O julgamento do rapper Sean “Diddy” Combs entra na quarta semana nesta segunda-feira (9), quando deve ser concluído o depoimento da última testemunha convocada pela acusação.
Acompanhar a rotina do tribunal é entrar num universo paralelo de violência sexual e extraordinário abuso de poder facilitado pelo entorno de Diddy, que já foi o mais influente empresário do hip-hop. Mas desafia também a compreensão pública do que define uma vítima, uma vez que pelo menos duas ex-companheiras dele passaram anos retornando para mais sexo violento e agressão física.
As deliberações do júri podem começar na segunda semana de julho. Não está clara ainda a seleção de testemunhas que a defesa vai convocar ou se haverá depoimentos de pessoas forçadas a comparecer por intimação judicial.
Mas, fora do tribunal e no ecossistema digital, o homem acusado de estupro, tráfico sexual e espancamento registrado em vídeo, numa alegada carreira criminal de 20 anos, não carece de defensores na “homensfera” da masculinidade contemporânea.
Oito anos depois da explosão do movimento MeToo, as vítimas de abuso sexual estão descobrindo que os predadores têm novos aliados. O julgamento de Combs produziu uma mini-indústria de entretenimento voyeurista, com inúmeros podcasts, grupos de chat patrocinados e uma onda de desinformação nas redes sociais.
Se, em 2017, era raro encontrar quem defendesse em público figuras como o produtor de cinema Harvey Weinstein, atualmente aguardando veredito em outro tribunal de Manhattan, deixou de ser tabu justificar o injustificável.
Weinstein foi entrevistado na prisão em maio por Candace Owens, uma influenciadora trumpista negra e defensora dos devaneios nazistas de Kanye West, que posou com ele usando camiseta como o slogan “white lives matter” —vidas brancas importam, em tradução. Ela acredita que Weinstein foi condenado injustamente, como parte dos excessos do MeToo
Quando subiu ao palco na última CPAC, a Conferência de Ação Política Conservadora, que atrai figuras do Maga —o movimento Make America Great Again—, como o argentino Javier Milei e a italiana Giorgia Meloni, Megyn Kelly, ex-âncora da rede Fox e hoje musa da ultradireita, passou 20 minutos discursando, não sobre políticas, mas sobre a atriz Blake Lively, que processa o ator Justin Baldoni por assédio sexual.
Sage Steele, demitida da ESPN após criticar a vacina contra a Covid-19 e fazer comentários considerados inadequados, hoje se identifica com pautas do movimento MAGA. Ela se junta ao coro digital que ataca Lively, que vê sua carreira em rota de destruição, tal a artilharia organizada nas redes sociais.
O que essas mulheres têm em comum, além de serem influenciadoras antifeministas, é seu vínculo como aliadas ou ex-clientes de Bryan Freedman, um famoso advogado direitista de Hollywood e cão de ataque da equipe que defende Justin Baldoni.
Freedman é especialista em ativar mídias digitais em agressiva defesa de seus clientes. Um caso precursor dos escândalos atuais foi o julgamento em que a atriz Amber Heard foi condenada por difamar o ex-marido Johnny Depp. Ambos se acusaram de violência, mas uma investigação realizada pela Tortoise Media, depois do julgamento de 2022, apurou que a atriz estava na mira de uma vasta campanha coordenada por bots na Arábia Saudita.
Depp é próximo do príncipe Mohammed bin Salman, o mesmo que deu sinal verde para a execução do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018. O ator recebeu financiamento do governo saudita para projetos como o filme “Jeanne du Barry“. Uma fonte de Hollywood disse à revista People que Heard passou a ser tratada como pária. A atriz então emigrou para a Espanha.
Essa tática de lançar cavalos de Troia digitais, quando ocorrem escândalos sexuais levados à Justiça, poderia marcar um retrocesso real para vítimas de assédio e abuso? A porta-voz do Centro Nacional de Recursos para Violência Sexual diz que pelo menos um avanço não deve ser revertido.
Laura Palumbo lembra que, até a década passada, a definição do assédio ainda era socialmente delegada a especialistas com autoridade para identificar comportamento inaceitável. Hoje, ela afirma, “há uma consciência de que a violência é mais comum e associada a abuso de poder”.
“Mas é importante compreender que campanhas de retaliação podem resultar num menor número de vítimas que tomam coragem para fazer denúncias”, diz ainda.
Em maio, a escritora nova-iorquina Xochitl Gonzalez escreveu um artigo sobre os defensores de Sean “Diddy” Combs, em que dizia que o veredito não estará relacionado a um só indivíduo, mas a todo o movimento e à longevidade do MeToo.
Em seu último romance, Gonzalez reimaginou a vida de Ana Mendieta, a artista plástica cubana casada com o escultor minimalista Carl Andre, acusado de atirá-la da janela do apartamento que dividiam no Greenwich Village, em Manhattan, em 1985.
A escritora revelou que tem revisitado o hip-hop que marcou sua juventude e tenta se reconciliar com sua tolerância para letras que defendem a violência e a misoginia. Ela destaca a faixa “Last Night”, sucesso da cantora de R&B Keyshia Cole, do selo Bad Boy Records, fundado por Combs, que termina com ele simulando um recado na caixa postal em que ameaça matar a tiros quem estivesse com Cole em seu apartamento. “Melhor você não estar lá quando eu chegar,” diz ainda, antes de cair na gargalhada.
Gonzalez questiona se o público acompanhando em detalhes o julgamento de Combs, especialmente o de jovens, consegue sentir simpatia real pelas mulheres que narraram tanta violência no banco das testemunhas.
“Quando você lê o depoimento de Mia [pseudônimo de uma ex-assistente pessoal de Diddy], percebe um grau assustador de síndrome de Estocolmo. É uma indústria operando sob a noção de que quem tem oportunidade só pode sentir gratidão. O que não surpreende, quando a gente lembra que a história da indústria fonográfica americana é indissociável da história da máfia nos Estados Unidos.”
Se a violência sexual nasceu com a indústria do entretenimento, o silêncio que predominou por mais de um século agora é interrompido pelo barulho da militância de direita, como na inserção do caso Blake Lively na conferência sobre política conservadora.
Afinal, a direita não é mais oposição. A Casa Branca e as duas casas do Congresso estão sob controle do trumpismo, que tem como combustível a criação de espantalhos para alimentar guerras culturais. Quem se surpreende pelo fato de Donald Trump já estar admitindo avaliar um indulto para Sean “Diddy” Combs?





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