Um dos fotógrafos mais premiados da Folha, o gaúcho Antônio Gaudério, de 66 anos, que trabalhou no jornal entre 1989 e 2008, vai ganhar um documentário sobre sua vida e trajetória. “Gaudério – A Estética da Indignação” é um projeto do documentarista Chico Gomes e da produtora Modernista. O filme tem apoio da Folha.
“A gente começou com uma ideia de fazer um documentário mais clássico, no sentido narrativo”, diz Gomes. “Mas a cada dia que passa eu vou evoluindo na linguagem e a gente tem também uma ideia de ilustrar as histórias dele com animação. A parte mais bonita é o que está rolando agora, inclusive com esse vídeo da Aurora que viralizou.”
Há cerca de um mês, a história de Gaudério fez sucesso nas redes após sua filha, Ana Aurora Borges, gravar um vídeo sobre o acidente que o pai sofreu em 2008. Aos 49, ele visitava a construção de uma casa da família quando caiu em um buraco, de uma altura de três metros, e bateu a cabeça, perdendo massa encefálica.
“Ele ficou com várias sequelas cognitivas, então teve que se afastar da fotografia”, afirma Borges, que tinha 13 anos no momento em que o acidente aconteceu.
“Depois de muitos anos, resolvi revisitar o acervo do meu pai, com aquele monte de negativos, filmes, disquetes, imagina, um monte de coisa incrível. Eu me apaixonei pelo que vi”, diz ela, que em 2020 começou a apresentar o trabalho de Gaudério para ele mesmo, que não se lembrava de absolutamente nada. Ela abriu uma página no Instagram para o pai, onde ele escolhe as fotos que são publicadas quase diariamente.
“Tenho muita dificuldade de trazer a narrativa do acidente para as redes sociais dele, e quero começar a apresentar um pouco mais isso. Quero trazê-lo para mostrar a visão dele sobre as próprias fotografias, esse exercício de curadoria que ele faz”, diz ela.
Por cinco anos, Borges publicou imagens escolhidas pelo pai nas redes. Como trabalha com artes plásticas, também organizou um catálogo para venda de mais de cem fotografias, a partir de R$ 987.
Mas após falar abertamente sobre o acidente, ela abriu no mês passado uma caixa de Pandora. Um jornalista a sondou para um possível documentário da BBC. O Senac, uma exposição. Dois dias depois do post, foi ao ar uma entrevista dela à Rádio Novelo.
Um podcast com trechos do diário de Gaudério está em estudo, e um filme com atores deve se seguir ao documentário de Chico Gomes, “baseado em fotos reais”.
“Será uma série com as principais fotos dele, mas dramatizando e criando uma ficção como em ‘Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas’”, diz a produtora executiva Denise Gomes. A ideia é que tenham atores interpretando o fotógrafo e sua filha pequena, com ele contando histórias exageradas sobre seu trabalho.
João Wainer, também ex-fotógrafo da Folha e amigo de Gaudério, participa dos dois projetos, a série e o documentário —em fase de captação de recursos.
As sequelas do acidente foram grandes o suficiente para Borges dizer que “ao contrário de muitos brasileiros que não têm nenhum pai, eu tenho o privilégio de ter tido dois, o Antônio Gaudério pré-acidente e o Antônio Gaudério pós-acidente”.
Aquele primeiro pai foi um repórter fotográfico investigativo. Capturou problemas sociais como prostituição e exploração infantil, trabalho escravo e descasos com a saúde pública. Registrou a devastação da Amazônia ainda na década de 1980. “Ele teve que reaprender a andar, a falar, a comer. Digamos que ele zerou o HD. Perdeu toda a memória. Aquele pai era genial. Mas esse é mais genial ainda”, diz ela.


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