Análise: Rihanna ainda faz ecoar protesto contra indústria dez anos depois de ‘Anti’

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Análise: Rihanna ainda faz ecoar protesto contra indústria dez anos depois de ‘Anti’


Dez anos se passaram e o protesto de Rihanna ainda ecoa. O seu último disco, “Anti”, se provou, com o passar da década, um dos projetos mais inventivos desses tempos, um híbrido de R&B, pop e música alternativa que nem Rihanna nem outros artistas do seu porte se permitiam fazer. Não porque não queriam, mas porque ouviam que talvez não valesse a pena arriscar. Até que Rihanna se cansou.

O título do álbum passou a fazer muito mais sentido. “Anti” é exatamente o que ele se anuncia, uma obra do contra, precisa ser antipop, antimercado e até antifãs, de certa forma —afinal, se opôs às expectativas e isolou Rihanna em um retiro que dura desde então.

Mesmo os admiradores mais fiéis perderam as esperanças quanto ao seu retorno à música. Rihanna não esconde que está feliz longe desse universo, ainda que vez ou outra prometa um novo álbum, sem muito entusiasmo.

Se antes ela operava em ritmo industrial, cumprindo a cartilha de diva pop —lançava um álbum por ano, fazia dezenas de videoclipes, emendava turnês—, depois do “Anti” Rihanna parece ter se dado por satisfeita. Na obra, a cantora se propôs a desafiar o pop genérico que vinha tomando as paradas e a sua própria discografia.

“Não quis me prender a nada que as rádios gostassem. Se conformar é o pior sentimento do mundo. Faz você se sentir um mentiroso. Eu não queria me repetir ou fazer só o que venderia bem”, afirmou à revista Vogue na época.

Essa angústia se anuncia já na faixa de abertura, “Consideration”, que Rihanna canta com a hoje paparicada SZA, em que implora para que um amado —ou o próprio ouvinte— a deixe fazer as coisas do jeito que quiser. “Você algum dia vai me respeitar? Não/ Por que você nunca me deixa crescer?”.

O desabafo é cantado de forma quase agressiva, algo incomum às divas pop da época, ainda que Rihanna nunca tenha sido exatamente indefesa e fofa. A faixa, ela disse, foi crucial para entender que sonoridade queria para o seu oitavo disco. Mirava algo atemporal.

Por isso apostou na estranheza, como em “Higher”, que ela canta, gritando, sem se preocupar em estar afinada. É uma performance rouca e crua, nada que coubesse em uma rádio. E isso importava. Em 2016, o streaming ainda não tinha o peso de hoje.

Rihanna gravou “Higher” de madrugada. Cansada de tanto trabalho, ela tomou um uísque que cita na letra e aproveitou a quentura no corpo para gravar só mais uma canção antes de ir dormir. Parece bêbada quando pronuncia as últimas palavras.

É sob essa aparência de inconsequente que o “Anti” se constrói, como se as faixas tivessem surgido da noite para o dia, produzidas às pressas. Mas o disco, na verdade, se aproveita desse caos organizado para reforçar que a proposta ali é justamente ir contra a ideia de imediatismo.

“Woo” sintetiza isso bem. A faixa mescla distorções, um baixo cheio de ruídos e gemidos, tudo sob uma atmosfera sombria, quase hostil. Está longe da produção polida de “Diamonds” ou da pegada superfeliz de “We Found Love”, para citar dois megahits de Rihanna.

Isso não significa que o “Anti” não seja pop também. Nele está um dos maiores sucessos comerciais da cantora, “Work”, de refrão repetitivo, feito para rebolar até o chão. À primeira ouvida, “Work” não parece ter a inventividade do resto do álbum, mas uma audição mais atenta logo pesca referências espertas de reggae e de música caribenha. Rihanna nasceu em Barbados, uma ilha no Caribe Oriental.

A estética do álbum também reforça o seu caráter combativo. A jovem estampada na capa, uma representação de Rihanna imatura, tem os olhos cobertos por uma coroa grande demais para a sua cabeça. É a forma da artista dizer que, antes do “Anti”, ela nunca enxergara à frente de verdade.

Rihanna saiu de cena para que entrassem outras. O “Anti” clareou os caminhos de outras artistas que se propuseram a ousar no R&B, como a própria SZA, que um ano depois de cantar no “Anti” pôs os críticos de joelhos com o disco “Ctrl”. Ganharam força também Summer Walker, Kehlani e Muni Long.

Hoje Rihanna quer mais é passar o tempo com os filhos e com o marido, o rapper A$AP Rocky. Nas horas vagas, trabalha como empresária na Fenty Beauty, sua marca de maquiagem. Ela ameaçou um retorno à música ao se apresentar no Super Bowl há três anos, e atiçou os fãs ao cantar na trilha sonora do novo filme dos Smurfs. Em 2022, fez uma canção para o segundo “Pantera Negra”.

Nada disso, porém, foi para a frente. Rihanna parece estar com a coroa bem presa à cabeça agora.



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