Quando estreou num circuito limitado de salas de cinema dos Estados Unidos há seis anos, “Terrifier” mexeu com os nervos até de plateias relativamente acostumadas a algumas barbaridades ficcionais que o cinema de horror proporcionou nas últimas décadas.
Feito com apenas US$ 35 mil e dirigido por um especialista em maquiagem e efeitos artesanais, a história do filme se passa numa única noite de Halloween e acompanha o palhaço Art, que inferniza uma dupla de garotas.
Com cenas de matança tão cartunescas quanto perturbadoras, pelo nível de criatividade perversa do diretor Damien Leone, o longa provocou interesse suficiente para que, em 2022, ganhasse uma sequência. Mais robusto e financiado com ajuda de fãs, “Terrifier 2” custou US$ 250 mil dólares e arrecadou quase US$ 16 milhões só em bilheteria.
Isso tudo com um personagem original, orçamentos irrisórios aos padrões de Hollywood, nenhum grande estúdio por trás e completo despudor nas cenas de brutalidade e sordidez, de forma que há tempos não se via no gênero com tanta espontaneidade e paixão.
A expectativa pela estreia de “Terrifier 3”, alimentada nas redes sociais numa esperta campanha de marketing, ajudou bastante ao título, que chegou às salas americanas em outubro e ultrapassou a arrecadação de estreia de “Coringa: Delírio a Dois”, grande fracasso da Warner este ano.
Ao custo de apenas US$ 2 milhões, o terceiro capítulo da saga do palhaço Art acumula até agora quase US$ 60 milhões, antes ainda de chegar a diversos outros mercados de forte potencial, como o Brasil.
O êxito se deve, em grande parte, à artesania simples e eficiente de Damien Leone na lida com um material que, anos atrás, seria classificado de “filme de grindhouse”, em referência a títulos ultraviolentos exibidos em salas poeirentas nos anos 1960 e 1970, ou de “video nastie”, como eram conhecidos, na Inglaterra da década de 1980, os longas-metragens censurados pelo teor dito obsceno e exploratório.
Que “Terrifier” vire franquia de sucesso no século 21 e ainda ganhe circulação mundial com repercussão positiva é um milagre, ainda mais numa época em que a cautela tem pautado as escolhas de quais projetos de horror são financiados.
Grosso modo, há dois tipos de filme de horror com mais apelo em anos recentes. De um lado, o horror “social” ou “arthouse”, capitaneado por questões urgentes do debate contemporâneo ou por dramas sobre trauma e luto, casos de títulos como “Hereditário”, “A Bruxa”, “Corra!” e “Fale Comigo”.
Do outro lado, há o “terror de shopping”, cujo propósito é aplicar sustos com mais ou menos elegância e que normalmente rende produções tão inofensivas quanto um passeio de trem-fantasma, sendo a franquia “Invocação do Mal” o maior exemplo, além dos recentes “Sorria 2” e “Imaculada”.
O caso de “Terrifier” passa longe das duas vertentes. Sua fatura é a do choque explícito de imagens violentas, tratadas com a diversão sádica que só um cineasta sem preocupações com relevância pode propiciar.
A brutalidade gratuita, a falta de quaisquer motivações e o desprezo por limites fazem do palhaço Art um protagonista livre de questões além da sede imprevisível por ataques sanguinolentos. Até se poderia pensar em “Jogos Mortais” como um tipo de similar, mas o astuto Jigsaw tinha propósitos, às vezes até nobres, para as torturas que infligia às vítimas.
Art é um vilão unidimensional, disruptivo e meticuloso, além de silencioso. Sem emitir qualquer som, voz ou grito, seus únicos barulhos são de uma buzina de mão e do saco de apetrechos mortais que carrega a todo lado. Ele é pura expressão física, tanto do rosto pintado de branco e preto quanto da movimentação corporal, tão bem incorporada pelo ator David Howard Thornton.
Leone concentra em Art toda a crença no poder lúdico e excessivo da ficção de horror, em diálogo com tipos eternizados no passado, entre eles o cinismo de Freddy Krueger, a austeridade de Jason Voorhees ou a frieza de Michael Myers.
Acrescenta-se a negação do “bom-gostismo” e da legitimação forçada a que algumas realizações atuais do gênero se impõem para serem aceitas em círculos de fora do insólito, e um novo caldo emerge.
Em “Terrifier”, Damien Leone quer mesmo é se integrar à tradição de um horror genuíno e desavergonhado. Ele acredita no discernimento dos espectadores de que tudo em cena se trata, afinal, de látex, tinta vermelha, várias misturebas e muita ideia na cabeça.
O palhaço Art é a extensão de Leone como braço criativo nos “Terrifier”. Ele sabe que seu personagem, fictício, pode fazer absolutamente qualquer coisa, inclusive algumas potencialmente ofensivas ou ditas incorretas. Nem de longe significa que os filmes irão agradar a todo tipo de espectador ou furar o nicho, mas Leone assume o risco.



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