A gente performa o tempo todo. Até em algo que deveria ser banal: um jantar em família com frango assado. A psicanalista e colunista da Folha Carol Tilkian conta que, mesmo aí, sente necessidade de levar à mesa pautas interessantes, como sua opinião sobre a guerra mais recente. Todos temos que entreter o tempo inteiro.
Mas sobra espaço para conexões genuínas? Em sua primeira mesa deste domingo (8), Dia da Mulher, o Festival Fronteiras convidou Tilkian e outras três mulheres para debater um diagnóstico recorrente da vida contemporânea: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão solitários.
Participaram também a atriz e escritora Maria Ribeiro, a psicóloga e escritora Geni Núñez e a jornalista Camila Fremder. Entre teoria e prática, o papo se aprofundou em como a interação digital transformou a maneira como as pessoas se relacionam.
Ribeiro contou que têm trocado o WhatsApp por esse hábito vintage que é atender telefonemas. Para ela, a comunicação instantânea tirou algo essencial da convivência. “A gente desaprendeu a se surpreender.”
Com as redes sociais, afinal, tudo se torna previsível. Fremder lembrou de como a internet alterou rituais sociais antes cheios de expectativa —como as festas da sua adolescência, quando ficava ansiosa se o menino de quem gostava apareceria. “A gente tinha que fazer a mãe Dinah”, brincou. Então veio o Facebook, com suas confirmações de presença, que acabou com isso.
Para Fremder, o excesso de conexões também mudou a percepção sobre amizade. Ela segue um monte de gente, mas nem sabe quantos amigos de verdade tem. Quatro, talvez?
Tilkian evocou o conceito sociológico de “tempo das intimidades frias”. Segundo ela, a abundância de canais de comunicação não significa necessariamente proximidade real. “Temos muita conexão e pouco vínculo”, afirmou. Para a psicanalista, boa parte das relações é mediada por algum tipo de performance.
Ela defendeu o que chamou de “ligações kamikaze”: telefonemas sem aviso prévio, feitos simplesmente para falar com alguém. Porque hoje até para ligar parece que precisamos pedir autorização antes. O receio de incomodar o outro, diz, ela, é sintoma do “mito das relações leves” que se impõe em muitos casos.
“É essa falácia da amizade leve e sem atrito, sem muita demanda. Então imagina se você vai ligar para o outro e atrapalhar ele.”
Daí todo mundo performar muito na superfície, sem aprofundar muito. “A gente está morrendo de fome emocionalmente porque você interdita os assuntos pesados, o climão”, afirma Tilkian.
Ela mencionou pesquisas que apontam para a mesma sensação de escassez afetiva, como uma que indica que um a cada quatro brasileiros sente ter apenas um amigo próximo.
Núñez trouxe ao debate uma perspectiva indígena ao lembrar de uma conversa com lideranças do povo Kalapalo. Segundo ela, os Kalapalo são conhecidos como “povo da brincadeira”. Enquanto na sociedade urbana brincar costuma ser visto como recreio ou intervalo, ali é parte central da vida.
“Eles fazem o brinquedo toda vez que vão brincar”, disse. “Não é algo pronto.” Para Núñez, essa ideia ajuda a pensar as relações como algo que se constrói continuamente —e não como estruturas prontas.
A psicóloga falou sobre metamorfoses nas relações familiares. Até poucas décadas atrás, lembrou, o divórcio era proibido no Brasil. “O direito de ficar é tão precioso quanto o direito de ir embora”, afirmou.
Relações mantidas apenas por obrigação, disse, muitas vezes escondiam violência. “Talvez a família feliz seja desunida”, disse, sugerindo modelos mais flexíveis de convivência.
A influenciadora Virginia também rendeu impressões do quarteto. Com ela, criamos uma falsa sensação de intimidade, como se o que ela expõe nas redes contasse a história toda.
A questão é entender quão vazias podem ser essas trocas virtuais, sejam elas com uma celebridade ou pessoas do seu círculo pessoal. Tilkian lembrou do contrato de Virginia com empresas de bets para refletir: “Somos um país que aposta no tigrinho, mas não aposta no amor”.

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