Localizadas em grandes vias, edificações revelam necessidade de incentivo para que proprietários invistam em reformas e revitalização
Laís Nascimento
Publicado em 17/03/2026 às 11:37
| Atualizado em 17/03/2026 às 12:17
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Nos bairros do Recife, São José, Boa Vista e Santo Antônio avançam pelas vias o retrato do abandono na área central da cidade.
Ao longo dos anos, a paisagem da capital pernambucana foi tomada pela deterioração e pela passagem do tempo sem revitalização. O desgaste é refletido em lojas fechadas, no esvaziamento de espaços públicos e nos imóveis desocupados – muitas vezes, em um desuso que pode causar incidentes, colocando em risco a segurança de quem passa por ali todos os dias.
Só em 2025, a Defesa Civil do Recife classificou 136 edificações com risco estrutural alto (102 imóveis) ou muito alto (34 imóveis).
Localizados em vias como as Avenidas Marquês de Olinda e Dantas Barreto e as Ruas da Moeda, Bom Jesus, Imperial e do Apolo, esses imóveis revelam a necessidade de incentivo para que os proprietários – a maioria, privados – invistam em reformas que possam ajudar a reviver o centro do Recife.
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A demanda se arrasta há décadas e contrasta com o patrimônio tombado da região. Igrejas, casarões e o conjunto arquitetônico e paisagístico do Recife Antigo são protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1998, mas dividem espaço com edificações depredadas e degradadas.
O que é grau de risco?

Classificação de risco é feita pela Defesa Civil e tem escalas do 1 ao 4 – Laís Nascimento/JC
O engenheiro civil do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (CREA-PE) e membro da gestão do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícia de Engenharia de Pernambuco (IBAPE-PE), Wellington Martins, explica como é feita a classificação de risco pela Defesa Civil.
“A classificação de risco funciona em quatro níveis, do 1 ao 4, onde o 1 é aquele menos arriscado e o 4 aquele que tem o risco mais elevado”.
De acordo com ele, quando a Defesa Civil e os peritos encontram edifícios nas classificações 1 e 2, os imóveis estão em condições de reformas e outras intervenções para recuperação.
O engenheiro destaca que o mesmo não acontece com os R3 e R4. “Quando entra no grau de risco 4, você já remove 100% das pessoas e no três, fica naquele no ‘limbo’ entre permanecer e retirar as pessoas. Se há risco, o mínimo que seja, remove-se as pessoas da área para não correr risco de haver vidas humanas ceifadas por um incidente”, diz.
Além da possibilidade de desabamento do imóvel, Wellington Martins destaca que pode haver risco elevado de choques elétricos ou inundações, por exemplo.
Em nota, a Prefeitura do Recife pontuou que a classificação não indica, necessariamente, risco de colapso estrutural, podendo estar associada a situações pontuais e passíveis de mitigação, como problemas em elementos de fachada, infiltrações ou a necessidade de medidas preventivas.
O texto destacou, ainda, que a responsabilidade pela manutenção preventiva e corretiva das edificações é dos proprietários, com o objetivo de evitar acidentes e garantir a segurança do entorno.
A população pode acionar a Defesa Civil do município por meio do telefone 0800-081-3400. A ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas por dia.
De quem é a responsabilidade?
O engenheiro do CREA também explica de quem é a responsabilidade em casos de imóveis com risco estrutural.
“A manutenção do imóvel para que ele esteja em condições de ser utilizado sempre é de responsabilidade do proprietário. Se for um bem público, do Estado, se for um bem privado, dos seus proprietários, seja uma casa, indústria ou edifício de moradia”, pontua.
Já a fiscalização, destaca, cabe às Defesas Civis – municipais, estaduais e federal -, que trabalham interligadas, dividindo conhecimento, técnicas e procedimentos para cuidar dos incidentes.
Porém, em casos de risco de desabamento de marquises em vias públicas, por exemplo, “é responsabilidade do poder público zelar pelo bem-estar das pessoas que estão ali passando, então ele pode intervir”.
Ao CREA cabe a verificação de responsabilidade de cada profissional.

Abandono na área central do Recife – Cristiane Ribeiro/JC
Um dos casos mais emblemáticos é do Edifício 13 de Maio, localizado na Rua da União, área central do Recife. O imóvel é cercado por casas, bares, restaurantes e pelo Ginásio Pernambucano e os relatos são de que pedaços de sua estrutura do edifício se desprendem e caem com certa constância.
Em setembro do ano passado, parte da parede desabou, atingindo dois carros estacionados e o telhado de um imóvel vizinho.
Abandonado há mais de 60 anos, o prédio já havia sido declarado com risco elevado em 2019. Na mesma época, a Justiça autorizou a Prefeitura a demolir o prédio, mas a obra só começou este ano, com previsão de conclusão para outubro de 2026.
Preservação

Avenida Guararapes no final da década de 1930 – KATARINA REAL/ACERVO FUNDAJ
O abandono de imóveis no Centro do Recife reacende o debate sobre soluções eficazes e a desburocratização para a preservação e revitalização na região.
“Tem que ser ferramentas que incentivem os empreendedores e as pessoas que têm interesse em refazer, reconstruir, recuperar e trazer esses imóveis à vida novamente porque o Recife Antigo está bastante abandonado”, ressalta Wellington Martins.
A Avenida Guararapes é um exemplo de via no coração do Recife que acompanhou as mudanças, o desenvolvimento e a decadência da cidade.
Projetada no final da década de 1920 pelos engenheiros José Estelita e Domingos Ferreira e pelo arquiteto Nestor de Figueiredo, a Avenida tinha o objetivo de melhorar o trânsito e organizar o comércio.
A Guararapes abrigou serviços públicos, cinemas e os principais consultórios médicos e firmas multinacionais da capital pernambucana. Atualmente, é uma via que se restringe à passagem e algumas moradias que têm de um lado as belezas do Rio Capibaribe e da Rua da Aurora e do outro, a insegurança.
“Eu vi aquilo tudo pulsante, com muita gente andando para todos os lados e hoje realmente está bastante abandonado. A gente precisa tomar muito cuidado com isso porque é um sítio histórico bonito e diferenciado, não só no Brasil, mas no mundo, e isso precisa ser preservado”, afirma Wellington.
O que diz a Prefeitura do Recife
Ao JC, a Prefeitura do Recife informou que ao longo de 2025, a Defesa Civil do Recife realizou 136 vistorias em imóveis classificados com grau alto ou muito alto, sendo 102 com grau alto e 34 com grau muito alto na área central da cidade.
De acordo com a gestão, cada vistoria resulta em uma avaliação técnica individualizada, com orientações específicas para reduzir ou eliminar as situações identificadas.
A prefeitura destacou, ainda, que, desde 2021, a política habitacional da cidade já viabilizou a construção de mais de 5 mil unidades habitacionais, entre obras concluídas, em andamento, aprovadas junto ao Governo Federal e garantidas na PPP Morar no Centro.
“Nesse período, foram entregues sete conjuntos habitacionais, totalizando 1.736 moradias, além de obras de contenções definitivas de encostas, que garantiram a segurança de outras 16 mil famílias. No mesmo intervalo, a gestão municipal também concluiu mais de 5,1 mil obras do Programa Parceria, beneficiando quase 11 mil famílias”, finalizou a nota.
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