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Antes de virar bloco, a Pitombeira foi encontro. Imagina a cena: quatro cantos de Olinda, amigos sentados em volta de uma mesa, uma sinuca jogada sem pressa, conversa e risada. Era a primeira metade do século passado, mais especificamente, no ano de 1947. Não havia projeto, nem plano, nem pretensão, mas havia rua, tempo e muita vontade de brincar carnaval.
Foi em uma dessas semanas que antecedem o carnaval, quando a cidade já começa a vibrar por dentro, que a Pitombeira nasceu. Depois de “umas e outras”, como lembra Hermes Neto, diretor do bloco, o grupo resolveu sair pela rua.
As camisas foram tiradas, um galho de pitomba arrancado de uma árvore próxima e erguido como estandarte improvisado. O nome veio logo em seguida, criado pelo acaso que costuma batizar as coisas mais duradouras. Então, ali, sem que soubessem, nascia um dos símbolos mais duradouros do carnaval pernambucano.
Em Olinda, a Pitombeira dos Quatro Cantos, hoje considerada Patrimônio Vivo de Pernambuco, não se construiu pela permanência estática, mas pelo movimento contínuo. Ano após ano, ladeira abaixo e ladeira acima, levando consigo memória, arte e suor.
Do improviso à tradição
Com o tempo, a brincadeira ganhou forma. A partir dos anos 1950, o que era encontro virou bloco. “De 1952 para frente, a turma começou a fazer realmente uma agremiação. Em 1953 teve a primeira fantasia, os presidiários”, conta Hermes. Para ele, a trajetória da Pitombeira se mistura à própria história do carnaval pernambucano.
“O carnaval se confunde com Pitombeira, Elefante, Homem da Meia Noite. Foi a união dessa turma que ajudou a fazer o carnaval [que conhecemos] e a levar essa história do frevo de Olinda para o país”. Não como evento isolado, mas como construção coletiva. Uma narrativa coletiva que se escreve a cada ano.
Na Pitombeira, o frevo não acompanha o cortejo. Pelo contrário: ele é quem conduz. É quem puxa o corpo do folião para frente. Na Pitombeira, a orquestra precisa estar viva, “ela tem que estar sempre com autoestima”, afirma Hermes.
As orquestras que hoje desfilam com o bloco foram formadas dentro da própria casa, nas próprias ladeiras históricas de Olinda, onde o som do frevo se mistura ao cotidiano da cidade, a partir de ações de formação e ensino de música.
O mesmo vale para os passistas. Mais do que alegoria, eles se tornam elemento central da linguagem do frevo e ferramenta de inclusão. Para o presidente, “o passista é o principal elemento que representa o frevo”, levando o trabalho para além do desfile, envolvendo formação cultural, social e pertencimento. Crianças que aprendem a dançar, aprendem também a ocupar a rua como lugar legítimo de expressão.
A camisa que virou símbolo de orgulho
A camisa da Pitombeira sempre foi mais do que indumentária. Ela sustenta o bloco, financia o carnaval e funciona como símbolo de orgulho. Vestir a camisa é afirmar vínculo com a rua, com a história e com a continuidade do bloco. Mas, nos últimos meses, esse símbolo ultrapassou as ladeiras de Olinda e ganhou novas camadas de sentido.
Com a presença da Pitombeira no filme ‘O Agente Secreto’, a camisa saiu do cortejo e chegou às telas de cinema, sendo utilizada em uma cena pelo Marcelo, personagem do ator Wagner Moura na trama.
O que antes circulava entre foliões passou a habitar o imaginário nacional, ampliando a visibilidade do bloco para além do carnaval. O impacto foi imediato: a imagem da camisa em cena provocou curiosidade e desejo. Um feito que se refletiu diretamente nas ruas e nas vendas.
“A gente já passou das 2.500 camisas vendidas, tranquilamente”, afirma Hermes. Segundo ele, o resultado garante fôlego financeiro e continuidade. “Isso já dá uma estabilidade para o carnaval deste ano e para o do ano que vem”.
Hoje, a camisa da Pitombeira carrega não apenas memória e identidade, mas também projeção. O cinema transformou o símbolo em imagem amplificada, conectando a tradição do carnaval de rua a um circuito mais amplo da cultura brasileira. A experiência, para quem constrói o bloco, foi atravessada por emoção e surpresa.
“A gente se sente muito feliz por estar dentro desse contexto, que é marcante para a história do cinema e da cultura brasileira”, afirma. Para ele, a presença no filme não é acaso, mas reconhecimento de uma trajetória construída há décadas. “A Pitombeira foi escolhida para estar nesse contexto, e isso vai ficar registrado para sempre”.
Agora, com o filme no Oscar, essa camisa segue atravessando territórios. Da rua à tela, da tela ao mundo, ela continua cumprindo o mesmo papel de sempre: sustentar o bloco e contar uma história.
Patrimônio Vivo de Pernambuco
Em 2023, o bloco foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Para quem constrói o bloco, o título vai além do reconhecimento simbólico. Ele representa a garantia de que essa história não depende apenas do esforço imediato de quem está hoje na rua, mas também dos que vieram antes e dos que ainda virão.
Hermes conta que “a sensação foi de muita felicidade” porque, para ele, “é a confirmação que a Pitombeira jamais morrerá”. O patrimônio, aqui, não congela a tradição nem transforma o bloco em peça de museu. Ao contrário, garante que a Pitombeira continue se reinventando sem romper com suas raízes, que nasceram, no sentido mais literal possível, de uma árvore.
Definir a Pitombeira dos Quatro Cantos não é tarefa simples. Hermes tenta, mas hesita. “É difícil descrever o sentimento”, admite. Ainda assim, arrisca palavras que não dão conta de tudo, mas se aproximam. “Amor, paixão, muita alegria, muita irreverência e muito frevo rasgado, como é a terra de Olinda”.
Talvez seja isso. O bloco é o lugar onde o carnaval deixa de ser evento e volta a ser vida. Onde a rua não é plano de fundo, mas sujeito. Onde a cultura não se observa de longe: se vive, corpo a corpo, ano após ano.





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