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Vem COP, vai COP, e o mundo continua à beira do caos — quem diz isso é o premiado autor Daniel Munduruku. Para o escritor indígena, a COP30 é um evento de protocolos e rituais para o qual ele diz não ter expectativa nenhuma.
Vencedor de três Jabutis por livros infantojuvenis, Munduruku afirma que escreve para crianças brancas querendo oferecer a elas uma ferramenta para se tornarem “humanas melhores”, em contato com a diversidade. Essa é uma das formas que o autor encontra para lutar contra o que chama de “abismo do desaparecimento” para o qual diz que os indígenas estão caminhando.
“A gente serve muito mais enquanto formação de identidade ao Brasil que para a manutenção das nossas culturas”, afirma o escritor. Sua visão é carregada do pior tipo de pessimismo, como aponta o editor Walter Porto, aquele que é sustentado por fatos concretos.
Munduruku afirma que, sem a demarcação de terras, os indígenas continuarão no povo brasileiro, mas sua cultura vai desaparecer. No novo romance “Fantasmas” (Record, R$ 59,90, 144 págs.), sua guinada em direção à literatura adulta, o autor descreve os indígenas como donos de uma “dupla nacionalidade”, tanto originária quanto brasileira. Sem o direito à diferença, indígenas perdem parte de sua identidade.
Apesar do desânimo do escritor com a COP, outras personalidades participam do evento. Nesta quarta (12), a líder indígena Alessandra Korap Munduruku, o jornalista Fernando Gabeira e a coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima Suely Araújo se reúnem em Belém para um evento de lançamento de “A Palavra e o Poder: Uma Travessia Crítica por 40 Anos de Democracia Brasileira”. O debate acontece às 10h, no Espaço Folha, com mediação do repórter João Gabriel.
Acabou de Chegar
“Histórias Reais” (trad. Marília Garcia, Relicário, R$ 89,90, 152 págs.) é um livro de microcontos “sempre surpreendentes”, segundo o repórter André Fontenelle. O livro, que ganha uma nova edição, é um dos maiores sucessos da escritora francesa Sophie Calle. São 66 histórias “verdadeiramente reais”, como ela diz em entrevista. “Não inventei nada. Mas, ao mesmo tempo, nada é verdade.”
“Repatriação” (trad. Diogo Cardoso, Companhia das Letras, R$ 79,90, 184 págs.) venceu o prêmio Goncourt de romance de estreia no ano passado. A autora é a congolesa Ève Guerra, que, assim como a protagonista de sua obra, viveu migrações constantes. “Mais do que pelo conteúdo, o livro impressiona pela forma”, aponta o jornalista Diogo Bercito, destacando as construções poéticas e imagéticas de Guerra.
“Ferida” (trad. Diego Moschkovich, Fósforo, R$ 89,90, 248 páginas), da russa Oksana Vassiákina, aborda a relação da autora com sua mãe a fim de curar e também emoldurar suas dores. Publicada em 2021, a obra foi recolhida de livrarias russas, tachada de instigadora do movimento LGBTQIA+ em um país que persegue ativistas. O objetivo, porém, era “criar um livro que mostrasse que as lésbicas também são pessoas, também amam, também sentem dor”, como conta ela ao repórter Gabriel Barnabé.
E mais
William F. Buckley Jr. vira tema de biografia publicada nos Estados Unidos no mês em que completaria cem anos. O intelectual americano foi um dos nomes mais influentes da política de seu país após a Segunda Guerra. Considerado criador do movimento conservador moderno, ele abriu caminho para outras figuras como Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro. Segundo o jornalista Gabriel Trigueiro, Buckley fez da cultura uma arena de batalha.
Depois de “Projeto Querino”, de Tiago Rogero, e “Vinte Mil Léguas”, de Leda Cartum e Sofia Nestrovski, a editora Fósforo prepara o lançamento de mais um livro baseado em uma série de áudio. O sucesso da vez é o podcast da Folha “Caso das 10 Mil”, das jornalistas Angela Boldrini e Carolina Moraes, que será expandido em uma obra a ser lançada no ano que vem, como conta o Painel das Letras.
A pouco menos de um ano do centenário do francês Michel Foucault, que acontece em outubro de 2026, editoras preparam publicações inéditas para a celebração. Segundo o Painel das Letras, já neste mês a Ubu lança um volume com duas conferências inéditas proferidas pelo filósofo e guarda para o próximo ano volumes descobertos há pouco tempo. Já o grupo Record traz um livro recém-publicado na França, que foi deixado de lado pelo autor em vida e resgatado na Biblioteca Nacional francesa.
Além dos Livros
Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras, tomou posse na cadeira 33 na última sexta-feira (7). Em seu discurso, a autora de “Um Defeito de Cor” fez uso de expressões cunhadas pelas autoras negras Lélia Gonzalez, Leda Maria Martins e Conceição Evaristo e afirmou: “Venho falando pretuguês, escrevendo a partir de noções de oralitura e escrevivência”.
Gonçalves também inovou nos trajes. Ela escolheu usar um vestido verde ao invés do tradicional fardão usado pelos imortais. A roupa foi confeccionada pela escola de samba carioca Portela, que homenageou sua obra “Um Defeito de Cor” com um enredo em 2024. Rachel de Queiroz, a primeira mulher eleita para a ABL, também usou um vestido em sua posse em 1977.
O escritor húngaro-britânico David Szalay levou o prêmio Booker deste ano, o mais relevante reconhecimento para obras de ficção em inglês. Szalay venceu por “Flesh” (traduzível como “Carne”), seu sexto romance. É um livro existencial que narra a vida de um homem desde sua empolgada juventude até a morosidade da meia-idade.
Mais de 20 anos depois da morte de Cássia Eller, o jornalista Tom Cardoso reconstrói a trajetória da cantora a partir de novos relatos de pessoas próximas e da própria por meio de entrevistas antigas. A nova biografia vai além do mito do palco para revelar uma mulher tímida e contraída, como aponta a reportagem de Ana Clara Cottecco.

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