A Ditadura Militar no Brasil deixou 434 desaparecidos políticos e mortos, segundo a Comissão Nacional da Verdade. Em Pernambuco foram 51 vítimas
Publicado em 25/01/2025 às 12:55
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Na sala de cinema, Marcelo Santa Cruz chorou durante quase todo o filme. Para ele, assistir “Ainda estou aqui, de Walter Salles, foi como entrar na tela grande e ser transportado, de volta no tempo, para os anos da ditadura militar, que executou seu irmão, Fernando Santa Cruz. O longa nacional conta a história do ex-deputado e desaparecido político, Rubens Paiva, torturado até a morte em 1971. Asim como aconteceu com o ex-parlamentar, a violência da ditadura deixou outros 434 “Rubens Paiva” no País, segundo levantamento da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Só em Pernambuco foram 51 vítimas.
No ano que marca quatro décadas do fim da ditadura militar (1964-1985) no Brasil, “Ainda estou aqui” faz história quando, desde sua estreia, em novembro de 2024, já levou mais de 3 milhões de pessoas ao cinema para conhecer a história de Rubens Paiva, sob a perspectiva de sua esposa, Eunice Paiva. Além de contribuir para o resgate da memória, o filme coloca a democracia no centro das discussões, fortalece o desejo de reparação das famílias e pauta o debate internacional.
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Cena do filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles – STILL
Por tudo isso, “Ainda estou aqui” é a primeira produção 100% brasileira indicada ao Oscar de melhor filme, em toda a história da academia. O longa também foi indicado nas categorias de melhor filme internacional e melhor atriz, pela atuação de Fernanda Torres, como Eunice. No início de janeiro, a atriz também trouxe, pela primeira vez para o cinema brasileiro, a estatueta do Globo de Ouro. A conquista colocou o País no radar internacional do mercado cinematográfico.
RUBENS PAIVA SOMOS NÓS
O filme de Walter Salles conquistou o público brasileiro, mas é assistido com olhar especial pelas famílias e amigos das vítimas da ditadura militar.
“Assisti Ainda Estou Aqui e fiquei impactado. Sou irmão de Fernando Santa Cruz, sequestrado em 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, junto com o seu amigo Eduardo Collier Filho. Os dois foram assassinados sob torturas, dados como desaparecidos políticos. Este é o lado mais perverso da ditadura militar, negar o direito de enterrar os seus mortos, fazer o luto, concluir o ciclo da vida. Chorei grande parte do filme, saudades de Fernando,” conta o advogado Marcelo Santa Cruz.
Irmã gêmea de Eduardo Collier Filho, Dadá Collier, também foi assistir o longa, no Rio de Janeiro, onde mora, e conta que voltou a sonhar com o irmão durante várias noites. “Não enterrar, não ter o ritual da despedida, é como se o luto sempre se atualizasse. A separação nunca acontece definitivamente, é algo inacabado”, classifica. Em um dos sonhos, eles pensavam em estratégias para Eduardo fugir.
Para Dadá, um dos momentos mais emocionantes do filme é quando os irmãos Marcelo e Eliana conversam sobre em que momento cada um teria enterrado o pai para si. Isto é, entendido que ele não retornaria mais. “Esse momento para mim aconteceu no último encontro que tivemos com pessoas da Cruz Vermelha, que estavam nos ajudando. Nos davam notícias sobre meu irmão e entregavam nossas encomendas a ele. Em um certo momento, nos disseram que o contato com Eduardo não era mais possível”, conta.

Dona Elzita Santa Cruz passou 45 anos buscando informações sobre o filho Fernando Santa Cruz, sequestrado pela ditadura militar em fevereiro de 1973, no Rio de Janeiro – Acervo da Família
EUNICE, ELZITA E RISOLETA
Por todo o País, o sofrimento das famílias de desaparecidos e mortos políticos teve rituais semelhantes. Se “Ainda estou aqui” baseou-se na história real da família de Rubens Paiva, tendo a esposa Eunice como fio condutor, os dramas das famílias Santa Cruz, Collier e tantas outras renderiam filmes, pelos olhares da mãe de Fernando, Dona Elzita, ou pela mãe de Eduardo, Dona Risoleta.
Durante 45 anos, Dona Elzita lutou por informações e reparação pela memória do seu filho. Teve uma existência longeva, falecendo aos 105 anos. Foi como se prolongasse a vida à espera de saber a verdade sobre o que aconteceu com Fernando, que lhe aquietasse o coração.
Ao longo de quase cinco décadas, Dona Elzita peregrinou por prisões e gabinetes e escreveu cartas para ministros, presidentes da República, militares e entidades internacionais de direitos humanos. Essa busca, está retratada no livro “Onde está meu filho?” (Cepe Editora), escrito a várias mãos, contando a saga incansável dessa mãe.
Essa busca também marcou a vida de Dona Risoleta. Junto com Elzita, elas buscaram pelos filhos e amigos. Os jornais da época traziam notas pagas pelas famílias buscando informações sobre os dois. “Minha mãe foi uma mulher impressionante. Viveu a perda do filho com coragem e sentido da vida, sem ficar amarga”, afirma Dadá.
TRANSFORMAR LUTO EM VIDA
A trama do longa, aliás, coloca o expectador diante dessa esposa que procurou pelo marido, precisou criar cinco filhos sozinha e viveu uma transformação radical. “O legado de Rubens Paiva está pouco presente no filme, mas ‘Ainda estou aqui’ cumpre seu papel quando Eunice Paiva faz vida a partir de um ato traumático, do luto”, analisa Dadá. De esposa de deputado de classe média, ela se transmuta em advogada em defesa dos direitos humanos.
As famílias das vítimas da ditadura militar esperam que o filme contribua para confrontar o negacionismo da extrema direita, repudiar o regime de exceção, dar visibilidade à defesa da democracia e reforçar o dereito das famílias de dar dignidade à memória de seus mortos. O alcance de “Ainda estou aqui” fez o tema chegar a todas as classes sociais.
“O filme nos fez reviver o nosso sofrimento e indignação. Por incrível que possa parecer, tudo isto ocorreu em nosso País, com indiferença de muitos e a conivência e responsabilidade das forças armadas. O pior de tudo, foi a impunidade dos torturadores, comprometendo em cadeia o alto comando das Forças Armadas, até à Presidência da República”, diz Marcelo Santa Cruz.

Cinema São Luiz em debate após sessão de ‘Ainda Estou Aqui’ do festival Janela Internacional de Cinema do Recife – KEILA VIEIRA/DIVULGAÇÃO
CRIMES DA DITADURA
O advogado defende a punição dos culpados e combate a naturalização da violência no País. “A questão dos desaparecidos abordado no filme ‘Ainda Estou Aqui’ é caso não resolvido, trata-se de crime continuado, permanente, não podemos permitir naturalizar ou minimizar que alguém possa exaltar torturadores, fazer a apologia da tortura, do assassinato e da ocultação de cadaveres. Os chamados desaparecidos, crimes contra a humanidade, por sua natureza imprescritíveis e não beneficiados pela anistia”, defende Santa Cruz.
TORTURA NUNCA MAIS
Voltando àquela sala de cinema do início desta reportagem, quando o filme termina, o silêncio é quebrado por gritos. “O filme terminou e eu não me contive. Gritei, com toda a minha força: tortura nunca mais! Viva a Memória de Eunice Paiva! Rubens Paiva presente! Fernando Santa Cruz presente! Gritamos, juntos, os nomes de muitos companheiros e companheiras que vireram à lembrança. Pela paz, pela vida, tortura nunca mais!”, emociona-se Santa Cruz.


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