Análise: Décio Otero criou dança militante e buscou o diálogo com o público

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Análise: Décio Otero criou dança militante e buscou o diálogo com o público


É possível identificar duas vertentes muito claras na dança cênica brasileira na segunda metade do século 20. Enquanto o Rio de Janeiro apostava no balé clássico, com o peso simbólico do corpo de baile do seu Theatro Municipal, São Paulo rompeu com a tradição e se fez moderna. Sem Décio Otero, no entanto, talvez essa história tivesse um caminho diferente.

Ao se unir a Marika Gidali e fundar o Ballet Stagium, em 1971, ele inaugurou um jeito de fazer dança duplamente militante, com obras que aliavam engajamento social à luta pelo reconhecimento profissional de sua classe artística.

Como a estética clássica não era suficiente para dar conta dessa abordagem, Otero misturou referências de uma bagagem múltipla. Do início de sua formação, ainda no Brasil, incorporou toques de balé, neoclássico e jazz. Da carreira como bailarino em grandes companhias na Suíça e na Alemanha, trouxe um aprofundamento nas bases modernas.

Em seu retorno ao país, em plena ditadura militar, já era muito claro para ele que fazer arte implicava, necessariamente, posicionamento. Tomou então para si a missão de mergulhar na cultura brasileira, traduzindo-a no palco por meio de uma linguagem cuja principal premissa era estabelecer diálogo com um público amplo.

Dadas as dimensões continentais do país e a dificuldade de circulação de informação nos anos 1970, parte desse trabalho significava levar a dança até onde o povo estava. Dentro de um ônibus, o Stagium viajou de Norte a Sul com interpretações muito particulares para obras de nomes como Guimarães Rosa e Plínio Marcos, e trilhas sonoras embaladas por compositores icônicos da MPB, uma novidade em uma época na qual a música de concerto ainda reinava entre as criações coreográficas.

Na maioria das vezes, as apresentações pelo Brasil profundo aconteciam diante de condições precárias, em espaços como ginásios escolares, praças e penitenciárias. A motivação para seguir vinha da riqueza proporcionada pelos encontros com a diversidade do país, alimentando a criatividade e a produção artística de Otero e Gidali.

Durante uma de suas andanças, o casal conheceu comunidades indígenas do Xingu, no Mato Grosso. O episódio deu origem a “Kuarup” (1977), um marco incontornável da dança brasileira.

Sem as amarras do financiamento estatal, com os bailarinos vestidos por Clodovil Hernandes em macacões verde e amarelo, o Stagium denunciou ali a omissão do governo militar com os povos originários. Por meio de gestos e movimentos, driblou a censura que pairava sobre o teatro, o cinema e a televisão para fazer sua mensagem ecoar em um momento no qual as vozes indígenas eram sistematicamente negligenciadas.

Todas essas inovações de linguagem e de abordagem mostraram ser possível fazer um outro tipo de dança no Brasil, abrindo espaço para o Corpo de Baile Municipal de São Paulo abandonar as sapatilhas de ponta, em 1974, e adotar um viés moderno, rebatizado como Balé da Cidade de São Paulo. Deve-se muito ao Stagium, também, o surgimento de companhias como o Grupo Corpo, em 1975, e a Cisne Negro Cia de Dança, em 1977.

Otero foi uma máquina criativa. As sucessivas dificuldades financeiras, que fizeram o conjunto perder sua tradicional sede na rua Augusta, em 2021, para se abrigar na Funarte, nunca o impediram de renovar o repertório. Ano sim, ano não, novas criações eram incorporadas —ao todo foram mais de cem.

Elas se alternam entre posicionamentos mais politizados sobre as múltiplas realidades brasileiras, como em “Missa dos Quilombos” (1984) ou “Fon Fon” (2017), e homenagens à MPB que servem de cartão de visita desses artistas às novas gerações. É o caso, entre outros, de “Stagium Dança Chico Buarque” (2005), “Adoniran” (2010) e “Maré Cheia” (2024), sua última criação, inspirada no cancioneiro imortalizado pela voz de Clara Nunes.

Para além de sua atuação nos bastidores, como coreógrafo —ainda na última quinta-feira, repassava correções ao elenco—, Otero também se manteve em cena até o fim. Em 2023, provocado pelo colega Luis Arrieta, voltou aos palcos no espetáculo “Corpos Velhos”, com o qual viajou ao Nordeste, foi ovacionado no Theatro Municipal de São Paulo e fez sua última apresentação no dia 12 de julho, no Sesc Franca.

Sentado ao lado de Gidali, dividindo a cena com outros bailarinos icônicos acima dos 60 anos, ele questionava a ideia de prazo de validade para sua arte e o porquê de ainda insistir nela mesmo quando o físico parece não responder mais. Na cena final, todos se levantam e caminham lentamente para a frente, encarando o público. Eles evocam um dos momentos mais emblemáticos de “Kuarup”, como se dissessem “ainda estamos aqui”. E a verdade é que, mesmo diante do adeus, Otero ainda estará.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *