Geoff Emerick, engenheiro de som dos Beatles, diz em sua autobiografia que Paul McCartney pediu a ele que fizesse seu baixo soar como os de “Pet Sounds”. O disco dos Beach Boys saiu em 1966, mesmo ano que os Beatles lançaram “Revolver”, com os graves exigidos pelo baixista britânico.
Mesmo a maior banda do mundo naquela época, com o maior orçamento, invejava a qualidade sonora que os americanos haviam alcançado. Em outras palavras, nem os melhores equipamentos existentes conseguiam reproduzir a potência sonora de “Pet Sounds”.
Brian Wilson, morto nesta quarta-feira (11) aos 82 anos, concebeu e compôs “Pet Sounds” sozinho. Não tocou os instrumentos, mas ditou como tudo tinha que soar, partindo de esboços de partituras mal-escritas e incompletas que distribuía aos músicos.
Àquela altura, a banda que era o contraponto americano aos Beatles vivia o auge com uma música jovem sobre sol e surf. Os integrantes —incluindo irmãos e um primo de Wilson— rodavam o mundo em turnês enquanto ele ficava em casa compondo novas músicas, por ter se afastado dos shows para lidar com distúrbios psicológicos.
Trabalhando exaustivamente no estúdio em Los Angeles, Wilson criou texturas sonoras irreproduzíveis —tanto antes ou quanto depois de “Pet Sounds”. Não é algo que se resume à tecnologia, ainda que ela tenha sido indispensável na confecção do álbum, mas tem a ver com a capacidade criativa da mente perturbada de um gênio antissocial.
Há dezenas de sons em cada uma das faixas de “Pet Sounds”, alguns vieram de objetos como latas de refrigerante e buzinas de bicicleta. Isso sem contar os instrumentos praticamente inutilizados na música pop, como theremin, cravo, tímpano e diferentes tipos de piano e de sopros, entre outros.
Mas a força do disco vai além das excentricidades. Wilson se inspirou no estilo de gravação do tipo “wall of sound”, ou parede de som, criado pelo produtor Phil Spector, que consistia em produzir massas sonoras densas e robustas, com muitos instrumentos tocando uma mesma nota em uníssono.
Wilson partiu da parede de Spector para construir um edifício inteiro, já que aplicou os princípios não a canções pop básicas, mas a melodias intrincadas e complexas. Os baixos, por exemplo, eram gravados com músicos tocando as versões elétrica e acústica do instrumento ao mesmo tempo, gerando graves encorpados.
Ele fez o mesmo com outros instrumentos, como diferentes tipos de piano e teclados tocados juntos ao mesmo tempo. Como notou o pesquisador e produtor musical Charles L. Granata no livro “Wouldn’t It Be Nice: Brian Wilson and the Making of the Beach Boys’ Pet Sounds”, de 2003, as pequenas diferenças de afinação entre os instrumentos tocados de maneira simultânea criaram texturas inatingíveis por meios eletrônicos.
Dá para comparar ao funcionamento de um coral, que gera uma massa sonora única ao combinar vozes particulares cantando uma mesma melodia. Nem todo mundo soa perfeitamente afinado, e a particularidade dessas imperfeições contribui para a personalidade da sonoridade resultante, sem que seja possível notar que algo está ligeiramente fora do tom. Wilson fez isso com instrumentos, e não com vozes.
A inventividade também permeia a orquestração do disco. Em vez de aplicar arranjos da música clássica na música pop, Wilson deu uma abordagem do pop à música clássica. É outro caso de influência em Paul McCartney, que à sua maneira tentou inovar na orquestração dentro dos Beatles.
“Eleanor Rigby”, canção feita sob o calor do impacto de “Pet Sounds”, e lançada em “Revolver”, tem um quarteto de cordas gravado com microfones perto demais dos instrumentistas, ao ponto de captar pequenas imperfeições e até o roçar do arco nas cordas. Os músicos se sentiram desrespeitados, como se tivessem sua privacidade invadida.
Um ano depois, para gravar a orquestração caótica de “A Day in the Life” —lançada em “Sgt. Peppers”, de 1967, outro disco influenciado pelos Beach Boys— os Beatles se fantasiaram e fizeram uma festa no estilo Carnaval no estúdio, com direito a bebida e presença de Mick Jagger e Keith Richards. O intuito era deixar os músicos clássicos mais descontraídos.
Fugir da orquestração convencional se tornou um desejo tão grande dos Beatles que McCartney se tornou um famoso crítico de Phil Spector justamente pelos arranjos de cordas que adicionou às faixas do disco “Let it Be”, de 1970. Entre Spector e McCartney, havia Wilson. O beatle não gostava do produtor, mas idolatrava o beach boy, que por sua vez havia sido inspirado pelo criador da parede de som.
Isso só dá ainda mais mérito à capacidade criativa de Wilson. Pelos ouvidos de McCartney, dá para notar como ele não estava simplesmente reproduzindo a parede de som ou a orquestração pop de Spector, mas criando toda uma nova arquitetura pop a partir daquela ideia.
Por baixo disso tudo, estão as composições. Saía de cena o surfista descolado, entrava o jovem inseguro que adentrava a vida adulta.
Ainda que depois tenham negado, os integrantes do Beach Boy desaprovaram as letras de “Pet Sounds” antes de concordarem em lançar o disco. Eles teriam alegado que o álbum era artístico demais, que não entendiam a poesia, que a temática não combinava com o estilo da banda e não conseguiriam reproduzir aquilo nos shows.
Wilson começava a manifestar uma condição que o acompanharia pelas décadas seguintes, o transtorno esquizoafetivo. Numa entrevista de 2006 à revista americana Ability, ele afirmou que uma semana depois de tomar LSD, na época em que fez “Pet Sounds”, começou a ter alucinações em que ouvia vozes.
Também já afirmou que a maconha teve um papel fundamental na criação da obra. “O uso de drogas começou a crescer, porque pensei, ‘se posso criar ‘Pet Sounds’ usando drogas, então posso fazer algo melhor ainda usando drogas.’ Então, fiz ‘Good Vibrations’ sob drogas. Aprendi a funcionar com as drogas, e isso melhorou meu cérebro, o jeito que eu era, me deixava mais conectado com minha sanidade”, ele disse em 2016 ao jornal San Diego Union-Tribune, da Califórnia.
A beleza de “Pet Sounds” é resultado dessa confusão —a inspiração convivendo lado a lado com as inseguranças abastecidas pelas alucinações. Tudo isso num momento da vida em que Wilson vivia problemas no casamento e adentrava a vida adulta.
“Pet Sounds” é uma das grandes obras do tipo “coming of age”, ou chegada à maturidade, mas é sobretudo um disco sobre inadequação. Trata diretamente da ansiedade de não se sentir pertencente a uma determinada época, a uma determinada sociedade, a determinados relacionamentos e, em última análise, a uma determinada existência.
Apesar de cultuado depois de tantas décadas, particularmente entre nerds de música, “Pet Sounds” não precisou do teste do tempo, já que seu impacto foi imediato —direta ou indiretamente. A começar pelos baixos de “Revolver”, dos Beatles.
Depois de dias penando para atender ao pedido de McCartney, Geoff Emerick teve uma ideia mirabolante. Mexeu nas fiações de um amplificador para que ele fizesse o caminho inverso —em vez de emitir sons através de estímulos elétricos, passaria a absorver os sons e transformá-los em eletricidade, virando assim um grande microfone.
O amplificador-microfone foi posicionado em frente a outro —este, convencional—, onde o baixo de McCartney estava plugado, para atingir os graves deslumbrantes de “Revolver”. Como grande parte da música pop feita depois de “Pet Sounds”, não reproduzia a técnica de Brian Wilson, mas só existiu por causa dele.

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