O respeito à integralidade do território ucraniano em qualquer acordo de paz que venha a ser estabelecido após três anos de invasão russa, foi objeto de votação na Assembleia Geral das Nações Unidas. E para o espanto da comunidade internacional, os Estados Unidos de Donald Trump votaram contra a resolução, em alinhamento à Rússia, que também teve o apoio de vários países comandados por ditadores. O alinhamento dos norte-americanos causa estranheza até em seu próprio país, mas não se descola da guinada autoritária que Trump vem proporcionando, para dentro e para fora, desde que assumiu a Casa Branca. O mundo democrático observa com cautela, sobretudo a Europa, mais próxima do conflito e do ímpeto expansionista de Vladimir Putin, agora com respaldo formal da potência que financiou, em grande parte, os armamentos ucranianos que dificultaram o avanço russo.
A resolução foi aprovada por substancial maioria, mesmo difícil, na prática, que seja levada em conta pela Rússia. O Brasil, a exemplo de outros países latino-americanos, preferiu não escolher, se absteve, numa postura que remete à neutralidade diplomática temerária, num caso que poderia abrir o precedente para outras invasões em qualquer parte do mundo – com aval explícito do Kremlin e de Washington. Como as resoluções da ONU têm valido pouco para a real politik global, o mais assustador foi ver as duas potências de mãos dadas. Sob outros pretextos, com motivações humanistas e democráticas, essa convergência é ansiada há muito tempo. Mas não é o que se vê no momento, bem pelo contrário.
Ao chamar Zelensky de ditador e se abraçar com Putin para legitimar a invasão prolongada, Donald Trump inicia seu segundo mandato como presidente lançando os Estados Unidos numa zona limítrofe entre a democracia que ainda é e a tirania que o magnata inspira – literalmente – ao redor do mundo. Num cenário projetado para o futuro próximo, resultante de apertos de mãos entre Putin e Trump por seus próprios interesses, propagando a alegação de recuperar a “grandeza” de seus países, a perspectiva de aprofundamento da crise da democracia ocidental é inquietante, mas cada vez mais realista.
Estima-se que cerca de 15 mil cidadãos ucranianos – não militares – tenham morrido em três anos de conflito. Quase 15 milhões deixaram suas casas, fugindo da guerra, e muitos cruzaram as fronteiras em direção à Europa. A migração forçada pela violência autoritária tende a se tornar crescente, quando duas superpotências bélicas concordam em afrontar princípios de soberania nacional e direitos humanos, em favor de expansionismos impulsionados pelo poder que se acha acima de tudo. O que pode vir a ser o mundo regido por uma eventual aliança obscurantista entre a Rússia de Putin e os EUA de Trump? Antes disso, o que os norte-americanos que se gabam de sua valorosa tradição democrática pretendem fazer para barrar o ímpeto totalitário de seu novo presidente?

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2607269536.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)







/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/cavalgada-no-sitio-recanto.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2607269536.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)



