[RESUMO] Nana Caymmi, uma das principais cantoras do Brasil, morreu nesta quinta-feira (1º), aos 84 anos. Em fins de abril do ano passado, ela conversou com o repórter Claudio Leal, entrevista publicada agora pela primeira vez. Três meses antes de sua última internação, Nana falou do início de sua carreira, de ser filha de um mestre como Dorival Caymmi, da relação com os tropicalistas, da fama de mulher difícil e desbocada e do encantamento que lhe provocou gravar sua última música, “A Lua e Eu”.
Meses antes da última internação hospitalar, Nana Caymmi leu o capítulo “Narciso em Férias”, de “Verdade Tropical” (1997), o livro de memórias do compositor Caetano Veloso. Em 2024, a cantora refletiu sobre sua breve adesão à tropicália, que durou o tempo do namoro-casamento com Gilberto Gil, e a escolha por não acompanhar os baianos no exílio político em Londres.
“Estou lendo o livro de Caetano, que fala da prisão na época do tropicalismo. Eu ainda quero dizer pra ele e Gil que eu não podia ficar naquela loucura deles. Cheguei a prestar depoimento. Tinha filhos para criar e fiquei com medo de ter que voltar para a Venezuela. Tinha pavor de voltar para a Venezuela, onde vivia o pai dos meus filhos [o médico Gilberto Aponte]. Tive que me separar de Gil e sair daquela maluquice. Não dava pra mim”, me disse Nana, por telefone.
Em 1967, no Hotel Danúbio, em São Paulo, Nana se uniu a Caetano e Guilherme Araújo para convencer Gil a apresentar “Domingo no Parque” no 3º Festival da Record. O músico baiano estava na cama, em pânico, com receio da ruptura iminente ao lado das guitarras dos Mutantes.
No começo do namoro com Gil, Nana lutava para vencer resistências por ser filha de Dorival Caymmi, um dos mestres soberanos da música popular brasileira. No Rio, ela ouvia com frequência que só virara cantora pelo parentesco nobre. Em mesas de bares, Caetano discutia com críticos de sua voz e afirmava que ela era uma das maiores cantoras do país. Maria Bethânia, sua irmã, iria além: Nana era uma das maiores vozes do mundo.
“A mamãe [Stella] tinha pânico porque vinha de uma família burguesa, que tinha certo aquele dinheiro mensal. E com músico ela sabia que não era por aí”, contou Nana, numa entrevista inédita. “Você ficava olhando o telefone pra saber que horas vai cantar, onde, como, por quê. Estava sujeito a ficar sem trabalho, um mês, dois meses. Havia um controle econômico grande. Era basicamente o emprego da rádio. Então, quando mamãe via um filho com tendência musical…”.
“Eu sofri muito mais do que Dori [seu irmão]. Enquanto ela não me casou, não sossegou, porque achava que quem fosse cantora era vagabunda. Não era uma coisa segura ser músico. Músico era malandragem. O bonito era ser escriturário, trabalhar em banco, na Caixa Econômica, no Banco do Brasil. Este era o sonho de minha mãe”, acrescentou.
No fim dos anos 1960, seu flerte com o movimento de vanguarda divergia da visão estética de Dori Caymmi, crítico muito franco do tropicalismo. A ligação de Nana com os tropicalistas ficou documentada em gravações obscuras de um compacto duplo de 1967.
Os Mutantes a acompanham em “Bom Dia”, sua parceria com Gil defendida no Festival da Record, e “Alegria, Alegria”, de Caetano. Além dessas canções, gravou “O Cantador”, de Dori e Nelson Motta, mais próxima de seu trabalho futuro, e “O Penúltimo Cordão”, de Caetano com música de Danilo Caymmi, seu outro irmão, e Sérgio Fayne.
“Os Mutantes participavam dos programas da TV. Eu os vi tocando. Eu tive a ideia. Rogério Duprat trabalhou em cima disso. Duprat não indicou nada. Fui a primeira [a ter os Mutantes] com ‘Bom Dia’ e ‘Alegria, Alegria’. Foi quando começou os Beatles. Se alguém prestar atenção, aqueles acordes grandes de guitarra lembravam os Beatles. Gil botou depois os Mutantes no teatro, queria aparecer com aquelas roupas. Eu botei primeiro em disco”, afirmou.
A voz de Nana tem frescor e entusiasmo na canção abre-alas do movimento, em 1967: “O sol nas bancas de revista/ Me enche de alegria e preguiça/ Quem lê tanta notícia?/ Eu vou”. Em junho de 1968, na passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, Nana caminhou contra o vento com a sua turma: Caetano, Gil e José Celso Martinez Corrêa, em plena fase de danação. Ela se orgulhava da foto de Evandro Teixeira em que aparecia com a mão erguida.
Ainda em 1968, Gil começou a namorar Sandra Gadelha. Muito tempo depois da separação, ele chamaria Nana para um duo em “Buda Nagô”, sua homenagem a Dorival Caymmi no álbum “Parabolicamará” (1991). Antes disso, em 1986, Caetano a incluiu cantando “Bancarrota Blues”, de Chico Buarque e Edu Lobo, no longa “O Cinema Falado”. Os tropicalistas nunca deixaram de amá-la.
Desde sua primeira gravação —”Acalanto”, em 1960, com o pai—, Nana manteve a temperatura acolhedora de sua voz. Grande estimulador, o irmão Dori fez a direção artística e os arranjos de seus últimos discos, “Nana, Tom, Vinicius” (2020) e “Nana Caymmi Canta Tito Madi” (2019), lançados num momento em que a cantora escorregou em declarações simpáticas a Jair Bolsonaro —desconsideradas por quem conhecia de perto seu jeito estouvado e sua despolitização.
Como reconhecer a Nana da passeata dos Cem Mil, símbolo da manifestação da sociedade contra a ditadura militar? Ela ficou mais sozinha, mas não se abalou com o choque. “Eu não sou bolsonarista, assim como Amália Rodrigues não era salazarista”, Nana justificou ao cantor Renato Braz, amigo da família Caymmi.
Perto de morrer, ela pretendia gravar as parcerias de Dori e Nelson Motta, em reconhecimento à importância dos compositores no princípio de sua carreira.
“‘Saveiros’ me abriu as portas [vitoriosa no Iº Festival Internacional da Canção Popular, em 1966]. Eu vim de uma separação com filho recém-nascido. Parece que a canção seria de um grupo na época. Nelsinho tendia pra Elis, parece que ele namorava Elis. Mas Dori forçou e me ajudou porque eu tinha me separado, com três filhos, na Venezuela. E foi minha grande libertação dos escândalos. Eu estava sem dinheiro, sem trabalho, sem ser conhecida, a não ser como filha do Dorival Caymmi”, contou Nana.
Sua última gravação se deve à insistência de Renato Braz. Em 2024, Nana argumentou que não queria sair de casa e entrar em estúdio. Para garantir a presença da amiga no disco “Canário do Reino”, seu tributo ainda inédito a Tim Maia, o cantor imaginou uma eficiente gambiarra.
Em 8 de abril, às 11h, Nana recebeu Braz em seu apartamento no Leblon. Ele levava o pianista Cristovão Bastos e o músico e produtor Mário Gil. Olhando os equipamentos, ela pensou ser impossível um bom registro caseiro.
Mário abriu a mala e retirou um microfone de voz, uma interface de áudio pequena, um notebook e os fones de ouvido. “A casa dela tinha um silêncio incrível, maior do que no meu estúdio. Ela tinha falado que lá era quieto. Eu estava morrendo de medo de não ser, mas era”, disse Mário, que trabalhou com a cantora em “Nana, Tom, Vinicius” (2020). Na sala havia um piano, mas, pela facilidade em microfonar, Bastos preferiu levar um teclado.
O primeiro imprevisto surgiu logo no “bom dia”. Nana ensaiara a canção errada. Em vez de “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia, ela passou o dia anterior cantarolando “A Lua e Eu”, de Cassiano e Paulo Zdanowski. “É a música que eu cantei com meu filho [João Gilberto]”, avisou a cantora.
Braz sorriu e aceitou a mudança acidental. Sim, que fosse “A Lua e Eu”. Na hora, ele decidiu fazer uma leve introdução de “Azul da Cor do Mar” e deixar Nana seguir com a outra canção. Bastos improvisou no teclado.
Nana gravou um só take. Não precisou repetir. Mário comentou que sua voz ficara ainda mais bela do que no álbum dedicado a Tom Jobim e Vinicius de Moraes. “Ah, é porque aqui em casa eu estou acordando nesse horário e ainda não conversei muito”, ela explicou. Livre da tarefa, começou a cantar músicas para os amigos, empolgada com a facilidade de gravar um novo disco com aqueles apetrechos em seu apartamento.
No fim de abril do ano passado, depois de combinar uma conversa, telefonei para Nana, que estava radiante com a qualidade de sua voz em “A Lua e Eu”, disponível no YouTube e Spotify.
“Eu não fazia muita fé, não. E era uma música marcante. Porque foi a única música que eu gravei com meu filho em disco e logo depois ele se acidentou. Foi uma prova dos nove pra mim. Que é melhor do que a gravação de Cassiano, é, porque Cassiano não era um grande cantor”, disse, com franqueza, nessa que talvez tenha sido sua última entrevista.
“Eu cuido muito da parte musical. Eu, filha, irmã, mulher, tudo de músico? Foi a escola que eu tive. Eu sou muito privilegiada nessas décadas em que passei cantando. O que teve de boa música! Se eu nascesse agora, estava fodida [risos]. E diziam que eu era doida. ‘Quem é essa doida?”
A experiência aumentou o desejo de reunir um repertório com Cristóvão Bastos, parceiro de Aldir Blanc em “Resposta ao Tempo”, o maior sucesso popular da cantora.
Suas declarações de afeto por Braz —”Renato é uma pessoa amorosa. Eu devo muito a ele, apresentou meu irmão a Danilo Miranda [diretor do Sesc São Paulo por 40 anos, morreu em 2023] e ajudou muito Dori a criar ânimo” —antecipavam um lamento: “Foi uma bobagem ele ter se aproximado do Dori e não de mim. Perdeu tempo. Eu não sou uma pessoa difícil”.
“Eu sou muito emotiva, grossa, falo palavrão, sou tida como maluca, que é uma defesa que tenho dentro da minha idade, dentro dos anos que eu passei, quando a mulher não era porra nenhuma. Minha mãe dizia que naquela época, quando ela cantou, quem cantava era puta. Quem cantava era a ‘mulher da vida’, entendeu?”
Outra vez, mencionou um projeto de disco. “Estou indo pra Minas agora, vou voltar daqui a um mês e aí vou pensar nisso. Quero fazer alguma coisa com o Cristóvão.”
Nana seria internada três meses depois. Desligou o telefone ainda encantada pela própria voz em “A Lua e Eu”. “De primeira eu matei a pau. Eu estou aqui! Estou viva ainda.”


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