Análise: Premiado em Berlim, Gabriel Mascaro é dono de um cinema inquieto

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Análise: Premiado em Berlim, Gabriel Mascaro é dono de um cinema inquieto


Nos piores momentos dos últimos 30 anos, o Festival de Berlim foi generoso com o Brasil. Estávamos naquela seca horrível dos anos 1990, quando “Central do Brasil”, em 1998, quebrou o gelo e levou o Urso de Ouro ao falar de um país que, como a personagem de Fernanda Montenegro, buscava se regenerar e apagar seus erros passados.

Já no século 20, foi a vez de “Tropa de Elite” levar o prêmio. O filme de José Padilha celebrava a luta contra a corrupção na polícia carioca, representada pela tropa de choque incorruptível que o capitão Nascimento dirige com mão de ferro. É verdade que, dado o que se viu depois em matéria de corrupção policial no Rio de Janeiro, o melhor é esquecer o que aconteceu e partir para outra.

A outra chegou agora há pouco, com Gabriel Mascaro levando o Grande Prêmio do Júri por “O Último Azul”. A premiação tem um significado especial, por se tratar de um cineasta jovem que, assim, consagra uma nova geração da rica escola pernambucana que anima o cinema brasileiro desde que impôs seu primeiro longa nacionalmente.

“Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas surpreendeu júri e público do Festival de Brasília de 1996 ao apresentar o sertão do cangaço pela ótica de um cinegrafista libanês. Era tudo que havia de tradicional, mas também de moderno. Por isso, prêmio de melhor filme do festival não foi nada surpreendente.

Depois vieram do Recife outros cineastas relevantes, como Marcelo Gomes, Claudio Assis, Hilton Lacerda, Marcelo Lordello e, naturalmente, Kleber Mendonça Filho, que ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes por “Bacurau”, em 2019.

Em Recife começou a formidável descentralização do cinema brasileiro, que se livrou do famoso eixo Rio-São Paulo e se sedimentou em lugares tão diversos quanto Minas Gerais, Brasília, Rio Grande do Sul, Ceará, entre outros centros —sem falar de Rio e São Paulo, que continuam ativos.

Gabriel Mascaro começou a aparecer mostrando uma veia sarcástica peculiar no documentário “Um Lugar ao Sol”, de 2009, em que entrevista habitantes ricos de apartamentos privilegiados. É verdade que, à parte a veia sarcástica, havia ali ainda um quê um tanto infantil —era o cineasta impondo sua autoridade a seus objetos, de certo modo tornando-os ridículos.

Ali talvez tenha começado sua viagem pela questão da autoridade, justamente. E a angústia que pode acompanhá-la. Tanto que, em 2012, seu “Doméstica” parte do princípio de uma cessão de poder. Ou seja, o autor do filme dá seu lugar a sete adolescentes para que falem de suas relações com as empregadas domésticas de suas casas.

E então a questão da autoridade é presente de outra forma, como sublinhou Fábio Andrade, na revista Cinética. O adolescente já não é o bebê cuidado por uma babá prestimosa, mas também não é o patrão, com a força de quem paga o salário da moça. O que ele é, então? E elas, as domésticas? Ali se observa um pensamento original.

Não me pareceram tão promissores os “Ventos de Agosto”, de 2014, seu primeiro longa ficcional, no entanto muito elogiado. Talvez houvesse ali um cuidado visual que parecia descambar facilmente para o esteticismo.

Assim como amadureceu de “Um Lugar ao Sol” para “Doméstica”, o mesmo parece ter acontecido entre “Vento de Agosto” e seu filme seguinte, o surpreendente “Boi Neon”, de 2015, em conciliava uma estética contemporânea (puxada a neon desde o título), uma atividade tradicional (a vaquejada nordestina) e a ambição de seu protagonista, o vaqueiro, cujo sonho é se tornar estilista, num polo industrial de confecções que se instala no Agreste.

O contraste entre o masculino e o feminino, a paradoxal escolha do vaqueiro pelo trabalho mais delicado, é o centro do filme —e não deixa de lembrar a tensão entre os dois lados do líder da Revolta da Chibata, João Cândido, cuja ocupação preferida de horas vagas era o bordado.

“Divino Amor”, de 2019, parece concentrar várias características de seu trabalho anterior. Há um tanto de sarcasmo, na abordagem da questão das novas religiões pentecostais. Ele se traduz sobretudo pelo surgimento de um templo “drive-thru”, onde se pode orar e tudo mais sem sair do automóvel, uma espécie de McDonald’s da fé.

Mascaro, porém, concilia esse aspecto com uma atitude compreensiva em relação aos crentes. No entanto, como demonstra a simples menção à cena descrita acima, o gosto por trabalhar sobre paradoxos, conceituais ou visuais, assim como o de aproximar o tradicional e o moderno têm sido até aqui ideias centrais em seu trabalho.

A premiação em Berlim parece assinalar uma inflexão importante em uma obra até aqui em evolução inquieta e constante. De modo mais geral, reforça uma temporada em que “Ainda Estou Aqui” tem dado uma projeção rara ao cinema brasileiro.



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