Análise: Teatro Baccarelli mostra que projeto social não barganha com excelência

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Análise: Teatro Baccarelli mostra que projeto social não barganha com excelência


Em pouco mais de um ano, três novos teatros ligados a instituições que têm na música clássica o seu braço principal foram inaugurados com sucesso na cidade de São Paulo —o Cultura Artística, que se tornou a nossa referência acústica principal para solistas e pequenas formações; a Estação Motiva Cultural, espaço multifuncional anexo à Sala São Paulo; e, agora, o Teatro Baccarelli, contíguo à favela de Heliópolis.

Apesar do porte médio —são cerca de 535 lugares na plateia, dimensão equivalente à da Estação Motiva e um pouco menor do que a do Cultura Artística—, a vocação acústico-arquitetônica do Baccarelli é pensada para abrigar grandes dimensões sonoras, como o repertório sinfônico clássico-romântico, as formações corais robustas, e até mesmo a ópera.

Toda essa variedade poderá ocorrer com apenas pequenas adaptações funcionais no palco, como a utilização de um fosso para a orquestra em espetáculos de ópera e balé.

O caminho trilhado pelo Instituto Baccarelli, referência pioneira de projeto social de educação musical na periferia, começou por apostar radicalmente na própria música —essa forma de arte capaz de transformar pessoas através da invisível e intangível matéria sonora.

Criou corais e orquestras e trouxe alguns dos melhores professores de São Paulo para a Estrada das Lágrimas, mas, para além, superou o objetivo social ao investir em um grupo de excelência, a Orquestra Sinfônica Heliópolis que, com temporada própria, tem chamado a atenção por sua atuação nas principais salas da cidade.

Desde 2011 os jovens são dirigidos por Isaac Karabtchevsky, um dos mais importantes regentes brasileiros em qualquer tempo, que impôs desafios repertoriais crescentes, estreou obras e elevou o nível artístico do grupo.

Paralelamente, o instituto liderado pelo regente Edilson Ventureli investiu nas instalações da escola em Heliópolis, que estão entre as melhores do Brasil no que tange a condições para o ensino musical. No andar onde funciona a administração, uma janela gigante permite avistar a comunidade imensa, de onde tudo saiu e para onde deverá, sempre, se voltar.

A construção do teatro foi, portanto, uma consequência natural desse processo. Na inauguração, terça-feira (25), o próprio Ventureli regeu a “Abertura” da ópera “Der Freischütz”, ou “O Franco-Atirador”, de Carl Maria von Weber, e os quatro movimentos da “Sinfonia nº 8” de Antonín Dvorák.

Tudo soou bem: madeiras bem definidas, solos de cordas claros e audíveis, com percussão e metais bem presentes, intensos, mas sem se sobrepor. O tempo, agora, fará o seu trabalho —os grupos estáveis poderão ensaiar no próprio palco onde suas temporadas ocorrerão, o que permite incorporar detalhes da acústica como ingredientes da performance, tal qual o estádio é para um time que joga em casa.

Aos 90 anos, acometido de uma fortíssima dor lombar que o fez passar a noite em claro, Isaac Karabtchevsky, infelizmente, não pode reger o concerto, mas buscou forças para subir ao palco e se dirigir ao público presente. Fluente, densa e humana, a fala do maestro deu o tom certo da emoção.

Ele estava lá para ativar a sala: seu único pedido foi para que, num arco que saiu do silêncio, cresceu, e voltou a ele, a orquestra tocasse um sereno acorde de sol menor. Por um momento, então, pareceu não haver mais distância entre centro e periferia.



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