Análise: Flup, em constante movimento, leva debates de alto nível a Madureira

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Análise: Flup, em constante movimento, leva debates de alto nível a Madureira


A Flup mudou bastante de cara neste ano —como costuma fazer todo ano.

Está na espinha dorsal da Festa Literária das Periferias realizar uma mudança constante de endereço, que tem menos a ver com nomadismo do que com vontade de fazer jus ao seu nome. As periferias são muitas, e a Flup não pode ficar parada em uma só. É uma festa de movimento.

Se no ano passado aconteceu no Circo Voador, um dos ativos culturais com mais holofotes no Rio de Janeiro, em 2023 foi no morro da Providência, perto da rua do Livramento onde nasceu Machado de Assis.

Dessa vez, ocorre num dos pontos mais queridos da cultura popular da zona norte —o Viaduto de Madureira, que costuma ser tomado por um Baile Charme lotado de gente ávida para dançar black music aos sábados. É uma festa tão tradicional que foi tombada pelo município em 2013.

A ousadia de fazer um festival literário debaixo de um viaduto —pelo qual continuaram passando normalmente carros, ônibus e mototáxis ao longo do evento— não deveria surpreender quem acompanha a trajetória da Flup, um evento que não tem arrojo apenas nas decisões de curadoria, mas nas escolhas de sede.

Claro que, para os leitores do centro e da zona sul do Rio, seria mais difícil chegar aos debates do festival no bairro de Madureira do que, por exemplo, no Circo Voador, margeado pelo cartão postal dos Arcos da Lapa. Os organizadores evidentemente sabiam disso.

A ideia era, antes de tudo, ativar a festa com o público da zona norte, estimulando a curiosidade e mobilizando gente dos arredores para o viaduto que já têm o costume de ocupar —só que, agora, para frequentar debates sobre literatura com referências intelectuais do mundo todo.

Nos primeiros cinco dias de festival, passaram por lá os franceses Malcom Ferdinand e Mireille Fanon —filha de Frantz Fanon, autor de “Os Condenados da Terra”—, o martinicano Patrick Chamoiseau, a americana Michelle Alexander, o maliano Manthia Diawara e o camaronês Bonaventure Ndikung, curador radicado em Berlim que é responsável pela atual Bienal de Arte de São Paulo.

É um elenco e tanto. E houve grandes sacadas nas escolhas curatoriais, tocadas pelo fundador Julio Ludemir com a pesquisadora franco-senegalesa Mame-Fatou Niang, como trazer a imortal Ana Maria Gonçalves para conversar com o documentarista italiano Fred Kuwornu sobre a arte realizada a partir dos vestígios da memória negra.

Foram vários os debates de alto nível na primeira semana —e eles continuam na programação que segue desta quinta-feira (27) até o domingo (30) com outros convidados chamativos como o cineasta britânico Steve McQueen e as escritoras norte-americanas Dionne Brand e Christina Sharpe.

É pena que parte das mesas tenha contado com uma plateia mais esvaziada que a edição de 2024. Afinal, os desafios de transporte precisam de boa vontade para serem contornados por frequentadores que não moram na região, e processos de formação de novos públicos não são imediatos.

O potencial certamente é pulsante. Basta ver a empolgação com que adolescentes e jovens se engajaram nos campeonatos de slam que aconteciam no espaço contíguo oferecido pela Flup, um investimento que o festival literário faz com mão firme na poesia falada das novas gerações.

Não é surpresa também que o viaduto tenha ficado apinhado nas apresentações do rapper Mano Brown —que acaba de lançar um livro de seu podcast “Mano a Mano”— e no som dançante do Baile Charme que, sim, seguiu sendo hospedado ali normalmente.

É a Flup, afinal, que pede licença para transformar um asfalto que já transborda de cultura em algo de caráter um tanto diferente. E assim, entre acertos e erros, vai fazendo sua estrada.

O jornalista viajou a convite do festival



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