Naoki Hamaguchi aceitou uma das missões mais difíceis que um desenvolvedor de jogos pode receber: remodelar um clássico histórico dos videogames. “Obviamente senti muita pressão quando recebi esse projeto, e, sinceramente, ainda sinto um certo nervosismo”, diz à Folha o diretor dos remakes de “Final Fantasy 7”, em entrevista realizada com ajuda de uma tradutora.
Cultuado até hoje, “Final Fantasy 7” (1997) é considerado um dos mais importantes jogos da história dos videogames. O título ajudou a popularizar os RPGs japoneses no Ocidente e foi também um dos maiores responsáveis pelo sucesso do primeiro PlayStation, tendo sido o segundo jogo mais vendido para o console —logo atrás de “Gran Turismo”.
Com uma história adulta que mistura temas como ecologia, guerra, trauma e perda, o game ajudou a quebrar paradigmas na indústria de que videogames seriam um produto voltado majoritariamente para crianças. Além disso, o enredo guarda reviravoltas surpreendentes, que ficam marcadas na memória de qualquer um que tenha jogado o título.
Hamaguchi não esconde que mexer em uma das histórias mais emblemáticas do mundo dos games foi um dos grandes desafios do projeto. “Precisávamos mexer em algumas coisas para prender o interesse dos jogadores, mas, ao mesmo tempo, tínhamos de manter a história de uma forma que as pessoas ainda continuem amando esse projeto”, afirma.
A solução encontrada pelo diretor foi chacoalhar o universo de “Final Fantasy 7”. Ao mudar a ordem dos acontecimentos e expandir alguns elementos pouco explorados no primeiro jogo, Hamaguchi consegue surpreender os fãs e, ao mesmo tempo, recuperar personagens, temas e locais marcantes do primeiro jogo, mantendo a sensação de nostalgia.
“Tive minhas dúvidas sobre os desafios que eu ia enfrentar para poder cumprir o que esse projeto pede. Por exemplo, a história da Aerith [sem explicações, para evitar spoilers], que é uma das coisas que o pessoal mais comenta. Acredito que toda a abordagem que a gente conseguiu fazer foi muito satisfatória”, diz.
Ainda assim, agradar a todos é uma tarefa impossível. Tratando-se de um título com uma base tão grande de fãs, sempre haverá alguém descontente com as mudanças, mesmo se feitas com as melhores intenções.
Para Hamaguchi, porém, a reação dos fãs tem sido majoritariamente positiva. “É uma obra muito amada pelos fãs. Então, levando em consideração que é um remake, é esperado que tenha muitos comentários, tanto positivos quanto negativos. Isso não tem muito o que fazer, o jeito é aceitar”, afirma.
Apesar de todo o conteúdo ser baseado em um único jogo, a Square Enix, publicadora e desenvolvedora da série “Final Fantasy”, optou por dividir o remake em uma trilogia. A decisão pegou muitos jogadores de surpresa no lançamento e deu origem a críticas de que a empresa estaria tentando multiplicar seu lucro inflando de forma artificial o conteúdo do projeto. Algo que Hamaguchi nega de forma veemente.
Ele afirma que, mais do que razões comerciais, pesou para a decisão de dividir o projeto o tipo de jogo que os desenvolvedores desejavam criar. Ele lembra, por exemplo, que as limitações tecnológicas da época em que “Final Fantasy 7” foi lançado eram muito maiores.
“Tínhamos a opção de fazer um jogo só, mas, pensando nos fãs e no quanto eles gostam desse jogo, a gente entendeu que seria interessante colocar alguns elementos a mais para justamente fazer essa divisão. Dessa forma, conseguiríamos entreter e dar o carinho que essa obra merece”, afirmou.
O primeiro título, “Final Fantasy 7 Remake“, chegou em abril de 2020 ao PlayStation 4 e vem ganhando novas versões desde então, incluindo uma que deve chegar em janeiro do próximo ano para Nintendo Switch 2 e Xbox Series X/S. A sequência, “Final Fantasy 7 Rebirth”, foi lançada em fevereiro de 2024 para o PlayStation 5 e no início do ano para PC.
O título que encerrará a trilogia, ainda sem nome definido, está em produção. Não há uma data prevista para o jogo chegar às lojas, mas, em comunicados anteriores, a Square Enix indicou 2027 como meta para o lançamento.

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