Um dos ditadores mais longevos em tempos recentes, Nicolás Maduro, dado a pitorescos discursos cheios de cantoria mordaz e bravatas sem fim, aparece de moletom, vendado, com abafadores de som nos ouvidos, segurando nas mãos algemadas uma garrafa plástica de água. Está acuado, destituído de poder, a fera rendida. Ao lado, um agente fardado da agência de combate a drogas dos Estados Unidos, o rosto dele não vemos, parece segurar o braço do mandatário venezuelano.
Donald Trump publicou a imagem de Maduro capturado no rastro dos ataques de Washington a Caracas neste fim de semana em sua rede social com a legenda indicando que ele estava a bordo do navio de guerra USS Iwo Jima. O presidente americano, que chegou a escolher até uma trilha sonora para as imagens da investida americana no país latino, é um mestre da imagem, talvez a única certeza sobre ele que todos têm.
O registro banal, fora de foco e sem preocupações com enquadramento, é um poderoso dado visual que traduz, curto e grosso, que quem manda é Trump, por mais que Maduro, em desafio aos avanços da Casa Branca sobre o Caribe, cantasse “Don’t Worry, Be Happy”, no inglês do opositor, e pedisse, na mesma língua, a paz e não a guerra.
Trump, quando indiciado por uma série de crimes três anos atrás, fez do registro da ficha policial um cartaz de campanha. Ele veste terno e gravata e exibe impávido o rosto quadrado, duro como pedra, as sobrancelhas arqueadas, os cabelos penteados para o lado. Está mais próximo de uma imagem de “casting” para um filme ou de cédula de dólar do que obra corriqueira de carcereiros.
Mais tarde, em plena campanha eleitoral, quando foi alvo de um atentado a tiros durante um comício, o americano fez de sua pose de punho em riste, o sangue da orelha pega de raspão pelo projétil manchando o rosto numa tarja vermelha que ecoa as listras da bandeira americana, outro manifesto político que entrou para a história, replicado à exaustão em material de campanha.
Não há nada de involuntário nessas operações, da mesma forma que nada é involuntário na divulgação sumária do retrato desabonador de Maduro, seu mais novo malvado favorito no panteão de líderes mundiais. O venezuelano é humilhado em dobro —teve a casa invadida e agora é exposto como um velho indefeso, presa fácil nas mãos do poderio bélico americano.
É cedo para saber como o look do ditador venezuelano foi escolhido, ou não, para seu retrato a bordo do porta-aviões rumo a um controverso julgamento em Nova York. Mas Trump se importa com aparências, em especial ternos bem alinhados, e gravatas nem tanto, basta lembrar como Volodimir Zelenski, o presidente ucraniano, foi humilhado na Casa Branca por não seguir o estilo dos burocratas do poder.
Trump constrói mais com imagens do que com discursos grandiloquentes a tortuosa narrativa por trás da tentativa de derrubada de regime na Venezuela, da mesma forma que faz noutros teatros, da Faixa de Gaza à Ucrânia. Seu registro de um Nicolás Maduro reduzido a refém derrotado é só mais um fotograma de um filme que o mundo deve acompanhar a partir de agora com espanto e temor.

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