Em 1974, ao assistir à peça “A Vida e a Época de Dave Clark” que o encenador americano Robert Wilson montou no Theatro Municipal de São Paulo, o crítico Sábato Magaldi, então um dos mais importantes da imprensa paulista, revelou seu deslumbramento.
“O começo me deixou cansado e perplexo, embora a plasticidade do espetáculo, bebida fortemente em sugestões surrealistas, trouxesse um estímulo contínuo”, escreveu. “Por incrível que pareça, o cansaço foi cedendo lugar a uma espécie de beatitude, sentimento dominante ao fechar a cortina.”
Esse era o caminho habitual com que o trabalho experimental e minimalista de Bob Wilson, que morreu nesta quinta-feira (31), aos 83 anos, conquistava a confiança de críticos e público —aos poucos, trabalho por trabalho.
Desde os anos 1960, quando apresentou suas primeiras criações que o tornariam considerado um inovador tão importante como foram Brecht ou Artaud em sua época, ele, que já se dizia vanguardista, fazia questão de explicitar seu desprezo pelo realismo.
A cada nova obra, fosse uma peça ou uma ópera inédita, as encenações tinham em comum a artificialidade extremada, com tudo em cena apresentado de uma forma nitidamente calculada e aprimorada em décadas —movimentos, empostação de voz, tudo iluminados com precisão minuciosa. Podia ser uma peça de Shakespeare como uma ópera de Philip Glass.
Sua assinatura estética logo se tornou familiar, conquistando aplausos da mesma forma que insinuações de que repetia seus procedimentos a cada nova encenação. Wilson parecia não se importar, especialmente quando as críticas vinham de seu país natal.
“O que eles estão querendo com esses dramas montados em Nova York?”, questionou em uma entrevista ao jornal The New York Times em 2021, quando completou 80 anos. “Eles têm toda essa psicologia. Precisa ser tão complicado?”
O rigor estético era resultado de sua formação como arquiteto, mas, principalmente, de seus encontros quando jovem com coreógrafos que se tornaram visionários. Foi um difícil aprendizado. Após uma juventude difícil como filho gay de uma família conservadora no Texas, onde inicialmente estudou administração de empresas, Wilson mudou-se para Nova York em 1963, quando descobriu o trabalho de Merce Cunningham e, especialmente, de George Balanchine, cujos balés sem enredo imediatamente lhe agradaram.
“Aquilo mudou a minha vida”, disse Wilson, naquela mesma entrevista. “Eu pensei que, se o teatro pudesse ser assim, se a ópera pudesse ser assim, então eu estava interessado.”
Logo se alinhou a encenadores, como Peter Brook, que se notabilizavam por espetáculos longos, com uma atenção especial ao gesto, ao silêncio e às pausas. “Deafman Glance”, por exemplo, foi um sucesso na França em 1971, com sete horas de duração e sem palavras.
Foi esse o caminho estético que decidiu abraçar e aprimorar em trabalhos reconhecidos pela sua potência visual, e não propriamente pela força literária. Em uma peça de Ibsen, por exemplo, “Quando Nós, os Mortos, Despertarmos”, que foi apresentada em São Paulo, o encenador criou uma montagem mais alinhada com a imagem de seu teatro formalista, ao dramatizar a “crise da linguagem” recorrendo a elementos mínimos e gestos econômicos, com frases declamadas de forma distorcida e artificial.
Para Wilson, um palco era “diferente de qualquer outro espaço no mundo”, onde criações visuais, especialmente nas óperas, ajudavam o público a “ouvir melhor do que com os olhos fechados”.
As rupturas, porém, nem sempre ganhavam aplausos. Em 1998, ele estreou uma produção lenta, sóbria e luminosa de “Lohengrin”, de Wagner, no templo sagrado que é o Metropolitan Opera de Nova York.
Enormes barras de luz, flutuando para baixo como moscas, cantores paralisados como estátuas, com gestos mudando em um ritmo glacial, nada foi aprovado e recebido por uma tempestade de vaias na noite de estreia. Um dos poucos fracassos de uma carreira construída com quase 200 espetáculos, entre inéditos e remontagens.
Wilson dizia que sua estética estava a serviço de personagens que considerava extraordinários, como Sigmund Freud, a rainha Vitória, Josef Stálin e Albert Einstein. E o retorno vinha com a mesma intensidade, como quando foi convidado por Lady Gaga, em 2013, para supervisionar sua apresentação no MTV Video Music Awards.
Wilson também manteve uma relação constante com o Brasil. E aquela apresentação de “A Vida e a Época de Dave Clark” —um pseudônimo criado para esconder da censura o verdadeiro protagonista, Stálin—, patrocinada por Ruth Escobar, foi decisiva para descobrir que São Paulo era uma metrópole menos conservadora, multiétnica e mais excitante que Nova York. Para ele, a capital paulista parecia ter uma bateria inesgotável, capaz de funcionar 24 horas sem recarga.
A partir de 2012, o artista iniciou uma parceria com o Sesc que resultou em obras como “A Última Gravação de Krapp”, em que atuava além de dirigir, “Lulu” e “A Ópera dos Três Vinténs”, todas com a parceria da celebrada companhia alemã Berliner Ensemble.
Outro marco dessa relação foi “A Dama do Mar”, adaptação de Susan Sontag para o clássico de Henrik Ibsen, encenada com elenco brasileiro.
A proximidade atingiu o auge em 2016, quando Wilson, em seu fascínio por figuras notórias, criou seu primeiro espetáculo brasileiro, “Garrincha”, que contava também com elenco nacional. “Fiquei fascinado pelo personagem, por suas contradições, por essa personalidade complexa, esse atleta tão vivo que destruiu a própria vida”, disse ele na época em uma entrevista, lembrando que trabalhou durante dois anos no projeto.
Não se tratou, logicamente, de uma montagem com cunho biográfico —Wilson apresentou o craque do Botafogo e da Seleção Brasileira como o personagem de uma peça clássica grega, criando cenas como se fossem quadros e reservando o protagonismo a elementos que, geralmente, ocupam lugar secundário, como a luz e o movimento.
Também o gingado de Garrincha inspirou outro elemento de composição da obra. “Era um grande dançarino, como Fred Astaire, Baryshnikov ou Nureyev”, comparou. A recepção do público e da crítica em geral, porém, foi respeitosa, mas fria.
Nada que derrubasse a admiração de seus apoiadores estéticos. Autor de uma obra consistentemente descrita como vanguardista, Wilson deixa um trabalho que resistiu diante de outras tendências estéticas que surgiram e desapareceram.


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