Análise: Arlindo Cruz, humano demais para não ter defeitos, fez sambas perfeitos

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Análise: Arlindo Cruz, humano demais para não ter defeitos, fez sambas perfeitos


Antes de Arlindo Cruz lançar o disco “Sambista Perfeito”, sua vida estava cheia de imperfeições. Ele vivia idas e vindas no casamento com Babi Cruz, passava por dificuldades com o vício em cocaína e não tinha o reconhecimento que sua carreira pregressa sugeria.

“Acho que tem uma lacuna no samba a ser preenchida por mim como um artista completo”, ele disse ao jornal O Samba no fim de 2007, no show de lançamento daquele álbum. “Sou muito respeitado como autor, músico, partideiro e com esse disco acho que vou alcançar o lugar que eu mereço.”

Morto nesta sexta-feira (8), aos 66 anos, Arlindo naquela época era mais louvado dentro do que fora do samba. Além de mais de dez anos de destaque no Fundo de Quintal, o maior grupo do gênero de todos os tempos, ele colecionava dezenas de sucessos cantados por ele ou por outros artistas e era uma referência no banjo. Mas não tinha uma obra solo à altura.

Isso mudou com “Sambista Perfeito”, pontapé do auge de sua carreira, que inclui também os dois volumes de “MTV Ao Vivo”, de 2009, e o álbum “Batuques e Romances”, de 2011. Arlindo, que já era voz, banjo e caneta, se consagrou também como uma entidade do samba no imaginário popular.

Foi o ápice de uma trajetória que começou quando ele era o jovem sorridente empunhando um cavaquinho na capa de seu primeiro disco com o Fundo de Quintal, o segundo volume de “Samba É no Fundo de Quintal”, de 1981. Pedia à chuva e ao vento que acabassem com a dor em “Amarguras”, uma das três músicas que assinou no álbum.

Discípulo de Candeia, Arlindo cantou Dona Ivone Lara em “Canto de Rainha”, uma das mais celebradas do disco “Nos Pagodes da Vida”, de 1983. No terceiro trabalho com o Fundo de Quintal, “Seja Sambista Também”, do ano seguinte, ele já despontava entre os protagonistas do grupo.

Assinou quatro músicas no álbum, incluindo a faixa-título, reflexão magistral sobre o ofício do sambista —”ver com os olhos do coração”, “crer que existe uma solução”. O banjo, que ele aparece tocando na capa do disco, brilha em “Castelo de Cera”, música até hoje presente nas rodas de samba pelo Brasil afora.

Àquela altura, a sonoridade do banjo estava apenas se consolidando no samba. Célebre no country americano em sua versão com cinco cordas e braço longo, ele foi recriado por Almir Guineto e inserido no gênero pelo Fundo de Quintal —com braço de cavaquinho, mais curto, e apenas quatro cordas.

Arlindo assumiu o banjo no grupo após a saída de Guineto e nunca mais o deixou. Ele se apossou do instrumento ao ponto de se confundir com ele, seu companheiro nos shows e pagodes, quase onipresente nas capas de seus discos.

Até 1993, Arlindo foi coautor de diversos sucessos do Fundo de Quintal —entre eles “Se Chama Mulher”, “Não Valeu” e clássicos como “Só pra Contrariar” e “O Show Tem que Continuar”. Em paralelo, empilhou hits conhecidos na voz de outros cantores, incluindo “Pra Ser Minha Musa”, com Reinaldo, e “Fogueira de Uma Paixão”, com Leci Brandão —esta, numa gravação em que faz a voz de contraponto e brilha com um banjo sincopado no disco “Dignidade”, de 1987.

“Camarão que Dorme a Onda Leva”, que inaugurou a carreira de Zeca Pagodinho, ao lado de Beth Carvalho, também tem assinatura de Arlindo. Assim como “SPC”, “Bagaço de Laranja”, “Saudade Louca” e “Casal sem Vergonha”, sucessos na voz dele, e “Malandro Sou Eu”, na voz dela.

Beth e Zeca, aliás, foram mais que amigos —os dois expandiram as possibilidades de algumas das maiores composições de Arlindo. A mais emocionante delas é “Ainda é Tempo pra Ser Feliz”, eternizada como um dueto entre os dois.

Segundo as contas do jornalista Marcos Salles na biografia “O Sambista Perfeito”, Arlindo teve mais de 700 composições gravadas, quase todas feitas com outros músicos. Zeca foi um deles, atrás de Franco e Acyr Moreira, os mais frequentes, e Sombrinha, o mais emblemático, com quem Arlindo fez dupla nos palcos e discos dos anos 1990.

Se o samba fosse um time de futebol, Arlindo seria o meio-campista que marca e ataca, organiza e distribui a bola, mas também aparece para finalizar as jogadas. Foi craque no banjo e no partido alto, cantou sobre a sociedade ou refletindo sobre a tristeza e felicidade, mas virou artilheiro mesmo com suas composições românticas.

Confusões semânticas à parte, Arlindo nunca coube em um subgênero do samba. Era samba de raiz tanto quanto pagode romântico, às vezes numa mesma música, e foi uma ponte estética entre os anos 1970 de Candeia e a década 1990 de Belo —que fez sucesso com “Fim da Tristeza”, pérola com coautoria de Arlindo, em seu segundo disco de estúdio, lançado em 2002.

Sua produção até “Sambista Perfeito” já era grande o suficiente para colocar Arlindo entre os maiores do samba, mas a partir dali ele atingiu outro patamar. Hit instantâneo, “Meu Lugar” não só eternizou o bairro de Madureira, do Rio de Janeiro, em poesia, como virou uma das mais belas canções já escritas sobre um lugar.

De 2007 a 2011, Arlindo lançou mais uma leva de clássicos, que inclui também “O que É o Amor”, “O Bem” e sua interpretação, que se tornou a definitiva, de “Meu Nome É Favela“, uma composição de Rafael Delgado. Incluindo o período no Fundo de Quintal, Arlindo nunca cantou tão bem quanto nessa fase.

Os discos da MTV talvez sejam os registros que melhor captam Arlindo em sua complexidade. Gravados ao vivo, esses álbuns carregam a energia dos shows, que o cantor só abandonou depois de sofrer um AVC, contam com seus grandes parceiros Zeca, Beth e Marcelo D2, além de colocar lado a lado suas composições mais antigas com as (então) mais novas.

O Arlindo romântico se sobressai, seja em números menos famosos —caso de “Fora de Ocasião”, gravada por Alcione nos anos 1990—, seja nos já consagrados —como “Ainda É Tempo pra Ser Feliz”, em performance instrumental com os versos cantados aos berros pelo público. “O que É o Amor”, música cheia de questionamentos que deságua num refrão épico, é o exemplo mais bem acabado.

Os romances na caneta de Arlindo eram intensos e conturbados, cheios de desencontros, términos e retornos. Mas ele verbalizou com ainda mais exuberância a dimensão redentora do amor, que em suas letras são avalanches de sentimentos capazes de solapar o aspecto real e ordinário dos relacionamentos humanos. O amor na voz de Arlindo é excessivo, uma explosão de prazeres e perigos —um espelho de sua própria vida.

Arlindo era o samba por completo. Encarnou no palco e fora dele todos os dilemas e encantos desse estilo de música e de vida. Foi feito à imagem dos bambas —humano demais para não ter defeitos. Por isso mesmo, fez sambas perfeitos.



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