Robert Altman, que completaria cem anos nesta quinta-feira, não esperou chegar ao cinema para mostrar como a sua personalidade era complexa e, não raro, agressiva. Filho mais velho de uma família abastada de Kansas City, alistou-se em como copiloto de aviões B-24, de bombardeio, durante a Segunda Guerra.
Pouco tempo após obter baixa, casou pela primeira vez e foi morar em Los Angeles. O cinema não estava em seu horizonte. Ganhou a vida como pôde e, para relaxar, adquiriu o hábito de ir às salas de exibição como forma de relaxar. Ali se interessou por cinema, tentou trabalhar como ator e começou a escrever argumentos e roteiros. Sem êxito em nenhuma das frentes.
Separou-se da primeira mulher e voltou para Kansas ainda nos anos 1940, onde começou a fazer filmes institucionais, o que foi sua grande escola de cinema, e casou pela segunda vez. Obteve os meios para fazer um pequeno filme, “Os Delinquentes”, mas se desentendeu com o produtor, pois queria montá-lo em Los Angeles, e o produtor se recusava a pagar sua passagem. Largou a segunda mulher e voltou para a Califórnia.
A partir de seu retorno começa a trabalhar na televisão, em séries como “Alfred Hitchcock Apresenta”, “Combate”, “Bonanza”. Se aperfeiçoou seu trabalho como diretor, o que o fez conhecido, naquele momento, foi o temperamento. Da franqueza à agressividade, que atingiam a quem quer que fosse. Como hábito, brigava com os chefes e, como retribuição, era demitido.
As coisas estavam mal para ele desde que deixou o “Kraft Suspense Theater”, dizendo que o programa era tão ruim quanto os queijos fabricados pelo patrocinador, a Kraft. Depois dessa, sua carreira poderia bem entrar em parafuso, não fosse o encontro com o agente Carlos Litto, de temperamento semelhante, conforme Peter Biskind, autor de “Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood“.
Ambos gostavam de beber, de não levar desaforo para casa, de dizer o que pensavam. Segundo Litto, Altman lhe dava muito mais trabalho do que dinheiro: “Mas eu gostava dele, porque era um rebelde bombástico, subversivo, maluco.”
Foi Litto que lhe apresentou o roteiro de “M.A.S.H.“, que ninguém topava fazer —inclusive William Friedkin, segundo Biskind. Nesse meio-tempo, Litto havia conseguido outros filmes de televisão para dirigir, mas, sobretudo, havia introduzido a maconha na vida do diretor. Se a bebida tendia a torná-lo agressivo, a maconha o acalmava, como que apagava o lado sombrio de sua personalidade.
Ainda assim, “M.A.S.H.” tinha tudo para se tornar uma produção problemática, menos por Altman, e mais pela Fox, produtora conhecida por seu conservadorismo. Na verdade, Robert Altman ameaçou deixar o projeto antes de ele começar, para desespero de sua terceira (e última) mulher. Litto tranquilizou-a: ele vai fazer o filme, porque tem tantas dívidas que vai fazer, queira ou não queira.
Altman até conseguiu driblar os executivos. Mas eles estavam certos de que seria preciso remontar todo aquele lixo. Ao menos até que uma sessão prévia mostrou que o filme, sobre o qual o diretor tivera amplo controle, tinha tudo para ser um sucesso.
A comédia irreverente, embora situada na Guerra da Coreia, caía como uma bomba sobre a Guerra do Vietnã e foi nada menos que a terceira melhor bilheteria nos Estados Unidos de 1970 —mesmo ano de “Love Story”—, que caiu no gosto dos críticos, a começar por Pauline Kael, ganhou a Palma de Ouro em Cannes e emplacou com força na Europa.
Mas o lado autodestrutivo de Altman logo viria a se manifestar: deu uma entrevista dizendo que a Fox estava em estado pré-falimentar, o que torpedeou de vez a chance dos executivos cumprirem a promessa de lhe dar 5% da bilheteria, como compensação pelo sucesso do filme.
Em troca, ganhou prestígio e uma independência digna da Hollywood dos anos 1970. Ele, 15 anos mais velho que Francis Coppola, 21 mais que George Lucas. O fato é que realizou alguns dos filmes mais representativos da década: “Voar É com os Pássaros” (1971), “Onde os Homens São Homens” (1971), “Renegados Até a Última Rajada” (1974), “n” (1974), “Nashville” (1975), “Três Mulheres” (1977), “A Cerimônia de Casamento” (1978), “Quinteto” (1979), “Popeye” (1980).
Entre um e outro, no entanto, um lado depressivo de Robert Altman aflorava e se impunha —mesmo em alguns desses citados acima, é verdade—, o que aos poucos levou a carreira a ser novamente posta em questão.
Altman ressurgiria em grande estilo em 1992, com “O Jogador”, ousada comédia dramática sobre o meio da produção cinematográfica que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Vieram depois “Shot Cuts: Cenas da Vida” (1993, Leão de Ouro em Veneza), “Prêt-à-Porter” (1994), “Kansas City” (1996).
Mas um novo apagão parecia rondar sua produção, até que “Dr. T e as Mulheres” (1999), inesperado filme sobre os problemas vividos por um célebre ginecologista revela um Altman como já não se esperava mais: renovado. Essa impressão foi confirmada por “Assassinato em Gosford Park” (2001), refilmagem de “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir.
Pode-se dizer que, entre altos e baixos, sua carreira foi marcada pela independência. Seus filmes foram ora felizes, ora irreverentes, ora tensos, ora autodestrutivos e neles, com frequência, pairava a sombra da melancolia.
Ela é que marca “A Última Noite” (2006), sobre um programa musical de rádio que chegava ao fim. Notação melancólica sobre as mudanças que o tempo impõe, e, ao mesmo tempo, tentativa de recuperar a beleza de sentimentos passados.
Naquele mesmo ano, Robert Altman recebeu um Oscar honorário e, no dia 20 de novembro, morreu em Los Angeles, aos 81 anos, vítima de câncer. Sobreviveu com independência em um meio que odeia a independência, foi um cineasta livre, no sentido clássico da palavra liberdade —e não o usurpado pela extrema direita, bem entendido.
Foi não raro contraditório, inconformista quase sempre, e dotado de um olhar original para o mundo que o cercava e as imagens que criava. No sucesso e no fracasso consolidou-se como um dos principais autores e como um grande mestre do moderno cinema dos Estados Unidos.
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