Ainda que o nome de William Shakespeare seja dito em alto e bom som no filme “Hamnet”, ele não aparece nenhuma vez nas 360 páginas do livro original da irlandesa Maggie O’Farrell.
Em entrevistas, ela costuma lembrar que sua ideia era contar uma história de pai e filho centrada em Shakespeare, mas a figura maiúscula do autor acabava se impondo como uma distração, quando ela queria uma trama de gente comum.
Foi assim que o enredo acabou “sendo sequestrado” pela personagem de Agnes, sua esposa, que aparece na maior parte dos registros históricos como Anne Hathaway —sim, igual à atriz.
Anne e Agnes são corruptelas do mesmo nome, algo comum no Reino Unido do século 16, assim como a confusão entre Hamnet e Hamlet que se tornou a semente desse livro best-seller, publicado no Brasil pela Intrínseca com tradução de Regina Lyra.
A ideia da obra foi disparada por um ensaio do crítico literário Stephen Greenblatt, na revista The New York Review, sobre a relação entre a morte do filho do dramaturgo e a realização de uma de suas obras-primas.
Esses dois fatos indubitavelmente aconteceram, dentro de um espaço de quatro anos. Mas quase tudo no livro, como admite a própria escritora numa nota do romance, é “resultado de [sua] vã especulação”.
Os registros sobre a vida privada de Shakespeare são tão raros que alimentam, até hoje, teorias conspiratórias que dizem que ele nunca existiu. Não é preciso ir tão longe, mas Greenblatt, um dos maiores especialistas vivos no autor, aponta que sua intimidade é “quase totalmente misteriosa”.
Nenhuma de suas cartas, diários ou manuscritos sobreviveram, segundo o crítico americano. “Seus sonetos foram esmiuçados em busca de evidências autobiográficas, mas, mesmo que escritos em primeira pessoa, eles são desorientadores, elusivos e deliberadamente opacos.”
Não há problema algum em criar ficção a partir de acontecimentos reais, buscando construir alguma estrutura de sentido em torno de vidas insondáveis. Nem O’Farrell nem a cineasta Chloé Zhao —que assinam juntas o roteiro do filme “Hamnet”, que estreia nesta quinta (15)— escondem que é isso que estão fazendo.
Essa romantização é, contudo, apenas uma interpretação possível, condensada para direcionar o espectador a uma conclusão emocional específica —o que as criadoras da obra fazem com enorme sucesso.
Não seria conveniente para o filme lembrar, por exemplo, que Shakespeare escreveu duas de suas melhores comédias, “Como Gostais” e “Muito Barulho por Nada”, no período entre a morte de seu filho e a estreia de “Hamlet”. Ainda que o luto tenha seus enigmas, simplesmente não funcionaria na estrutura dramática.
Também não há certeza de que foi a peste bubônica a responsável por ceifar o filho do dramaturgo. É um chute bem informado de O’Farrell, que, em uma das melhores passagens do livro, refaz todo o caminho da doença através da Europa até chegar à fatalidade que assolou a casa de Stratford.
Tampouco convém comentar que “Hamlet” teve inspiração direta em outras montagens apresentadas na época em Londres sobre a tragédia da família real dinamarquesa. O que Greenblatt adiciona é que, em seu texto, Shakespeare sofistica as estruturas internas de suas personagens de maneira inédita, borrando a racionalidade de suas motivações.
E isso teria a ver com a morte do filho. Mais que uma decisão estética, segundo o crítico, expressava sua “percepção mais profunda da existência, sua compreensão do que devia ser dito ou permanecer não dito”, sua preferência por deixar as histórias mais desarrumadas que limpinhas e organizadas.
Tudo a Ler
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias
Quando fez sua resenha elogiosa de “Hamnet”, Greenblatt ressaltou que sua impressão sobre o casamento de William e Agnes era bem diferente da de O’Farrell. Tudo apontava, segundo ele, para uma relação infeliz, marcada pelas longas ausências do dramaturgo, o que piorou com a tragédia doméstica.
A autora irlandesa e a cineasta chinesa pediram licença para discordar. Produziram um desfecho inesquecível em que a montagem inaugural de “Hamlet” serve para sublimar o luto não só de seu autor, mas de sua esposa que se esgueira, anônima, para ver a peça com o nome do filho.
Nada indica que isso tenha acontecido. Mas é por aí que se entende o poder da ficção.


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/horoscopo-do-dia-previsao.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/bikes-eletricas-910x910.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)






/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/horoscopo-do-dia-previsao.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)


