‘A Sombra do Meu Pai’ revê relações paternas em meio à falência da democracia

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‘A Sombra do Meu Pai’ revê relações paternas em meio à falência da democracia


Em 1993, a Nigéria beirava a redemocratização. Eleições presidenciais chegavam ao fim e sugeriam a vitória do empresário Moshood Abiola, que encerraria o regime militar. O choque foi grande quando o general Sani Abacha anulou as votações e usurpou o poder.

Horas antes dos protestos irem às ruas, um pai andava com os filhos por Lagos, maior cidade do país. Tido por muitos como líder comunitário, ele distribui conselhos por onde passa e tenta manter a normalidade frente aos meninos. É o que acontece em “A Sombra do Meu Pai”, filme de Akinola Davies Jr., em cartaz na Mostra Internacional de São Paulo.

“Na visão das crianças, queríamos que houvesse uma curiosidade em ver o mundo se expandir. Tudo parece novo e emocionante. Para o pai, por outro lado, o mundo se fecha. Ele só pensa na segurança delas, e o contato com o cenário externo, com jornais noticiando a morte de militantes e a agitação iminente, torna o passeio ainda mais desafiador”, afirma o diretor britânico-nigeriano.

Roteirizado por ele e pelo irmão, Wade Davies, o projeto se inspira em memórias distantes —a dupla perdeu o ainda pai cedo e era muito jovem quando a anulação aconteceu. Na trama, Remi e Akinola vivem sob os cuidados da mãe, enquanto Folarin trabalha na cidade. Diante de pendências por Lagos, ele decide levar os filhos para visitá-la.

Primeira obra nigeriana a estrear no Um Certo Olhar, seleção paralela de Cannes, “A Sombra do Meu Pai” vem na esteira de outros títulos do país. São exemplos “Mami Wata“, filme sobre uma divindade africana premiado em Sundance, e “All the Colours of the World are Between Black and White”, que em 2023 conquistou o Teddy Award, troféu do Festival de Berlim dedicado ao cinema queer.

Apesar dos sucessos, Davies explica que Nollywood —apelido da indústria de cinema nigeriana, hoje a terceira maior do mundo, atrás apenas de Hollywood e da indiana Bollywood—, não vê na internacionalização uma necessidade.

As produções desse mercado priorizam a população interna e geram muitos empregos. “Nem por isso podemos ignorar que o cinema depende de colaboração mundial. Nollywood não corre o risco de diluir suas raízes, mas precisa de condições para reunir maiores estruturas e direitos para proteger os trabalhadores que compõem a sua base”, diz o cineasta.

Este, inclusive, é o primeiro longa de sua carreira, marcada por curtas-metragens e trabalhos como artista visual. Não por acaso, o contraste que ele descreve é construído principalmente pela estética do filme.

Ao simular o olhar dos garotos, a câmera prioriza o ir e vir de ondas na areia, a movimentação de formigas e o frenesi de brinquedos num parque de diversões. São cenas que fogem às multidões e se distanciam dos enquadramentos apertados que representam a visão do pai.

Apesar de encorajar o otimismo de quem encontra, o último vê os arredores com fatalismo. Quando embarca num ônibus, se depara com fileiras de rostos angustiados. Na calçada, os corpos se confundem uns com os outros. Eles passam de raspão pelo personagem, dividem o asfalto com caminhões militares e dimensionam as emoções de Folarin.

Mas há um aspecto em comum entre todos os registros. Existe sempre um limite sobre o que as imagens conseguem representar. Seja a textura granulada, sejam espaços negativos ou mesmo o desfoque de alguns enquadramentos, são obstáculos que reforçam o compromisso de “A Sombra do Meu Pai” com a subjetividade. Davies Jr. põe os “mistérios da memória” como cerne do longa. “Foi um processo difícil. Como éramos pequenos na época, questionamos muito a nossa legitimidade em contar essa história.”

Rodada em película, a produção exigiu diárias cuidadosas e até a recriação de espaços hoje extintos. É o caso da praia, que ambienta uma das sequências mais marcantes —é ali que o filhos confrontam o pai e desabafam sobre a sua ausência.

“É um lugar que as novas gerações não conhecem, mas as mais velhas sim. Era um lugar que minha família visitava todo Natal. Também foi onde muitos manifestantes foram executados. Hoje, ela virou um condomínio de luxo. Queríamos resgatar espaços que tocaram a vida de muitos. Eu e meu irmão falamos bastante sobre honrar o mundano”, diz o diretor.

Por retratar crises da democracia via a intimidade de um núcleo familiar, “A Sombra do Meu Pai” lembra “Ainda Estou Aqui“, vencedor do primeiro Oscar brasileiro. O longa de Walter Salles narra a resistência de uma mãe, durante a ditadura, após a morte do marido pelos militares. Davies Jr. afirma existir um diálogo entre o cinema nigeriano e o latino-americano.

“Nós vemos o mundo de forma não linear. O sul global do mundo, ou o que for, se acostumou a ver histórias americanas e europeias, mas o resto do mundo não conhece as nossas. Para humanizar nossa existência, precisamos colocar nossas vivências em tela.”



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