seis pavimentos onde reside o personagem Emily Cooper e o bistrô italiano “Terra Nera”. Na ficção, chamado “Les Deux Compères”. A imponência do lugar é simplesmente romântica, diversa da imponente Praça Vermelha, na Rússia, com sua função política.
Palco majestático do poder russo, de escala monumental e de forte eixo visual, tem-se a centralidade simbólica do Império. A Praça Vermelha separa a cidadela real, denominada “Kremlin”, do bairro histórico de Kitay-gorod, e dali partem as grandes ruas moscovitas em suas diversas direções.
Patrimônio mundial da Unesco, desde 1990, na praça estão o famoso mausoléu de Lenin e o Monumento a Dmítri Mikháilovitch Pojárski e Kuzmá Mínich, heróis nacionais, com a Catedral de São Basílio ao fundo. No muro do Kremlin estão sepultadas destacadas figuras como Josef Stalin e Yuri Gagarin. Uma praça referencial de história.
De igual tipologia de palcos de poder, são icônicas a Praça de São Pedro, no Vaticano e a “Place de la Concorde”, em Paris; ambas com forte carga de ânimo e presença popular.
A primeira é o grande átrio da cristandade, onde a arquitetura e a fé se abraçam em reverência ao sagrado. Espaço de peregrinação, rito e memória espiritual coletiva, a Praça de São Pedro é transcendente, teologia em pedra, identidade urbana do Papado, centralidade simbólica da Igreja. A mais emblemática praça religiosa do Ocidente, como liturgia, poder espiritual e multidão, é o abraço simbólico da Igreja, por sua universalidade cristã, em todos os fiéis do mundo.
A segunda, a maior de Paris, situada à base dos “Champs-Élysées”, é famosa por situar acontecimentos marcantes da história da França. Tornou-se chamada, por curto período, Praça da Revolução, com a instalação da guilhotina, onde pereceram Maria Antonieta, Danton e Robespierre e mais de mil pessoas. Retomando seu nome de origem, continua como lugar recorrente de arena de direitos, protestos e memória. Ali a Revolução encontrou a modernidade.
Paris tem muitas praças-símbolos, em suas etapas temporais históricas: (i) A “Place de La Bastille”, local simbólico da Revolução Francesa é o lugar inaugural do protesto moderno, palco da cidadania ativa. A Bastilha não mais existe, quando tomada a prisão em 14.07.1789, foi destruída pela população revoltosa, mas o protesto permanece como rito republicano.
(ii) A “Place de la République”, há dizer tratar-se uma extensão simbólica da própria Constituição no espaço urbano. Ou seja, ali a estátua da República atua como um símbolo normativo, quase um “texto constitucional em bronze”. Tem sido um ícone das manifestações republicanas francesas pela concentração histórica de atos por liberdade, igualdade e laicidade.
(iii) A antiga “Place de Grève”, nas margens do Rio Sena, foi historicamente um ponto de encontro, onde durante a Idade Média, os desempregados reuniam-se no local em busca de trabalho. Originou a expressão francesa “faire grève” (fazer greve), que evoluiu para o sentido atual de paralisação de trabalho. Em 1803, o nome foi alterado para o atual “Place de l’Hôtel-de-Ville”, por ser localizada em frente à Prefeitura de Paris.
Cumpre anotar a presença de praça ou “largo” em frente às igrejas, especialmente as Matrizes, como uma característica urbanística, em nosso país, herdada do período colonial, que se consolidou como um ponto central de convivência, organização social e fé. Além desse espaço urbano valorizar a arquitetura das igrejas, é a praça da cidade do interior que produz “maior ação sociabilizadora continuada”, conforme enfatizou o antropólogo José Cantor Magnani, da USP.
Na tipologia das praças religiosas, cuidemos, então, identificar as icônicas e classificá-las em cinco significantes: (i) as praças-liturgia (São Pedro e Meca); (ii) as praças-peregrinação como a de Compostela, na Espanha; (iii) as praças-fundacionais, pontificando a de Notre-Dame, em Paris e a da Sé, em São Paulo; (iv) as praças-místicas, populares como a “Jemaa e-Fnaa”, no Marrocos e (v) as chamadas praças-escatológicas, como o Muro das Lamentações em Jerusalém.
Praças religiosas icônicas são inúmeras e melhor será citá-las por cada religião que os templos abrigam. Maiores exemplos das católicas são: (i) a “Piazza del Duomo”, onde a harmonia entre fé, arte e razão, demonstram a teologia renascentista do espaço;
(ii) A “Parvis de Notre-Dame – Place Jean-Paul II”, assim denominada a partir de 2006, é a praça histórica em frente à Catedral de Notre-Dame, na Île de la Cité, em Paris. Criada no século XIX, abriga o Marco Zero da França, a Cripta Arqueológica e a estátua de Carlos Magno, oferecendo uma vista icônica da fachada gótica. Um pequeno medalhão de bronze no chão, instalado em 1924, marca o centro geográfico e simbólico de Paris, de onde são medidas as distâncias rodoviárias da França.
(iii) A Praça da Sé, em São Paulo, é o marco fundador da cidade, servindo como lugar de fé, onde sua Catedral atua como consciência moral urbana.
(iv) A Plaza del Obradoiro, é a principal e mais famosa praça de Santiago de Compostela, na Espanha, a praça do fim do caminho, apoteose da espiritualidade da peregrinação e do cansaço redimido do peregrino.
No Islamismo, temos a contemplar o Pátio da Mesquita Sagrada, o maior espaço religioso do mundo, com mais de 86.800m². É a praça cósmica da fé islâmica, conhecida como “Masjid al-Haram” ou Grande Mesquita de Meca, na Arábia Saudita, local de peregrinação mais sagrado do Islã, reunindo centenas de milhares de fiéis como o ponto de oração central para os muçulmanos do mundo inteiro. Cite-se, ainda, o “Pátio da Mesquita do Profeta” (Al-Masjid an-Nabawi) e a “Jemaa el-Fnaa”, a célebre praça da cidade marroquina de Marrakech.
No Judaísmo, a Praça adjacente ao Muro das Lamentações, na cidade velha de Jerusalém, área pública aberta em 1967, é a praça-teologia da espera messiânica, também um espaço de oração, luto e esperança. Tem-se no silêncio uma forma de oração pública.
No Budismo, “Wat Phra Kaew”, é o local budista mais sagrado da Tailândia, situado no complexo do Grande Palácio em Bangkok. Praça-palácio-templo. Por sua vez, o pátio do “Templo Mahabodhi” em Bodhgaya, na Índia, é o local sagrado onde Siddhartha Gautama, o Buda, teria atingido a iluminação sob a famosa Árvore Bodhi.
Existem também as praças-espetáculo, que são os espaços públicos onde o evento é permanente, a visualidade domina, em luz, tela e arquitetura-ícone e, sobretudo, a experiência urbana nela surge como narrativa midiática. Suficiente será citar a “Times Square”, em Nova York, que pode ser considerado arquétipo absoluto da praça-espetáculo onde a luz substitui o monumento ou a “Piccadilly Circus”, coração turístico de Londres, comparável à “Times Square”, uma continuidade histórica entre teatro, comércio e mídia. Os icônicos letreiros de neon/LED, que as iluminam são um outro espetáculo à parte.
Também vale referir a “Federation Square” (“Praça da Federação”), espaço dedicado às artes, à cultura e a eventos públicos, na periferia do distrito comercial central de Melbourne, na Austrália, com uma área de 3,2ha. É o melhor exemplo de praça-plataforma do século XXI, tendo o cidadão como curador do espaço.
A seu turno, a “Gwanghwamun Square”, em Seul, na Coréia do Sul, constitui uma praça icônica como verdadeira hibridização entre a tradição confucionista e a mídia digital. Uma praça que serve de interface entre passado e futuro.
O Cruzamento de Shibuya (“Shibuya Crossing”), em Tóquio, no Japão, não é uma praça, mas se torna um espaço urbano icônico, diante de se constituir um espetáculo de fluxo de pessoas. Essa travessia de pedestres, no bairro de Shibuya, é considerada a mais movimentada do mundo, com até três mil pessoas atravessando simultaneamente, em inúmeras e todas as direções, liberadas a um só tempo por semáforos verdes, a cada 2 minutos. Em tempo instante, observa-se uma imensa multidão coreografada, o que muito fascina, quando três grandes telas de vídeo montadas em edifícios, como o famoso QFRONT, dominam a vista da travessia.
Nessa multidão, incluí-me, em dias do final de novembro de 2025, testemunhando e vivenciando a experiência singular.
Importantes e icônicas são as praças-fórum por seu uso recorrente para grandes manifestações públicas. Seguramente, a “Plaza de Mayo”, principal praça do centro de Buenos Aires, tornou-se a mais icônica, como símbolo de protesto e de função política, onde cada cidadão comum é protagonista maior e a praça serve de mediação entre o povo e o poder, e como “locus” adequado de um direito urbano implícito, o da liberdade de reunião, expressão e petição. Interessante é a sua vocação libertária a partir do próprio nome que comemora a Revolução de Maio de 1810, que iniciou o processo de independência das colônias da região do sul da América Latina. As “Madres y Abuelas de Plaza de Mayo” foram as mulheres que saíram às ruas e foram à praça, em busca de seus filhos detidos e desaparecidos, durante a ditadura militar argentina e ao depois transformaram o espaço em foro moral permanente.
Praças-fórum também são a “Puerta del Sol”, de Madrid, e a Cinelândia, região do entorno da Praça Floriano, que lhe serve de continuidade, no Rio de Janeiro, como marcos cívicos de manifestações.
Assinalam-se, ainda, praças que são símbolo do protesto político, como (i) a egípcia “Praça Tahrir”, no Cairo, a mais contemporânea e praça de protesto, onde o próprio espaço produziu o evento político e não apenas o hospedou; e (ii) a chilena “Plaza Baquedano” (1928), de Santiago, epicentro simbólico dos protestos sociais a partir de outubro de 2019, com sua renomeação espontânea e pertinente para “Plaza Dignidad”. Praças como linguagem do dissenso.
Praças que assumem a fisionomia urbana de suas cidades garantem lugar na história arquitetônica e são icônicas por si mesmas. Vejamos: (i) a “Piazza San Marco” é a “sala de visitas” de Veneza, na Itália, entre água, arte e música; (ii) a “Praça da Paz Celestial” é a maior praça pública do mundo, ícone do Estado chinês. (iii) o Zócalo, oficialmente “Plaza de la Constituição”, sobre camadas pré-hispânicas e coloniais, é a praça principal da Cidade do México e uma das maiores do mundo, com cerca de 60.000m².
Praças que são memória viva das lutas democráticas, em todo mundo, são praças icônicas, como serão todas as que se situam na memória do coração, afetivas na vida de cada um.
Tenho comigo as revivências da antiga “Praça da Bandeira”, atualmente “Praça Monsenhor Adelmar da Mota Valença”, que conduz, à sua frente, ao Colégio Diocesano de Garanhuns, templo sagrado de ciência e do saber, onde aprendi humanidades e ali preparei minha vida inteira. É a minha praça icônica por ter sido o caminho.
*Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista.





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